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PREDADORES NO WHATSAPP

por feldades, em 04.12.22

Dias atrás, enquanto eu tentava escrever sobre o natalício de meu pai, uma mensagem no WhatsApp mudou meu foco. No canto inferior direito do computador, minha filha me perguntava se eu tinha um tempinho para atendê-la. Claro que eu tinha e mudei a tela para as mensagens do zap-zap, que brotavam céleres.

 

Há tempos, talvez um mês, eu soube que o celular de minha filha havia quebrado, embora ele continuasse sendo usado. Contudo, certo dia “ela” me mandou mensagem, dizendo que agora passaria a usar outro aparelho enquanto aquele seria consertado. A partir de então, ela se comunicaria comigo por outro número e achei razoável que isso pudesse acontecer, não me ocorrendo que o chip poderia ter sido transferido para o novo aparelho sem qualquer transtorno.

 

Bom, naquele dia interrompi a crônica sobre o papai e passei a trocar mensagens com “minha filha”, que precisava urgentemente pagar uma conta, mas com esse celular ela estava sem acesso à sua conta bancária. E disse mais: tão logo o aparelho ficasse pronto, ela me pagaria. Ah, a fatura era urgente e quente: mil quatrocentos e setenta reais!

 

Como minha filha anda adoentada e tem feito alguns procedimentos médicos, entendi que algo pudesse estar acontecendo com suas finanças. Pedi o pix do favorecido – que me foi passado sem demora – abri o aplicativo do banco, descarnei minha magra poupança e já ia transferindo para o número que me foi passado. De repente, pensei: e se for golpe?! Será que essa é a minha filha mesmo?...

 

Voltei ao zap e, muito desconcertado, confesso, propus um teste: “Filha, desculpas, vou transferir o dinheiro que você precisa, mas preciso saber se é você mesma. Estou preocupado porque uma amiga caiu num golpe (menti).” Ela respondeu com uma figurinha que denotava algo entre surpresa e decepção. Abro parênteses para confessar minha ignorância em redes sociais. Eu não entendo dessas figurinhas e costumo me atrapalhar com elas, “pagando mico”. Outro dia, um amigo ficou bravo comigo por causa de um emoji que, segundo ele, era inapropriado. Ainda assim, continuo mandando memes, emojis, gifs e todo tipo de figurinha, inclusive para o amigo bravão.

 

Voltando à “minha filha”, perguntei: “Fale para mim o nome de seus avós, mas quero o nome de todos eles.” Como a “minha filha” ficou em silêncio, desconfiei e mandei uma sequência interrogações. “Calma!”, foi a resposta seguida de mais emojis enigmáticos. Já quase certo de que eu estava sendo vítima de um golpe, fiquei animado e emendei: “Responda logo, porque vou fazer outras perguntas. Quero ter certeza de que você é a minha filha mesmo!”

 

O resto é história. A “minha filha” que falava comigo não era a ‘minha filha’, mas uma predadora, que desapareceu para todo o sempre.

 

FILIPE

 

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AUSÊNCIA

por feldades, em 20.11.22

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Papai faria 92 anos neste 20 de novembro. Descobri cedo que ele gostava muito de seu aniversário. Mas descobri tarde que ele gostava de festejar o aniversário com bolo. Nos últimos anos, quando o irmão mais velho não lhe levava um bolo, papai mesmo dava um jeito. Mais de uma vez aconteceu de haver dois bolos no aniversário do papai: o dele e o do Mano Véio. Uma fartura!

 

Também tarde descobri que papai gostava muito de doces e de queijo. Antigamente a vida não permitia “luxos”, e na geladeira de meu pai não havia dessas iguarias. Mais antigamente ainda, na casa de meu pai nem geladeira havia. Nos últimos tempos, porém, papai tinha queijos e doces à farta numa espaçosa geladeira. Quando lhe batia vontade de comer um naco de queijo com goiabada, não importava se o almoço estava quase pronto ou se era noite alta. Papai ia à cozinha, abria a geladeira, pegava o que queria, sentava-se e se fartava como um rei.

 

Certa vez, papai me pediu para fazer um arroz doce. “Tô com muita vontade de comer arroz doce. Você faz pra nós?...” Claro, pai!”, respondi. Pus arroz numa panela pra cozinhar e o leite pra ferver. Papai ficava por perto, observando tudo. E, sempre que achava necessário, dava uma sugestão: “Porque você não faz assim... Deixe cozinhar mais um pouco... Ponha mais leite...” Caramelei um pouco de açúcar para dar cor ao doce e, quando fui acrescentar açúcar cristal, papai se aproximou e disse com severidade: “Não ponha mais açúcar, senão ninguém consegue comer o doce.” Obedeci. Deixei o arroz doce em fogo brando e esperei. Quando meu pai saiu, corri ao açucareiro, peguei rapidamente umas duas canecas de açúcar, despejei na panela e mexi freneticamente. Passados uns cinco minutos, o Velho estava de volta e já com um prato na mão, muito ansioso pra provar do meu arroz doce. Desliguei o fogo, destampei a panela e pus umas duas conchas cheias no prato dele. “Quer mais?”, perguntei. “Basta!”, ele respondeu. Com o prato fumegante, ele se sentou à mesa, entrelaçou as pernas como somente ele conseguia fazer, e foi mineiramente comendo pelas beiradas o doce quente. Com medo de levar pito pelo ‘doce tão doce’, fiquei de olho nele. Mas não houve bronca. Terminada a “tarefa”, ele se levantou e disse aos que estavam por ali: “O doce ficou no ponto. Se eu não estivesse aqui, ninguém ia conseguir comer, porque o Filipe queria pôr mais açúcar!”. Satisfeito, apenas sorri.

 

Da última vez que visitei o papai, havia uma panela de arroz doce no fogão, que ele mesmo fez. Eu quis provar, mas ele me advertiu: “Esse doce fica melhor com queijo. Provei e senti a alta concentração de açúcar. Gostei e repeti. O que sobrou, pus num pote e guardei na geladeira. Pensei: ele não vai querer mais, porque esse doce está muito doce. Vai sobrar para mim. Que nada! Mais tarde, quando voltei pra procurar o doce, um desconfiado ‘velhinho’ me disse: “Se tá procurando doce, não vai achar. Tinha um resto no pote aí, mas eu já lambi tudo”.

 

É... Este é o nosso primeiro ‘20 de novembro’ sem abraço nem bolo nem arroz doce nem queijo. E sem telefonemas!

 

FILIPE

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ELEIÇÕES À ANTIGA

por feldades, em 06.11.22

Sempre me vem à memória uma lembrança muito antiga, que é de quando meu pai e minha mãe vestiam suas melhores roupas para votar. Curioso, eu perguntava ao papai o que é ‘votar’. Ele me explicava, dizendo que era um direito e um dever do cidadão etc. Eu, sem saber o significado do substantivo ‘cidadão, desisti também do verbo ‘votar’.

 

A eleição acontecia festivamente em Córrego Preto, um bairro rural de minha cidade. O nome oficial do logradouro é ‘Vilas Boas’, mas, por razões bastante particulares, prefiro o nome antigo.  Ou ainda, como os velhos camponeses de antanho, costumo me referir carinhosamente àquele arraial como Corgo Preto.

 

Depois de crescido, comecei a entender mais ou menos como funciona a tal “votação” com a qual papai muito se entusiasmava. Descobri que na nossa região havia dois ‘partidos’: o ‘PR’, tendo como chefe o Zezito Marta, e o ‘PSD’, de Antônio Arruda. Lá em casa, todos éramos “Zezito”; já na casa de meu avô paterno, todos eram “Antônio Arruda”. Havia certa rivalidade entre meu pai e seus familiares, contudo sem qualquer malquerença. Na verdade, essas duas siglas existiam apenas na cabeça do povo. Isso porque o regime militar extinguira todos os partidos políticos, permitindo apenas a Arena (Aliança Renovadora Nacional) – do governo; e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) – um partido de oposição consentida pelo regime. Na nossa cidade havia apenas a ‘Arena’, mas nas sublegendas ‘Arena-1’ e ‘Arena-2’. Quem era do ‘PSD’ votava na Arena-1; já os partidários do ‘PR’, como meu pai, votavam na Arena-2.

 

Lembro também que nas caravanas e comícios, o grito de guerra da turma do “PSD” era “Um, dois, três. É cento e dezesseis!” – uma referência à diferença de votos que houve numa eleição vitoriosa do Antônio Arruda. Mas, nas eleições seguintes, o “PR” elegeu Zezito Marta com uma vantagem de nove votos, e a turma do “Arruda” passou a denominar o inocente ‘número nove’ de “traíra”.

 

Eu gostava daquela “festança eleitoral” e torcia pelo candidato de meu pai. O irmão mais velho também se empolgava, e certa vez ele pegou um carvão e escreveu “PR” na porta do paiol de casa. Papai chegou, viu aquilo, não gostou e mandou apagar. Embora meu pai fosse daquele “partido”, ele nunca permitiu politicagem na nossa casa, como também nunca acompanhou caravanas nem frequentava comícios. Todavia, eu me lembro de estar com ele numa reunião com muita gente. Um homem de terno subiu numa caminhonete e desandou a falar, até cansar. Não entendi nada, mas, como todos aplaudiram, também bati palmas para o falastrão.

 

Noutra ocasião, fui à comemoração da vitória de alguém e havia churrasco, algo que eu conhecia só de figuras em livros.  Chegando -- eu estava com meu pai e algum irmão --, fomos para a área onde se assavam as carnes, mas lá havia muito mais gente do que comida. A custo, papai conseguiu uma vara de bambu com uns pedaços de carne espetados nela. Foi uma decepção para mim o tal ‘churrasco’, que eu pensava ser algo mais apetitoso. A carne usada deve ter sido de segunda ou de terceira.

 

Lembro com saudades daqueles tempos no meu velho Corgo Preto. Embora vivêssemos sob uma ditadura, o povo parecia ser mais civilizado. Ainda quero entender o que está acontecendo com a gente.

 

FILIPE

 

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PERDENDO A PACIÊNCIA

por feldades, em 23.10.22

“Só tem uma utilidade o pobre neste país: votar. É título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso.”

 

A frase acima foi dita pelo então deputado federal Jair Bolsonaro na Tribuna da Câmara em novembro de 2013. E tem mais. No ano de 2000 ele foi ‘o único parlamentar’, dentre os 513 deputados federais, a votar contra o ‘Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza’, projeto do governo de Fernando Henrique Cardoso. Todas essas informações são do jornalista Bernardo Mello Franco em ‘Conversa de Política’, um podcast da CBN.

 

Escrevo este texto pensando em alguns professores bem específicos. Sabendo que esses “professores” pouco ou nada leem, e muito menos leriam este humilde blog, reservo-lhes apenas o último parágrafo, que já é uma significativa honraria para alguém tão insignificante.

 

Desanimado, quase desisti da ideia de atualizar este blog. Aliás, após doze anos publicando regularmente, tenho pensado na hipótese de parar. Não sei mais o que pensar nem escrever sobre o abismo em que nos encontramos. Estamos no fundo do poço e há muita gente cavando para que possamos descer ainda mais. Assunto não me falta, mas escassa é minha inspiração de prosador. Ainda assim, de improviso em improviso, tenho marcado ponto quinzenalmente neste espaço. E o assunto desta vez não poderia ser outro: eleições!

 

Velho que sou, ansiava por um outono de vida mais sereno, com menos sobressaltos. Não estava no meu horizonte a turbulência pela qual passamos, a de ter no poder um degenerado moral, que poderá ficar por outros ‘infinitos’ quatro anos. Ou mais! No entanto, depois de tudo o que foi revelado sobre os métodos e ações desse ser desprezível -- sabemos ser um homem comprovadamente devasso e que fomenta a violência, a destruição do meio ambiente, a corrosão das instituições, a cizânia -- como posso entender que quase metade dos brasileiros ainda possa defendê-lo?...  Não quero, de forma alguma, condenar as pessoas que, por alguma razão ou desinformação, possam apoiá-lo. Mas não consigo entender como gente supostamente esclarecida e religiosa replique o mantra bolsonarista que associa um ‘projeto diabólico de poder’ a Deus.

 

Todavia, escrevo com certo cuidado para não ofender pessoas simples, que votam sem muita convicção, muitas vezes cooptadas por amigos, padres, pastores, familiares ou, pior, pressionadas por patrões. Mas não quero poupar neste texto as classes média e alta. Fico angustiado ao saber que pessoas com alta escolaridade possam apoiar um apologista da ditadura, e que tem como ídolo Brilhante Ustra, um torturador do regime militar. Não dá. Há muitos “doutores”, padres e pastores além de pequenos, médios e grandes empresários, que entregam a alma a esse capiroto. É muita maldade. Essa gente sabe o que faz e por que faz.

 

Agora eu me dirijo àqueles professores que ainda apoiam o usurpador. Será que não perceberam que nossas liberdades estão em xeque? Nunca passamos por momentos tão traumáticos, com tanta violência e políticos desafiando publicamente magistrados. Ainda hoje a imprensa trouxe um vídeo em que Roberto Jefferson, presidente do PTB e cabo eleitoral do presidente-candidato, aparece aos gritos xingando Carmen Lúcia, ministra do STF. Para poupar o leitor, não transcrevo as palavras do “excrementíssimo”, mas não consigo poupar de críticas professores bolsonaristas. Que asco!

 

FILIPE

 

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DE VOLTA À SALA DE AULA

por feldades, em 09.10.22

Eu não queria retornar. Aborrecia-me a ideia de desempregar colegas que estavam me substituindo. E não foi fácil adentrar aquele prédio para lecionar depois de longa ausência. Chegando lá, assinei o livro-ponto e fui para a sala de aula, porque sempre gosto de chegar antes e fazer uma breve meditação. Recebo os alunos, que chegam normalmente em grupinhos de três ou quatro, com celular e fone de ouvido. Quase todos me cumprimentam e cada um vai para sua carteira. Alguns expressam cansaço, uns parecem eufóricos e outros são enigmáticos.

 

Começo a aula com um pequeno exercício, uma equação ou algo assim. Há alunos que olham para a lousa com curiosidade, e outros com indisfarçável enfado. Observo que em muitas carteiras os cadernos continuam fechados e alguns dedos deslizam freneticamente sobre a película do celular – apesar da mensagem na lousa em letras tremidas: “guarda teu celular!”

 

A aula flui, mas não rende. Lá atrás, dois ou três rapazes conversam animadamente enquanto uma mocinha mais à frente está debruçada sobre a mochila. Os demais alunos vão fazendo a atividade mesmo que sem muito entusiasmo.

 

Ando pela sala e ofereço ajuda. “Não precisa, professor. Aqui suave!”, responde um. “Ih, não entendo nada disso!”, reage outro. E assim a aula vai se arrastando, enquanto eu penso na minha ‘hortinha de almeirão’ e no livro que comecei a ler. Adeus horta, adeus leitura, agora é sala de aula! É tentar ensinar e tentar aprender; é abastecer uma plataforma digital; é fazer chamada e lançar faltas e depois tirar as faltas para não reprovar.

 

Continuo percorrendo a sala para ver se a coisa melhora. Paro em frente à garota que está “desfalecida” sobre a mochila: “Oi, você não está bem?”, pergunto. Ela levanta a cabeça e me olha com fúria. “Estou bem, mas não a fim de fazer lição”. “Mas você não acha que isso é importante?” “Ah, professor, eu não entendo nada!...” “Eu posso ajudar. Vamos tentar?...” “Não quero!” “Mas você não acha que pode ficar reprovada se não fizer lições?...” “Eu venho pra escola todos os dias. Por que vou ser reprovada?! (...)” Engoli a seco um impropério e insisti: “Vamos lá. Quero te ajudar.” “Ah, professor, me deixa, vai...”

 

Poupei o leitor de uma frase dita e repetida pela mocinha acima, mas espero que ele possa ao menos imaginar o arco voltaico que percorreu minha espinha e fogueou toda a minha pele. Mas não desisti. Insisti perguntando se havia algo que a aborrecesse etc. Ela pareceu ainda mais indignada e respondeu quase gritando, que tudo estava bem, mas que ela não quer é ouvir perguntas. Então desisti.

 

Terminada a aula, vou para outra sala e lá encontro conversas ‘animadas’ sobre eleições. Um aluno me pergunta sobre o que achei do resultado do primeiro turno. Eu disse que não me posicionaria e pedi, em vão, que interrompessem aquela conversa. A situação ali era de ‘bocas abertas e cadernos fechados’. Diante disso, pedi que ao menos fingissem fazer as lições, mas nada! Nesse momento, entra a diretora e antes que ela desse algum recado, pedi que retirasse o rapaz que liderava o blablablá. Ao ser interpelado e repreendido, o rapaz disse que o professor se ofendera porque “eu falei mal do candidato dele” (!).

 

Cansado, vou para última etapa daquela noite. Terminando essa aula, uma aluna me pede para esperar porque tinha algo muito importante a me dizer. Esperei. Ela veio até mim e simplesmente me abraçou.

 

FILIPE

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MENTE BAGUNÇADA

por feldades, em 25.09.22

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“Aquele que não conhece sua história está condenado a repeti-la”

 

Deixo para comentar a frase acima no final do texto, porque agora estou muito ocupado com minha mesa tão bagunçada, como confuso também estão meus miolos e seus parcos neurônios entrelaçados e preguiçosos. Tão preguiçosos e irresponsáveis como este computador, que fez desaparecer o texto digitado de manhã. Ele, que sempre salvou automaticamente, dessa vez me traiu.

 

Faz tempos que estou aguardando minha sofrida aposentadoria no conforto do lar, onde passo o tempo lendo, cuidando de meus vira-latas, fazendo pequenos serviços com madeira. Também resolvi fazer uma horta onde plantei alguns pezinhos de almeirão. Só almeirão, porque nada mais consigo produzir. A couve, o jacu devora; alface não prospera; cebolinha dá pulgão; rúcula tem ferrugem branca. Mas, para quem não tem muito jeito de hortelão, que pelo menos plante e colha almeirão. E é isso que faço com relativo êxito.

 

E eis que o tempo passou, minha aposentadoria não veio e terei que sair da sombra para voltar ao sol escaldante da sala de aula. E faz dias que estou tentando preparar umas aulas sem saber ao certo o que ensinar e sem ter certeza de que ainda tenho algo a oferecer. Um turbilhão de coisas passa pela minha cabeça. Minhas noites mal dormidas são invadidas pelos fantasmas das lousas, apostilas, planilhas, atividades, relatórios e as intermináveis reuniões. E tem mais. Há as enfadonhas palestras de uns tais especialistas, uma gente pernóstica que nunca deu aulas ou fugiu da sala de aula ou de lá foi expulsa. São seres patéticos, com fumos intelectuais, que usam neologismos à larga, mas tropeçam no próprio vocabulário.

 

Agora, voltando à frase que abre a crônica, preciso dizer algo sobre ela. Quando eu fazia o antigo segundo grau, hoje ensino médio, um professor nos apresentou a frase e atribuiu a Hegel sua autoria. Mas parece que o autor não é Hegel, mas Burke. Para mim, no entanto, não importa quem a fez nascer, mas sei que ela nos faz crescer. Manuscrevi essa ‘máxima’ numa cartolina e fixei na parede de meu quarto para que eu nunca perdesse de vista tal advertência. E é exatamente sobre isso que pretendo falar.

 

Se os professores tivessem mais autonomia didática e fossem estimulados, e até mesmo obrigados, a ler os clássicos, estaríamos bem melhor. Um professor precisa ler cotidianamente artigos e livros sobre artes, ciências, literatura, humanidades etc. e não baboseiras pedagógicas. Todos precisamos conhecer ao menos a história recente de nosso país. Precisamos saber o que foram as ditaduras e o que faziam seus agentes. Mas parece que há uma conspiração oficial contra o desenvolvimento do pensamento crítico. O resultado está aí. Gente supostamente esclarecida acreditando que a terra é plana, que o STF é comunista e que os militares serão os nossos redentores.

 

Bom, sei que sem conhecimento não há salvação, mas o que eu preciso mesmo é organizar a minha mesa, as minhas ideias e preparar as minhas aulas.

 

FILIPE

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CHATEAÇÕES

por feldades, em 13.09.22

Começo a escrever este texto na "sala vip" da viação Cometa, no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Daqui a pouco, por obra do acaso (ou do descaso), embarco para Juiz de Fora. Tenho rodado bastante ultimamente, e essas viagens têm me causado algumas alegrias e variados aborrecimentos. Hoje, quero falar de perrengues, porque dizem que a vida sem um pouco de tédio não tem muita graça. Todavia, se assim for, prefiro uma vida nada engraçada, mas sem tédio. Xô, inhaca!

Não sei por quê, mas quando saí de casa para pegar o primeiro dos três ônibus, que comporiam meu périplo, eu estava sem máscara. E é meu costume sair com aquele trapo charmoso na fuça. Chegando à rodoviária e sabendo da obrigatoriedade, procurei a máscara nas minhas tralhas, revirando a mochila e nada! Eu sabia que tinha posto uma dezena delas junto às minhas roupas. Como não encontrava, pedi ao motorista que me deixasse embarcar e lá dentro eu a acharia com calma. Ele me disse um 'não' com tanta força, que seria preferível um bofetão. Impactado, saí da fila e me sentei para outra vez procurar as tão necessárias e fugidias máscaras. Abri a já tão humilhada mochila e expus suas entranhas. Caiu blusa, rolou para longe uma trouxinha de meias e até uma despudorada cueca foi ao chão. Mas as máscaras... nem sinal delas. Voltei ao motorista, que já estava ao volante e pronto para dar partida, e implorei: "Deixe eu entrar sem máscara. Eu tenho, vou achar e vou pôr..." Ele, do alto de seu imperial poder, indiferente à minha aflição e com indisfarçável deleite, respondeu frio: "Você tem ainda três minutos. Vá ao guichê e compre uma!" Subi a rampa e pedi a máscara, que me custou doídos três reais.

Ornado agora com uma "focinheira" preta, que na pressa pus de ponta-cabeça, entreguei o bilhete de embarque e fiquei ainda mais chateado, porque dentro do ônibus havia gente sem máscara. Sentei, abri a mochila para pegar um livro, mas não achei livro. Achei máscaras!!! Tive vontade de socá-las. Aconcheguei-me na poltrona, sosseguei a alma e adormeci.

 

Três horas depois, eu chegava a Sampa. A passagem estava marcada para as 'cinco e meia da tarde', mas cheguei ao embarque dez minutos antes. Quando entrei na fila, um ônibus aguardava os passageiros, mas não seria aquele. Perguntei a um funcionário pelo meu ônibus e ele disse: "Tá vindo!" Esperei dez, quinze, vinte minutos e voltei lá. Ele de novo: "Tá vindo!"

O tempo foi passando até que apareceu outro funcionário dizendo: "Seu ônibus já foi!" "O queeeê?!", desabei. Segurando o riso, ele disse: "Eu passei aqui e chamei umas três vezes."  Retruquei, dando início a um bate-boca:  "Chamei várias vezes." "Não, isso não aconteceu" "Chamei, sim." "Não chamou." "Sim." "Não."

Os ânimos se exaltaram, perdi a compostura e disparei: "Estou velho, mas não estou doido! Não teve ônibus e vou mandar um e- mail para a empresa!" Nisso, o sujeito afinou: "Por que o senhor não vai lá em cima e pede nova passagem?... Mas fale que chegou atrasado." "Posso ir, mas não quero mentir. Vamos juntos?..." "Não, eu não posso sair daqui."

Fui,  expliquei o acontecido e o funcionário do guichê reconsiderou minha passagem perdida, convertendo-a numa espécie de vale para ser usado noutra oportunidade.

Pois é... Mudei minha rota porque o rapaz disse que perdi o ônibus, mas foi o ônibus que me perdeu. Perdi foi a paciência. Mas não perdi a razão e recuperei a paz numa viagem em que houve encontros, reencontros e nenhum desencontro.

FILIPE 

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DESARMAI-VOS!

por feldades, em 27.08.22

De pequeno, eu já sonhava com uma arma. Comecei com arco e flecha feito de bambu, depois evoluí para canivete, faquinha de ponta, espingarda e... Parei na espingarda, interrompendo uma trajetória que teria me levado a uma cobiçadíssima ‘garrucha calibre 22’.

 

Meu primeiro canivete foi um presente de meu pai quando completei dez anos. Lembro bem do dia em que meu irmão mais velho e eu fomos à cidade com o dinheiro dado pelo Velho, que seria a conta de pagar o presente. Era um domingo de verão com céu nublado e chão molhado. Após caminhar por mais de hora numa estrada barrenta, chegamos à vendinha do Jurandir, em Guiricema, e compramos os canivetes. O meu irmão escolheu um com cabo branco e o meu tinha o cabo em tons escuros.  Aquele foi um dia de grande contentamento para mim, porque com um canivete no bolso eu passei a me sentir um homem-feito. Naquele tempo era assim mesmo. O passaporte masculino para a idade adulta era uma pequena arma ou cigarros.

  

A história da espingarda foi diferente. Mas antes da espingarda, preciso contar outra história. Depois do canivete, eu queria “evoluir” e desejava uma ‘arma de fogo’, chegando a fazer uma artesanalmente. Peguei um cano de guarda-chuva e um pedaço de madeira. Depois amassei e dobrei uma parte do cano e lavrei a madeira até que ela ficasse com cara de coronha. Enfim, fiz uns encaixes, amarrei o cano na coronha com arame e usei um elástico para fazer com que o gatilho pudesse ser armado e disparado. Pronta a minha “bazuca” eu precisava testá-la. Comprei pólvora, chumbo e espoleta. Soquei a pólvora com uma boa carga de chumbo e saí em busca de um alvo, mas não tive coragem de puxar o gatilho. O cano me pareceu muito frágil e aquela maçaroca explosiva poderia me chamuscar a fuça. Desisti.

 

Agora a espingarda. Quando eu tinha uns quinze anos, procurei um tal Chico Alfredo, que tinha uma espingarda para vender. Ah, você não sabe quem é o Chico Alfredo? Não se preocupe porque eu também não sei. Mas isso não importa. Antes de me encontrar com aquele armeiro, pedi permissão ao meu pai. Aqui umas observações: não sei como tive coragem de pedir autorização ao papai para comprar uma espingarda, não sei como meu pai pôde me autorizar a possuir uma arma e não sei como o Chico Alfredo teve coragem de armar um moleque. Estava tudo errado, mas como papai sempre confiou em mim, consegui comprar a espingarda e dei alguns tiros com ela. Passado um tempo, dei fim naquele troço e mudei meus planos, que se tornaram pacifistas.

 

Hoje, já homem velho, exorto a todos que se desarmem. Arma é eficiente para atacar e não para se defender. Até fins dos anos noventa, havia uma propaganda institucional sobre segurança pública dizendo: “Nunca reaja a um assalto”. E as estatísticas apontavam que em 18 reações, o placar dava ’17 a 1’ a favor do bandido. Até aquele tal Jair que se diz Messias já teve sua arma levada por um assaltante.

 

Infelizmente está de volta a sanha armamentista. Nos últimos três anos, segundo alguns estudos, o número de armas com a população civil foi multiplicado por seis, havendo mais armas com o povo do que com as forças de segurança. Pergunto: quais bandidos estão lucrando com isso?

 

FILIPE

 

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DIA DOS PAIS

por feldades, em 14.08.22

Dia desses, conversando sobre meu velho pai e as dificuldades por que passamos ao longo da vida, observei que papai plantou abundantemente, cultivou com esmero e nos deixou fartura. Graças a ele, eu disse, temos hoje generosa colheita. “Sim, devemos colher, mas não podemos esquecer de semear também”, ouvi e concordei dizendo que vamos colher as espigas, debulhá-las e semear os grãos!

 

Metáforas à parte, papai deixou um rico legado de trabalho, honestidade e desprendimento. Em mais remota memória, vejo meu pai lavrador: cultivando roças de milho, arroz e feijão; pedreiro: assentando tijolos, tirando nível e prumo; carapina: lavrando madeira com enxó, plaina e formão; enfermeiro: aplicando injeções, enfaixando braço quebrado (o meu); professor: lecionando, alfabetizando vizinhos e filhos; rezador: rezando terço em velórios e promovendo reuniões para oração na redondeza.

 

Esse era meu pai: um homem de oração e de ação, mas não só. Papai vivia sempre apertado financeiramente. Adoentado, tinha esposa doente e muito filhos para alimentar, vestir e educar. O que ele plantava e colhia nem sempre era suficiente, fazendo com que se endividasse na vendinha no Tatão Aleixo, onde  comprava fiado. De vez em quando, também pegava um dinheirinho emprestado com seu compadre Tatão Tibúrcio. Contudo, papai cumpria à risca todos esses compromissos. Muitas vezes ajudei levar frangos para vender. Eram umas aves tão magras, que pouco rendiam, e esse pouquinho ficava lá na venda para abater a dívida, que só crescia. E assim, sempre que recebia uns ‘cobres’ por um serviço prestado ou por algo que vendesse, papai ia pagando as contas, evitando o constrangimento de uma cobrança.

 

Num passado muito distante, a vendinha do Tatão Aleixo fora de meu pai, onde se vendia o básico para as famílias rurais da redondeza. Tinha lá macarrão, querosene, alho, cebola, açúcar, sal etc. E como toda vendinha rural decente, tinha pinga também! Naquele tempo, papai teve dissabores com seu comércio – não com os cachaceiros, mas com os caloteiros. Lembro que em casa havia um rolo amarrado por um barbante contendo muitas dezenas de papéis nos quais eram marcadas as despesas não pagas pelos clientes. Papai nunca foi atrás de seus devedores, talvez porque fossem todos muito pobres e deles se compadecesse.

 

Um caso mais recente e de grande relevo se deu na venda de um gado. Papai confiava no comprador e lhe vendeu várias reses. Aconteceu que aquele senhor sofreu um golpe de um mercador e então repassou o prejuízo para frente, e um dos “premiados” foi meu pai. Houve quem fosse atrás do homem, confiscando qualquer coisa que ele tivesse a fim de minorar o prejuízo, mas meu pai ficou quieto e não o incomodou. Certa vez, meu pai entrou na agência bancária para receber o benefício, viu o devedor lá. O homem ficou tão desconcertado diante de meu pai, que parecia estar procurando um buraco para se esconder. Então papai se aproximou, pôs a mão no ombro dele e lhe disse: “Olha, fique tranquilo. Eu sempre confiei em você e sei que você vai me pagar. Pode tocar sua vida em paz, porque eu estou bem e posso esperar o tempo que for necessário”. O homem, tomado de espanto, agradeceu emocionado ao meu pai e saiu ruborizado da agência. Papai sempre dizia se sentir muito feliz por ter conseguido aliviar um pouco o fardo que pesava sobre aquele homem, que poucos dias depois teve morte súbita.

 

Neste Dia dos Pais, papai não está mais aqui para receber meu abraço. No entanto, sua presença é seu legado, que tento abraçar.

 

FILIPE

 

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FOFOQUEIROS

por feldades, em 30.07.22

Concordo com o amigo: fofoca é um problema sem solução.

 

Estava para mais de dois anos que eu não o via. A última vez que nos encontramos foi antes da pandemia. Apavorado com a moléstia que se alastrava, refugiei-me num arrabalde bem afastado do burburinho da cidade e não mais me encontrei com o amigo. Dia desses precisei ir à casa dele e lá cheguei no meio do dia. Apertei a campainha e esperei por largo tempo, talvez uns dois ou três minutos. Ele, um “animal noturno e solitário”, foi despertado em horas inoportunas, e isso deve tê-lo aborrecido bastante. Assomou-se à porta, lançando-me um olhar sonolento e nada amistoso, mal respondendo ao meu bom-dia. Perguntei como ele estava, se seus pais estavam bem etc. –  essas perguntas corriqueiras e desimportantes que são feitas por gente educada ou, no meu caso, sem assunto.

 

O amigo apenas disse que estão todos bem, e não foi além disso. Depois ficou estacado como uma fera acuada, fixando-me uns olhos cansados e entediados. Permaneceu no umbral da casa com as mãos no bolso enquanto me observava, talvez querendo me mandar embora.  Eu pensava que ele estivesse com saudade de nossas conversas. Não com saudade de mim, claro, porque saudade nem existe. Mas talvez um desejo de falar sobre coisas prosaicas, como fazíamos nos tempos pré-pandêmicos.

 

Enfim, o rapaz desembuchou e desembestou a falar. Reclamou dos políticos, dos passantes, do comércio, da carestia, de tudo. No entanto, o que mais o incomodava é a tal ‘fofoca’. Dizia ele que a cidade está cheia de gente fofoqueira. Um dia no supermercado, ele contou, havia uns três funcionários que, em vez de trabalhar, ficaram parados que nem jeca, observando o povo que entrava. Entreolhavam-se e diziam algo que, na opinião deste meu amigo, é fofoca. Ele consegue reproduzir o que, na sua imaginação, seria o que os moços teriam dito.  “Aquele ali eu conheço. Mora na minha rua e é um tranqueira. Não trabalha e vive às custas da mãe diarista. Aquela moça de blusa preta gosta mesmo é de namorar. Deve ter uns três namorados e cada dia sai com um.  A mulher de óculos, aquela gordinha que anda mancando, é uma coitada. Foi abandonada pelos filhos e, recentemente, perdeu o marido pela covid. Aquele de bermuda cinza é outro. A namorada não gosta dele, e acho porque ele é muito feio”.  Finalmente, o amigo me disse que não quer mais morar nessa cidade. Quer ir para outro lugar, mas para onde?..., indaga. Nenhum lugar presta, porque fofoqueiro tem em toda parte, completou.

 

Sem poder resolver o problema do amigo, concordei com tudo que ele disse. Antes de sair, no entanto, aconselhei ser melhor desistir da mudança, porque fofoqueiro e coronavírus tem em todo lugar.

  

Despedi-me dele e fui andando devagar, tentando digerir aquelas informações. Já um pouco distante e como bom mineiro que sou, olhei para trás. Lá estava o amigo na mesma posição: parado, pensativo e com as mãos no bolso.

 

FILIPE

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