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12) Assim que terminamos de almoçar, a tia se levantou e foi à pia pra lavar a louça. Enquanto ela lidava com pratos e talheres, peguei a comida sobrante e fui transferindo para uns potinhos de plástico que comprei no mercado logo em frente. Nesse momento, ela parou de lavar e me olhou cabreira. Perguntou se eu tinha comprado em São Paulo, e emendou dizendo que gosta de deixar a comida dentro das panelas, porque fica mais fácil pra requentar. Então a convenci de que os potinhos são mais práticos pois ocupam menos espaço na geladeira. Ela acedeu.
Embora de bucho cheio, decidi tomar banho, trocar de roupa e dar uma cochilada. Enquanto eu me organizava, ela correu ao quarto e preparou minha cama, aquela que a vovó usou até ser internada. Como da outra vez que dormi ali, a tia quis me tranquilizar, dizendo que a vovó não morreu naquela cama. “Ela morreu no hospital!”, enfatizou. E, como de outras vezes, falou das idas e vindas pra acompanhar a mãe nos seus estertores. “Ninguém foi ao hospital. Somente eu ficava lá, depois corria pra casa, tomava banho, trocava de roupa e voltava pra ficar com a mamãe”, disse queixosa.
A roupa de cama bastante especial, com lençol e edredom limpos e perfumados, dava conta de que a visita lhe era de grande agrado. Já de banho tomado e trocado, deitei-me um pouco, mas não consegui dormir. Minha mente não parava devido aos compromissos que eu teria naquele curto passeio. Precisava fazer umas visitas e a tia tinha algumas demandas também. A pia da cozinha entupida, a torneira do banheiro emperrada e a porta do quartinho, onde já teve um fogão a lenha, estava pendurada na dobradiça por apenas um parafuso. E o telhado, com algumas telhas quebradas e outras afastadas pelos gatos traquinas, teria que ser consertado antes da chuva, que não tardaria.
13) Desisti da sesta e me levantei. Voltei ao mercadinho e comprei umas bananas, tomates, pimentões, jilós, cebolas, e peito de frango... Acho que foi só isso. Cheguei com as compras e a tia se incomodou, querendo me pagar. Mas a coitada não tinha dinheiro e não sabia como fazer pra continuar com o gesto de “vou pagar e me fale quanto custou...”.
Eu sabia que ela andava meio descapitalizada, e ainda que ela tivesse dinheiro sobrando, jamais eu permitiria que ela pagasse aquela despesa. Acomodei as coisas na geladeira e comi algumas bananas. Banana-prata!, que é a banana preferida dela e de quase todo mundo da classe média – descobri isso recentemente. “Quanta banana você comprou! Não precisava...” Precisava, sim. Descobri que ela gosta, come várias por dia, mas em fim de mês, com a grana curta, poucas bananas restavam na fruteira.
Conversa vai, conversa vem, a tia tocou num assunto que tem lhe tirado o sono ultimamente. “Meu Deus, eu não sei quanto tempo vou viver, mas se sobrar alguma coisa do que tenho, queria dar um pouquinho pra cada sobrinho, e não apenas pra uma ou duas pessoas.” “Uai, tia. Não estou entendendo...” “É que me levaram ao banco e me deram um monte de papel pra assinar. Eu assinei... Agora fiquei sem nada!” “Tia, a senhora não doou nada pra ninguém. Tudo continua sendo da senhora!”
Ela me ouviu, mas não se convenceu. Então eu disse que ela não perdeu nada, que poderá doar tudo em testamento para quem ela quiser. Eu disse que a assinatura no banco foi uma procuração para que, caso ela fique doente e sem condições de movimentar a conta, um sobrinho possa sacar o dinheiro e pagar as despesas da casa.
Expliquei que isso acontece para quem está sozinho, como ela. Mais uma vez a tia me ouviu atentamente e agora parece que entendeu. Aparentemente ela ficou tranquila, mas as coisas não estavam resolvidas. Ainda!
(continua...)
FILIPE

Todos os dias eu me levanto bem cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho mais a podcasts de literatura e pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular brasileira!
O dia de hoje não seria diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.
A noite foi serena, o sono tranquilo porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era anódino, nada de anormal piscava na tela.
Terminada minha “tarefa”, e ainda sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade. Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.
Todavia, meu desalento sequer pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns em agonia.
Os Estados Unidos violentaram a Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos, se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.
Penso que neste século deverá haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China, a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.
“Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos sob o reinado de Satã’, digo eu.
FILIPE

Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia.
E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes.
O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminhava pelo quintal.
O dia avançou para a hora do almoço. Havia planos de ir ao restaurante, mas desistimos e resolvemos requentar sobras de ontem. Tinha arroz, que “batizei” com cebola frita e um fio de azeite. Tinha também batata-doce, quiabo, feijão e linguiça calabresa – que fora cozida, depois frita e assada. Assim foi o nosso almoço, que comemos alegremente neste dia especial.
A sobremesa, que dificilmente como, dessa vez foi chocolate. Não quero fazer propaganda, mas a Cacau Show me faz ‘cometer o pecado da gula’ com suas trufas. Comi duas após o almoço, e só não comi mais porque não sou afeito a arroubos à mesa (mentira).
Depois veio a sesta, que tomou deliciosas duas horas de minha tarde. Em seguida, uma caminhada com parte da matilha: a Pituka e o Tiziu – ela uma anciã e ele um idosinho. Deixamos a Maneka e o Pitoko aos prantos, como sempre, e nos esgueiramos pelas ruas do bairro, uma delas muito íngreme e esburacada. Próximo a uma casa em construção, no mato, havia duas tábuas em meio a cupins que devoravam um tronco de madeira. Bati bem as tábuas, livrando-as dos insetos e as peguei, voltando pra casa com os cães e a pequena “fortuna” nos ombros. Essa sucata será muito brevemente transformada num pequeno móvel.
A tarde, que chegara ligeira, despediu-se apressada e veio a noite. A minha companheira perguntou se eu não queria sair. Havíamos planejado ir a um barzinho – aqui na cidade há vários e muito bons. Não, não vamos sair. Ficar em casa é o melhor programa que se tem. Essa decisão foi aprovada por unanimidade.
Agora, pra terminar o dia, decidi registrar esses pequenos traços de um cotidiano, que se faz pleno exatamente pela sua rotina frugal.
Ah, e o ‘presente de aniversário’? Sim, houve um presente. Ele está na foto que abre o texto. Uma pequena prateleira feita com retalhos de madeira, que fiz ontem e hoje instalei. Ela terá grande utilidade para nós, onde poremos os remedinhos do dia a dia.
FILIPE
10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado.
Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção.
Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? Bem mais que dez, mas não vinte. Houve um tempo em que havia uns trinta gatos, mas os cães da vizinhança deram cabo de alguns, outros sumiram, de forma que ficaram “apenas esses”, conforme a tia diz. Por sorte minha, os gatos saíram, mas não a tia, que continuou amuada, dando impressão de que não estava a fim de receber visitas.
Entrego a chave, ela a recolhe e ensaia um movimento de entrada, como se a minha presença ali fosse uma rotina como a do leiteiro, entregando a garrafa de leite, ou a do rapazinho do mercado em frente com as mercadorias que ela pediu – encomenda essa que ela sempre faz pela janela da sala, de onde ela chama o vendeiro, que a atende ligeiro e prestimoso.
Quando lhe dei a mão para a bênção, ela me abençoou sem entusiasmo e, mesmo desanimado, puxei assunto, mas a “velhinha” estava agarrada, quase muda. Falei que eu havia viajado pra ficar uns dois dias com ela e que seria na casa dela que eu me hospedaria. Ela expressou espanto e me perguntou: “Uai.. você não está indo pra roça? Pensei que fosse pra casa das suas irmãs...” “Não, tia. Eu vim pra ver a senhora, ficar com a senhora. Posso até visitar minhas irmãs, mas é aqui que quero ficar. Só não quero incomodar. Depois de amanhã já estou indo embora.” “Ô diacho... Eu não sabia que você vinha pra ficar aqui. Por que ninguém me falou?” “Ah, tia. Eu que pedi pra não falar. A culpa é minha”.
11) Depois a tia se soltou um pouco, até sorriu, e entramos. Deixei a mochila no sofá da sala e segui com ela para a cozinha, onde havia dois ou três gatos que, ao me verem, voaram pela janela e sumiram para o quintal. A tia me disse que eles não gostam de visitas, e isso me deixou bastante animado. Uma observação: amo animais, mas ‘cada qual com seu igual’.
O fogão da tia estava com uma panela em fogo baixo. Desconfiado de que ela estivesse fazendo comida, e pra não atrapalhar, eu disse que gostaria de levá-la pra almoçar fora, poderia ser no restaurante daquele bairro. Ela foi assertiva, dizendo que estava entojada de comida de restaurante e que por isso mesmo decidiu ela própria fazer sua comida. Desta vez, ela estava fazendo um macarrão com ‘um restinho de frango de ontem’. Disse que tinha feijão cozido na geladeira e que a comida daria pra nós dois. Resistindo ao convite, tentei declinar, mas a tia foi incisiva e tive que almoçar do almoço dela.
Aqui um segredo para os meus raros e caros leitores: a comidinha da tia não estava me agradando. O macarrão, muito branco, se desfazia junto ao frango, também muito pálido. Ela tinha um pouco de feijão batido e temperado na geladeira, que fez voltar ao fogo e o engrossou, ficando bastante saboroso, mas estava faltando algo.
A tia, agora animadinha por eu não ter desistido da comida dela, pegou dois pratos, me deu um e ordenou que eu almoçasse. Perguntei se tinha ovos. Tinha na geladeira. Peguei três ovos, ela me deu uma frigideira e ficou me espiando. Pus óleo e despejei os três ovos para uma fritada única. Ela ficou alarmada: “Uai, eu frito um de cada vez...” “Não, tia, eu frito tudo junto e vai dar certo!” Pus a fritura num prato e dividi ao meio: metade pra ela e metade pra mim. Almoçamos bem. Ela não reclamou do ovo, mas disse que o feijão, que ela mesma tinha preparado, estava meio salgado. Eu não achei, mas não tenho isenção para falar de ‘salinidade à mesa’.
(continua...)
FILIPE

Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.
Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.
Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta. Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.
A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor.
Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.
O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.
Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.
FILIPE
7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.
Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”
8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.
A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.
Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.
9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.
O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.
O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.
De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.
Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.
(continua...)
FILIPE
4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada. Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura!
Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar dormindo ainda, porque toma remédio forte.”
5) Desisti da minha amiga e desisti de voltar de táxi também. Pensei: ele cobrou quinze reais pra me trazer, serão outros quinze reais pra me levar, e tá ficando caro esse passeio... Com esses quinze reais economizados, eu tomo um bom café!
A casa da amiga fica no morro. Desci meio sem saber pra onde ia e perguntei a um senhor que pintava a fachada de uma casa que caminho me levaria à rodoviária. Ele me orientou. Mais à frente, perguntei a outra pessoa pra confirmar a informação anterior. Estava certinho.
Já estava perto das nove horas quando avistei uma padaria e parei ali para o desjejum, que normalmente é leite com chocolate e pão com manteiga. Entrando, cumprimentei a moça do balcão e perguntei onde fica o banheiro – eu tinha uma “emergência líquida” e queria escovar os dentes também. A moça me deu a chave e apontou para um quartinho, onde seria o tal banheiro, e pra lá fui alegremente.
6) A chave que a balconista me deu tinha um pedaço de madeira como chaveiro, mas isso não tem importância aqui. Abri a porta e vi que o banheiro estava limpo e até perfumado. Acima do vaso sanitário lia-se: “respeite esse banheiro porque senhoras usam também”. Respeitei o banheiro, é claro, mas eu tinha que lavar as mãos e precisava escovar os dentes. Cadê sabonete? Não tinha. Olhei em cima de um armário e vi muitos produtos de limpeza. Detergente? Não tinha também. Abri o armário, fucei lá e não achei sequer um sabão em pó – nada que eu pudesse usar para lavar as mãos. Então peguei um desinfetante e aproveitei pra desinfetar mãos, maçaneta, chave, chaveiro, tudo... Terminado esse serviço, procurei uma mesa e esperei meu café, que nunca é café, mas achocolatado – eu já disse isso. Pedi, além do chocolate, um pedaço de broa e dois bolinhos de chuva. Já longe do banheiro, mas não do desinfetante, que se me impregnara e me acompanharia por um bom tempo ainda, regalei-me com o desjejum. Aquela broa mineira, os bolinhos de chuva, até o achocolatado, que nem tinha tanto chocolate assim, estavam uma delícia! E o melhor: aquela fartura toda me custou apenas ‘seis reais e dez centavos!’ Repito: ‘seis reais e dez centavos!” Gostei muito e gastei pouco.
(continua...)
FILIPE
Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.
1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila.
Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um fígado humano.
2) Meu ônibus encosta, passo pelo funcionário e procuro a poltrona 13, que estava vazia, mas não disponível. No chão, duas bolsas enormes ocupavam o espaço onde eu descansaria os pés, impedindo-me de tomar assento. Olhei para os lados e não vi ninguém que pudesse tirá-las dali. Decidi eu mesmo removê-las e me aninhei no canto. Nisso chegou a dona das bolsas. Ela me olhou espantada e eu retribuí o olhar com ares não muito amorosos. Perguntei se ela não queria que eu pusesse uma das bolsas no bagageiro – numa tentativa de apaziguamento. “Minha bolsa não fecha!”, ela disse quase gritando. Deixei a mulher com suas bolsas que não fecham de lado e tentei cochilar, mas essa vizinha estava impossível. Ela começou a conversar com seus irmãos de igreja, depois abriu um áudio de ‘onze minutos’ (conforme o pastor mesmo disse) e, em volume bem alto, começou a pregação. Achei a coisa tão medonhamente inusitada, que gravei uma parte daquilo.
3) Espremido entre as bolsas da mulher, segui viagem sem ao menos poder me esticar mais confortavelmente. Por fim, a pregação do pastor acabou, as conversas com os irmãos de igreja também, mas a lanterna do celular e o mexe-mexe da vizinha nas suas bolsas me aturdiam. E assim, já bastante moído, cheguei a Visconde do Rio Branco, que ainda não seria meu destino final.
(continua...)
FILIPE

Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar.
Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda. Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois.
A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência humanizadora! E assim, enquanto a Rosana fazia a burocracia na recepção, eu era conduzido pela Gorete a uma sala de enfermagem.
Num canto daquela sala havia uma maca e pedi à enfermeira para ficar nela, porque meu desconforto na cadeira era enorme. “Claro”, assentiu e me ajudou a subir naquele equipamento. Ela mediu minha pressão (8,0 por 4,0), mediu a minha glicose (normal) e quis saber o que mais eu sentia e o porquê de eu ter ido ao ambulatório.
Embora deitado, o mal-estar continuava me afligindo. A enfermeira tentava me tranquilizar, dizendo que logo passaria, e pegou alguma coisa, talvez uma almofada, e a pôs embaixo de meus pés enquanto abanava-me o rosto com meu chapéu. Passados uns minutos, melhorei um pouco e ela me conduziu a uma sala ampla, com várias macas e pacientes. As enfermeiras me acolheram ternamente, mas uma delas furou meu braço para o tal acesso. Na primeira espetada ela já alcançou uma veia bem bacana, me poupando de outras agulhadas. Nesse momento me veio forte a imagem de minha mãe em suas inúmeras internações: quantas vezes ela teve de suportar essas fincadas... Fui testemunha do sofrimento da mamãe, que debatia, gritava, chorava. A enfermeira não achava veia... Então ela chamava outra enfermeira, que também não achava, tornando-se essa uma rotina agônica na vida da minha mãe.
Depois de tudo acertado, veio-me o soro. Foram duas “sacolas” daquelas de um litro, ou quase. Enquanto o soro gotejava na minha veia eu pensava na vida e no final dela, que não me parecia muito distante. Em certo momento, outra enfermeira chegou e me pediu que entregasse relógio, aliança e demais pertences. Eu não tinha mais nada pra entregar. Então ela disse que era pra eu retirar toda a roupa. Jogou sobre mim uma “camisola”, que me cobriu por inteiro, e me despi. Ali, naquele momento, eu estava completamente despido de tudo. Em mim não havia pudor nem vaidade; e não havia saúde também; nem orgulho nem mágoas. Eu era apenas um corpo frágil à espera do sedativo, que viria sem tardar.
Enquanto eu pensava na brevidade da vida, alguém chegou: “Voltei. Você está bem melhor, até mais corado... Lembra de mim? Eu que te socorri.” “Ah, a Gorete!” “Então, eu que vou te acompanhar no procedimento.” A Gorete, agora uniformizada, me conduziu à outra sala. Nesse momento eu trajava camisola azul clara, tinha um monitor de pressão e outro de não sei o quê, depois recebi uma cânula de oxigênio e, antes da injeção que me sedaria, tive uma breve epifania: bateu-me forte a imagem do meu pai no leito da UTI. Papai estava exatamente assim e isso me trouxe grande conforto.
Enquanto o médico fazia umas anotações, a enfermeira me ajeitava na maca e disse que me daria uma pequena fisgada no braço para a sedação. Eu fechei os olhos num esforço pra não sentir... e abri logo em seguida ao ser tocado por uma pessoa: “Você já está liberado.” Era a enfermeira Gorete.
FILIPE

Ninguém me pediu opinião sobre a condenação da cúpula golpista, mas estou dando o meu parecer, embora não sem antes dar vivas à Carmen Lúcia, essa destemida norte-mineira que honra como poucos a toga que veste. Dona Carmen é diferente, porque ela chegou ao STF sem que tenha feito rapapés nem beija-mãos. Dos onze integrantes da corte, ela é a única que não está e nunca esteve amarrada a compadrios. A única!
Admiro o Flávio Dino, a quem atribuo qualidades de um estadista – atualmente, na minha opinião, o maior nome da nossa República. No entanto, neste momento quero exaltar a mineirinha de Montes Claros, porque foi o voto dela que selou o destino dos golpistas. Segundo os estudiosos, essa é a primeira vez que o Brasil julga e condena conspiradores que atentaram contra a democracia. E já foram vários atentados, pelo menos quinze!
Agora me surgiu uma dúvida: será que os réus vão para a gaiola? Sinceramente, penso que não. No Brasil, cadeia tem sido o destino de pobre e de preto; a grã-finagem, quando condenada, costuma “cumprir pena” em ‘prisão domiciliar’, ou seja, na mansão onde mora.
Todavia, se eu pudesse resolver essa parada, o Bozó e os seus generais não iriam para a cadeia. Sabe por quê? Porque cadeia custa caro. Qual a alternativa então? Ah, muito simples. Todos eles, sem exceção, teriam os provimentos e demais ganhos interrompidos durante o cumprimento da sentença. A pena seria a de prestação de serviços como: limpeza urbana, higienização de banheiros públicos, coleta de lixo nas ruas, pintura de guias e outras "divertimentos" – tudo isso levando-se em conta as habilidades, potencialidades ou “comorbidades” de cada apenado. A jornada deveria ser de quarenta e quatro horas semanais e na escala ‘seis por um’ como todos nós, reles mortais, suportamos e cumprimos. Ah, um benefício: ninguém passaria sede nem fome, porque o poder público se encarregaria de fornecer água e marmitas. E as férias? Nada de férias, porque já bastam os feriados, que são muitos, além dessa enormidade de domingos ao longo do ano. Pra que mais folga?! Nada mais lhes seria oferecido nem cobrado além da pena, que deveria ser cumprida integralmente.
Voltando ao título desta, a imagem que abre a crônica me faz imaginar a dona Carmen dando uma bronca no seu colega “traíra”, uma descompostura nos conspiradores ou um chega-pra-lá naquele ‘ogro laranja’ estadunidense, que se acha o dono do universo e quer se meter no nosso país. Vi essa foto no site da Folha, gostei tanto dela que a trouxe pra cá. Porque ali está uma mulher aparentemente frágil, mas capaz de fazer chover para garantir a soberania de seu país; e de fazer parar a chuva só pra conduzir o seu povo a pés enxutos à liberdade.
Obrigado, dona Carmen!
FILIPE
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