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DONA LAURA

por feldades, em 15.02.20

Conheci a dona Laura já beirando seus ‘noventa’ no longínquo passado quando me mudei para esta cidade. Ela estava sempre bem ornada com um vestido ramado, de cores fortes. E seus cabelos, muito brancos, acomodavam-se sob uma presilha dourada. Dona Laura me parecia uma mulher feliz, porque piedosa e elevada, embora tivesse lá seus perrengues de saúde e de finanças.

 

Laurinha, como eu ousava chamá-la, morava numa modesta casa ajardinada com seu filho Laercio, um rapaz já de “muitos dias” com quem pouco conversei, porque estava sempre meio “escondido”.  Meus encontros com ela se davam regularmente aos sábados, à noitinha, quando voltávamos da igreja que frequentávamos num bairro vizinho. Conosco também vinha uma falante dona Mariinha, que era meio ‘reclamona’. Dona Laura tinha paciência com a amiga, mas não lhe poupava umas reprimendas de vez em quando. “A Maria é boba, devia parar de reclamar, porque ela é a dona da casa e não tem que viver humilhada”. Quase sempre, dona Mariinha vinha falando que não tinha almoçado direito e que nem ia jantar. Dona Laura, que sempre fazia uma sopa antes de sair, dizia-lhe: “Vamos lá em casa. Fiz uma sopa e você pode tomar à vontade”.  E a dona Maria ia mesmo. Mas depois desconfiei que seus queixumes fossem por conta da senilidade, que avançava. Não passou muito tempo, dona Maria partiu.

 

Por algumas vezes fui à casa da amiga Laura. Seu quintal era pequeno, cimentado e ainda assim bucólico. Havia nele vários pés de frutas dentro de latas de tinta, que o Laercio plantava para presentear amigos. Um pequeno abacateiro chegou a frutificar dentro da lata. Havia também um cercado com alguns bichinhos e um deles era uma pata de nome ‘Chico’. “Mas por que Chico, dona Laura?” “Eu pensei que fosse macho, mas ‘ele’ começou a botar e eu continuei chamando de Chico”. Na frente da casa, um canto do jardim era sombreado por um frondoso pé de jabuticaba, cujas frutas dona Laura fazia questão de colher e levar à minha casa.

 

No Natal de 2007, fui convidado para o almoço. Cheguei ao meio-dia e a dona Laura estava toda animada. De avental branco, cozinhava, lavava e servia aos filhos, netos etc. Depois desta visita, fiquei um tempo sem vê-la, até que um dia reapareci. Seu filho Laercio abriu a porta e perguntei pela mãe. “Está na cozinha. Entre”. Entrei e a encontrei sentada numa cadeira. Estava bem debilitada, magrinha. Mas me reconheceu, abraçou-me e me beijou, como sempre fazia. No fogão, estava um Laercio meio atrapalhado com as panelas. Lembro que fritava peixes e os punha num prato. Era uns peixinhos pequenos, tipo sardinha, que ficavam meio morenos de tão torrados. Pensei: “Dona Laura não vai conseguir comer isso, porque já reclama de não ter fome”. Conversamos um pouco, ela elogiou o filho, dizendo estar muito bem cuidada por ele etc., e fizemos uma prece. Após esse encontro, nunca mais pude vê-la.  Dona Laura partiu logo depois.

 

Nesta semana, o obituário trouxe o nome de Laercio Favaro. Bateu-me uma interrogação seguida de uma exclamação. Dona Laura já tem a companhia de seu filho na eternidade!

 

FILIPE

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O CENTENÁRIO DE JACYRA

por feldades, em 01.02.20

Minha avó materna, a saudosa dona Jacyra, faria cem anos no próximo dia quatro de fevereiro. Faria, não. Ela fará cem anos, que comemorarei sozinho, sem bolo, mas com uma prece. Porque, para mim, a vovó não morreu.  Ela continua viva na minha história.

 

Dona Jacyra foi avó muito jovem. Quando ela tinha apenas 35 anos, nasceu minha irmã Luzia, sua primeira neta. Depois de Luzia, rebentaram-se em diversos ninhos, ao longo de quatro décadas, outros 39 netinhos.  Uma fartura!

 

Recordo com saudade das inúmeras vezes em que mamãe nos levou à casa da vovó. Chegávamos no meio do dia, muitas vezes sob sol forte. Então ela nos oferecia água fresca tirada de um pote, servida numa caneca artesanal de lata. Sobre um pranchão de madeira embaixo da janela da cozinha, havia dois grandes potes de barro, que eram liturgicamente abastecidos por meu avô Aurélio. A mina ficava um pouco distante, mas o vovô sempre estava às voltas com seus baldes, nunca deixando faltar água em casa.

 

Lembro-me bem daquela casa branca, imponente, embora de pau-a-pique e calçada de pedras. A cozinha, de enorme pé-direito, exibia uma grande mesa com dois bancos de madeira. O fogão a lenha, o único que já vi assim tão majestoso, ficava num canto, mas desencostado da parede, permitindo que fosse usado por destros e canhotos. Embaixo do fogão havia um compartimento para armazenar pequenas quantidades de lenha. Uma grade dentro da fornalha permitia escoar as cinzas para um nicho, de onde seriam facilmente recolhidas.

 

Da cozinha, uma escada de pedra dava acesso ao corpo da casa. No fim dessa escada, à esquerda, ficava o antigo quarto do casal. Em seguida, percorrendo-se uma salinha comprida, com alguns móveis, via-se à direita três quartos: um pequeno, onde meu avô passou a dormir, e outros dois maiores. Um corredor dava acesso à sala principal e a um quarto para visitas. O cômodo mais interessante da casa não era nenhum desses, mas a despensa, que ficava ao lado da cozinha. É ali que, numa grande caixa de arroz em cascas, amadureciam cachos de banana.

 

Ah, a vovó deve estar ainda naquela casa (há tantos anos demolida) mexendo nas panelas, ajeitando os tições, soprando o fogo. Eu a vejo através do portãozinho que fica na porta da cozinha. Ela não sabe, mas estou escondido ali, ao lado da bica d’água, sob a sombra do pé de manga-espada. Revejo, com saudade, as grossas raízes das duas mangueiras, onde se senta para ouvir sabiás-laranjeiras no pé de pitanga e seriemas lá pelos lados do ‘pé de jaca’, no “Dourado”. Enquanto isso, embaixo do assoalho cacarejam galinhas poedeiras, e no terreiro ao lado canta um melancólico galo garnisé.

 

Eu não sabia por que gostava tanto de você, vovó. Bem mais tarde, soube que foi por suas mãos que vim ao mundo. Mamãe estava na sua casa quando nasci, e você foi minha parteira.

 

Parabéns, vovó, mas esses cem anos passaram muito rápido. Permaneça conosco por outros séculos!

 

FILIPE

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QUANDO A MEMÓRIA COMEÇA A FALHAR

por feldades, em 18.01.20

“Rua dos Camarés, 94  –  9º DP; ônibus 2010, Pq. Edu Chaves”  

 

O endereço acima me foi dado por um agente policial da rodoviária Tietê, em São Paulo. Caso o leitor decida me seguir, saberá o porquê disso.

 

Numa tarde de domingo, eu me preparava para uma viagem à casa de meus pais, em Minas. Ao sair, já no carro, senti falta do celular. Como estava a poucos metros de casa, uma marcha à ré foi suficiente para eu verificar que o aparelho não tinha ficado em casa, mas estava escondidinho na mochila. “Minha memória está fraca”, pensei.

 

Então verifiquei documentos, dinheiro, passagens etc., e pude seguir tranquilamente. Chegando ao terminal rodoviário, com quase quatro horas de antecedência, fui ao guichê de autoatendimento e retirei a passagem. Beleza. Agora é sentar e esperar o tempo passar. Aprecio ficar sozinho nesse oceano. São milhares de pessoas indo e vindo. De um canto, bem discretamente, observo a multidão em viagem, e eu viajo com ela.

 

Antes daquela fruição, achei melhor verificar se estava mesmo tudo certinho: datas das passagens, documentos e dinheiro. Um arrepio gelou-me a espinha: “Cadê a carteira de identidade?!” Na verdade era a CNH, que uso por ser de menor tamanho. Não, ela não estava na carteira nem em nenhum compartimento da mochila. O documento não estava comigo e sem ele eu não poderia embarcar. Desci às pressas e fui ao posto policial a fim de pedir autorização para seguir viagem. Um simpático soldado me atendeu, mas não resolveu o problema. “Estamos sem internet. O senhor terá que ir ao próximo DP”, ele disse e anotou num papel o endereço e me apontou o ponto de ônibus.

 

Entrei no ônibus, paguei a passagem e perguntei ao cobrador onde ficava a tal rua dos Camarés. O rapaz, tatuado e com fone de ouvido, não estava muito a fim de conversar, mas acedeu. “Ih, cara, embaçou. Não conheço nada aqui. Quem faz esse trajeto e um cara que tá de folga.” “Mas... como faço?”, perguntei. “Motorista, onde fica a rua dos Camarões?”, perguntou. “Não é ‘camarões’, é ‘camarés’!”, acudi. “Sei não”, respondeu o condutor. O ônibus avançou mais alguns quarteirões e o motorista parou. “Fala para ele descer, porque a rua dos Camarões fica por aqui.” Desci. Passei numa barraca de doces e perguntei ao moço. “Sei não, cara. Nunca ouvi falar na rua dos Camarões”. Desisti de explicar que era ‘camarés’ e não ‘camarões’, e procurei um taxi. O taxista enrolou um pouco dando umas voltas e por quinze reais me deixou em frente à DP. Entro na unidade e, surpresa, fui prontamente atendido. Com o papel carimbado, saí à procura de táxi para retornar à rodoviária. Nada de táxi. Ando mais, e nada! A noite vem chegando rápida e eu longe da rodoviária, mas perto de uma estação de nome pouco sugestivo: ‘Carandiru’. Entro num posto de gasolina e acho um táxi estacionado. “Me leva ao Tietê?...” O cara fez corpo mole: “Tô de folga!” “Mas onde encontro táxi?” “Ih, tá difícil. Mas entra aí, vai. Vou te quebrar essa”. Fiquei de olho no taxímetro, pois parecia que ele queria fazer corrida avulsa. Mas antes que eu cobrasse, ele ligou o equipamento. Foi uma corrida rápida, com tempo para que ele me fizesse apenas umas perguntas meio bestas: “Você é agricultor?” “Dou aula, mas sou da roça.” Ele se animou e destacou suas origens campesinas também. Chego na rodoviária e o taxímetro registra ‘treze e cinquenta’.  “Me dá quinze, que pra eu tomar um café!” Dei os quinze reais e saí aliviado, mas também preocupado, porque a minha memória está me traindo.

 

FILIPE

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SEU MILTON

por feldades, em 03.01.20

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Uma rua estreita, muito íngreme e calçada com pedras irregulares, me leva a uma casa modesta, porém um pouco melhor do que as edificações vizinhas. O portão é aberto por um homem idoso e de poucas palavras. Estou chegando ao asilo de Maria da Fé – uma cidade no alto da Mantiqueira, no sul de Minas.

 

Todos os anos, em fins de dezembro, costumo visitar essa casa, de onde a cada ano uns partem e outros chegam. Faz frio em pleno verão, e os velhinhos se espalham com cobertores por quartos, corredores e salas de televisão. Um espaçoso refeitório, uma lavanderia e um pequeno quintal cimentado nos fundos são áreas liberadas para todos e abertas aos visitantes.

 

Ao lado de varais repletos de roupas recém-lavadas, um alambrado separa o espaço cimentado de uma pequena horta. Ali há alface, couve e almeirão em quantidade suficiente para abastecer diariamente a cozinha. Outros cultivares existem por lá, mas deles não me recordo.

 

Já beirando os ‘noventa’, seu Milton sempre foi o hortelão da casa. Dessa vez o encontro deitado, cochilando num banco. O rádio mal sintonizado chia e ronca a todo volume, mas seu Milton não se incomoda. Quando me vê, parece me reconhecer e se levanta para me cumprimentar. Eu puxo assunto, perguntando sobre a horta. “Não cuido mais da horta. Quem planta agora é o Joaquim. Depois que machuquei, não pude mais capinar. Pisei num danado dum buraco e quase quebrei a perna”, diz levantando a barra da calça e mostrando uma cicatriz. “Também chegou a idade e eu não posso mais fazer esse tipo de serviço”, completa.

 

Ouço o depoimento de seu Milton e saio dali a procura de outros internos. Sem poder levar doces nem balas, fico apenas nas expressões do tipo: “Saúde e Paz!”, ou “Que Deus abençoe e proteja!” Dá um pouco de vergonha visitar pessoas carentes, muitas delas com vontade de comer algo diferente, e nem uma balinha levar. Das outras vezes eu levava doces e nunca fui repreendido. Pelo contrário: os funcionários me agradeciam, porque eu lhes dava uma porção abundante, quase um suborno. Mas decidi cumprir a regra da casa e não levo mais nada.

 

No momento em que eu saio e me dirijo ao corredor que dá acesso à área externa, o seu Milton chega apressado e me chama. “Aqui, eu quero te mostrar uma coisa. Não posso mais fazer horta, mas faço isso. Vem ver.”

 

Ele me leva ao seu quarto e abre uma gaveta da cômoda, repleta de cigarros artesanais. Seu Milton pega saquinhos de papel, desses de padaria, recorta em pequenos retângulos e faz centenas de cigarros para os colegas. Ele diz ter feito setecentos cigarros num dia desses – que duvidei um pouco. Parece exagerar. Mas ele diz que não entrega os cigarros diretamente aos colegas. “Ih, se eu der para eles... não há nada que chegue. Têm uns aí que fumam um atrás do outro. Só não põem dois cigarros na boca porque não tem jeito. Então eu faço e entrego na farmácia. A moça dá três por dia: de manhã, depois do almoço e à noite. Quem quiser mais, que compre.”

 

O seu Milton, cuja idade e história desconheço, dá-nos uma bela lição de que sempre é possível servir ao próximo. Basta um tiquinho de boa vontade e um bocadinho de criatividade.

 

FILIPE

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SOB FLECHAS

por feldades, em 21.12.19

Ao final de cada ano letivo tenho o mau costume de pedir aos alunos que avaliem meu trabalho. Pego uma folha sulfite e a divido em oito partes iguais, dando um pedaço de papel a cada aluno. Num lado, peço que escreva sobre este professor; no outro, sobre o próprio aluno. Sugiro que fiquem à vontade para espinafrar o professor, e que o façam anonimamente. Obedientes, pelo menos nesse momento, os alunos não perdem tempo. Após isso, peço a um deles que recolha os papeizinhos, que separo por classe de forma que eu fique sabendo o que pensa de mim determinada turma, mas não o aluno.

 

Para mim não é tarefa das mais prazerosas ler as impressões de meus alunos sobre meu trabalho, porque alguns deles, inclementes, dão-me impiedosas flechadas. Já aconteceu de tudo. Houve um tempo em que eu usava chicletes para mitigar minha ansiedade. E na avaliação, um deles escreveu: “Parece uma vaca velha mascando!” Velho, embora, já não me chamam mais de ‘vaca velha’, porque parei de usar chicletes. Também já criticaram minha letra, meu modo de falar etc., sem, contudo, me deixar aborrecido, porque essas observações são verdadeiras.

 

Neste ano, contudo, fiquei bastante chocado. Não havendo mais provas para corrigir nem lançamentos a serem efetuados, peguei os tais papeizinhos e fui para uma sala vazia. Separados os montinhos, comecei a lê-los, reservando para o final uma classe com a qual eu me dava bem. “Pelo menos eu sairei daqui animado”, pensei.

 

As críticas e eventuais elogios obedecem um padrão, não diferindo muito uma turma de outra. Ainda assim foi possível notar certa empatia de determinada classe contraposta ao desconforto de outra.

 

Finalmente, abri o último bloco. Devo ter ficado ruborizado ao ler o primeiro bilhete; o segundo também; o terceiro, o quarto... Por fim, fui me acostumando com o malho a que voluntariamente me submeti. Muitos desses alunos disseram que sou parcial no trato, preferindo a uns em detrimento de outros. Pior: que prefiro os mais inteligentes e desprezo os que têm dificuldade. Mentira!

 

Tenho o péssimo defeito de dar atenção apenas às pessoas com as quais me identifico e não costumo me aproximar daquelas cujas ideias não me agradam, e isso é fato. De algumas pessoas, confesso envergonhado, tenho uma quase repulsa. Mas confesso, agora sem estar envergonhado, que tenho lutado contra esse comportamento. Mas é difícil mudar isso. Ô luta inglória!

 

Também não me perturba a crítica quando a considero justa. Podem me tachar de feio, burro, ignorante, medíocre etc. Mas dizer que sou “puxa-saco dos inteligentes”!?... Não posso aceitar isso passivamente. Nunca bajulei gente inteligente, poderosa, influente, rica etc.  Isso nunca!

 

Portanto, deixo aqui este protesto, não pela necessidade de protestar, mas pela necessidade de cumprir minha agenda, atualizando este blog.

 

Desculpa qualquer coisa, raríssimo leitor!

 

FILIPE

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A AULA INTERROMPIDA

por feldades, em 07.12.19

Eu gostaria de escrever sobre algo pitoresco que acontece no meu jardim. No pé de mamona, que plantei recentemente e que já tem a altura da casa, um pombinho silvestre começou a fazer ninho, mas sua “esposa” não se animou com a gambiarra e ambos desistiram do projeto. Deixo para o final esse caso e vou cuidar de uma coisa chata, mas necessária.

 

Corria o mês de outubro. O Chile ardia conflagrado com multidões nas ruas. A polícia reprimia, atirava, matava. O povo não se intimidava e resistia. No Brasil sob chamas, ardiam as matas e seus guardiões. Em Brasília, as reformas avançavam sobre escassos direitos do povo, ficando este cada vez mais sem horizonte e sem lideranças – que foram presas, amordaçadas ou assassinadas.

 

Desacorçoado com o momento político que vivemos, entro na sala para mais uma aula. Nas mãos tenho um jornal, que deixo sobre a mesa. Pego um giz e vou à lousa. Paro, olho para os alunos, todos na faixa de 15 anos, e penso: “O que será desses jovens?...” E volto para mais uma lição de logaritmos, ou trigonometria, ou funções exponenciais, ou nada disso. Tudo ali perdia importância diante dos fatos recentes no país e no mundo, onde o fascismo avança tresloucadamente. Dirijo-me aos alunos.

 

“Olha, gente, o que acontece no Chile! Fiquem atentos, porque aqui no Brasil não será diferente. O Chile foi um grande laboratório para a equipe econômica desse governo. Por que os chilenos protestam, se a economia está indo bem e a inflação está sob controle? É porque isso não é suficiente se não há justa distribuição de renda. É como numa família, em que os pais trabalham muito, ganham dinheiro, enriquecem, mas deixam os filhos à míngua. Para que serve a riqueza de um país, se o povo é excluído? No Chile é assim. Os números socioeconômicos, se vistos de forma desatenta, são invejáveis. Mas 70% dos aposentados ganham menos de um salário mínimo, enquanto 1% da população detém 33% de toda a renda nacional. Se avançarmos mais para o topo da pirâmide social, encontramos 0,5% da população abocanhando 19,5% de toda a renda nacional.”

 

Empolgado com essa explanação, decidi avançar no campo ideológico, e disparei: ”Aprendam uma coisa: rico não gosta de pobre. Portanto, pobre que somos, não devemos votar em candidatos dos ricos. Nas eleições, deem uma olhada nas movimentações dos ricaços da cidade. Observem quem são seus candidatos e votem contra!” Nisso, uma aluna levantou a mão e disse: “(...)”. Não entendendo, tive a infelicidade de pedir que repetisse. “Fala... Qual a sua pergunta?” “A aula. O senhor se esqueceu da aula!”  “Ah, sim. Mas isso também é aula”, repliquei bastante desconcertado. “Aula de matemática, professor”, reafirmou. “Mas aqui tem matemática também”, tentei consertar e continuei: “Desculpe-me. Vamos retomar a aula. Onde é que paramos mesmo?...”

 

Encerrado o assunto acima, prefiro falar da natureza: das árvores e de seus pássaros –  enquanto existirem. Quanto ao ninho abandonado na minha mamoneira, seu projeto foi retomado e em breve estará pronto. Agora, por um sabiá.

 

FILIPE

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O SONO INTERROMPIDO

por feldades, em 22.11.19

A viagem foi tranquila apesar do cansaço que se intensifica com o avançar da idade. Chegando, no meio de um dia nublado e quente, encontrei papai feliz pela visita deste filho. Mamãe, como sempre, fica alegre com a presença de seus inúmeros filhos, mas parece um pouco atrapalhada com a movimentação de tantas chegadas e despedidas.

 

Desde que mamãe se acidentou e ficou internada por uma semana, muita coisa mudou em sua vida. Seu pequeno “latifúndio” – antes composto de algumas cômodas além da cama e de uma varandinha onde tomava sol todas as manhãs – foi reduzido a um leito hospitalar. Nele mamãe espera pelas refeições, recebe visitas e os cuidados de sua filha mais velha, a quem ouso nominar carinhosamente de “Mana Véia”.

 

Durante dois dias pude presenciar o labor dessa irmã, que, de vez em quando, é auxiliada por uma filha ou por nossa irmã caçula. Mas é a ‘Mana Véia’ quem fica “vinte e quatro horas” à disposição de nossos pais. Observando a maneira tão singular com que essa irmã lida com nossa mãe, veio-me à memória uns fragmentos muito antigos. Num passado distante, devido à enfermidade de nossa mãe, ela cuidou dos irmãozinhos; depois, com a mesma dedicação e competência, criou seus filhos; agora, esmera-se nos cuidados de nossos velhinhos: papai fez 89, e mamãe, enferma, tem 80.

 

Na primeira noite de minha visita, fomos dormir cedo: eu, por cansaço da viagem; meu pai, por costume e sabedoria. Tanto que um de seus lemas é: “A noite foi feita para a gente dormir!” E por isso, quero abrir um parêntese.

 

Certa vez, estando eu na companhia de dois irmãos, engatamos um bate-papo que se estendeu noite adentro. Lá pelas tantas, meu pai acendeu a luz e veio ao nosso quarto, dizendo: “Vocês não dormem?... Quem não dorme morre cedo. Meu tio (...) morreu com 56 anos porque vivia nos bailes. Eu já tenho quase noventa e estou aqui!” Desabafou e voltou para cama, talvez com o propósito de esticar ainda mais os seus dias. Meu irmão, zombeteiramente, me disse: “Cinquenta e seis?! O tio de meu pai morreu com a sua idade... toma cuidado!”

 

Voltando. Então, nessa primeira noite em que dormi cedo, acordei antes das quatro da manhã e já sem sono. Papai, que também estava acordado mandando e recebendo mensagens pelo celular, resolveu telefonar para a Mana, chamando-a com urgência. A Mana mora no terreiro de casa, mas a modernidade exige que tudo seja resolvido por telefone. E meu pai ficou moderno. Perguntei ao pai o que aconteceu. “A sua mãe está atravessada na cama e é preciso ajeitá-la”. “Não precisa chamar a Mana, pai. Eu mesmo arrumo”. Ele decidiu que deveria ser a Mana e foi enfático. Eu quis insistir, mas recuei e esperei pela irmã, que chegou um minuto depois.  A Mana, toda sonolenta, viu minha mãe tentando sair do “berço”, mas não se assustou com isso. O que a assustou de verdade, e que me fez correr ao quarto, foi outra coisa. Um escorpião embaixo da cama de meu pai. Eu, que tenho pavor de aracnídeos, tive que agir e não poderia errar. Se o bicho escapasse, como encontrá-lo depois?... Vi meu pai assustado e a irmã terrificada. A minha mãe, sem saber dos riscos, queria apenas descer do “berço” e dar uma voltinha. Dei uma chinelada... e papai deu um pulo. Pensei: “Errei”. Mas não.

 

Por fim, entendi por que minha irmã teria que estar ali àquelas horas. Papai tinha razão.

 

FILIPE

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O AMIGO SILENCIOSO

por feldades, em 09.11.19

Hoje o Cido me pareceu tristonho. Quando chego à sua casa, sempre ao anoitecer das sextas-feiras, bato à porta e um pequeno sino fazendo as vezes de campainha anuncia minha presença. Então dona Maria, sua esposa, deixa os afazeres na cozinha e vem apressadamente abrir a porta. Do sofá, o amigo esboça um tímido sorriso enquanto uma mão trêmula procura o controle-remoto para desligar a TV. Mas hoje a TV continuou ligada enquanto ele permanecia cabisbaixo, quase indiferente a mim. Dona Maria pediu que ele desligasse a televisão, mas eu pedi que a deixasse ligada.

 

Uma matéria num canal que desconheço me chamou a atenção. Na tela, um repórter vai a um bairro da periferia do Rio de Janeiro, numa encosta sob risco de desmoronamento, e entra no barraco de um senhor idoso e doente. As paredes de lata, o vaso sanitário dividindo espaço com o fogão, roupas penduradas. Um colchão sob o chão úmido de terra batida, um armário com a porta despencando e uma televisão antiga, daquelas “bundudas”, eram seus únicos bens. E nada mais havia ali além de umas caixas de papelão entulhadas de roupas – talvez por lavar. Dona Maria fixou os olhos na TV durante a reportagem e, ao final, exclamou: “É... A gente às vezes reclama da vida, mas, se olhar bem, vê que tem gente vivendo muito pior, não e mesmo?...”  

 

A vida daquele casal sempre foi dura. Ele nasceu lá pelos lados de Minas Gerais, mas em solo paulista. Ela me parece que é mineira de Ubá, mas foi criada no norte do Paraná. Eles se conheceram nesta cidade, aqui se casaram e trabalharam por muito tempo em fazendas da região até que, vinte e cinco anos atrás, o Cido sofreu um grave acidente. Com afundamento do crânio, teve que fazer várias cirurgias e ficou meses em coma. Recuperou-se parcialmente, mas ficou “tetra”, precisando de cuidados muito especiais. Com os filhos morando distante e sem poder pagar uma cuidadora, dona Maria é quem lhe faz de tudo. Ultimamente, porém, ela também apresenta problemas de saúde e já tem dificuldade de cuidar do marido sozinha.

 

Foi então que eu soube por que o meu amigo estava aflito. Enquanto eu conversava com a dona Maria sobre isso e outros assuntos mais prosaicos como: “Está chovendo, graças a Deus. Que bom. Agora deve dar uma esfriada, né?...”, o Cido acenava para nós, como sempre faz: a mão esquerda levemente espalmada (a outra não tem movimento) apontava na minha direção e, ao mesmo tempo, olhava para esposa, pedindo-lhe que o traduzisse. Olhei para ela e nem foi preciso perguntar. “Ele está falando que vamos mudar daqui.” “Vocês vão mudar?! Quando?...” “Amanhã!” “Para onde?” “Vamos lá pro São Dimas! Vou morar perto da minha filha pra ela poder visitar o pai mais vezes. Aqui é muito longe e ela quase não vem.” “Que pena... Não vou poder visitar mais vocês.” Ao ouvir isso, o meu amigo começou a chorar. Mas remendei a tempo o estrago e disse: “Não vou poder visitar todas as semanas! Mas pode deixar, seu Cido, que vou continuar vendo você, tá bom?”. Ele sorriu.

 

FILIPE

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CADÊ A ENXADA?

por feldades, em 26.10.19

Bom, não sei se isso é um título que se preze, mas a crônica que se segue também não deverá ser prezada por alguém. E nem por isso o título deixa de ter razão para estar lá em cima.

 

Visito com relativa frequência uma casa de idosos. Ao me aproximar de cada um, começava sempre com platitudes do tipo: “tá frio”, “tá calor”, “será que vai chover?” “cadê a chuva?” etc. Então decidi inovar, sobretudo com os homens, cuja maioria tem aspecto de gente da roça. Mudei a forma de abordagem para “Cadê a enxada?...”

 

Até que estava dando certo. O seu Antônio respondeu: “Ih, rapaz, eu não trabalhei na roça, mas meu serviço era ainda mais pesado. Trabalhei numa olaria por mais de trinta anos”.

 

Trabalhar em olaria, fazer tijolos... Isso não é pra qualquer um. Quando jovem, trabalhei por um ou dois dias na olaria de um tio, e até hoje estou cansado. Aquele tio consumiu a vida nesse árduo trabalho, e se cozinhou juntos às inúmeras caieiras de tijolos por ele queimadas. O fogo era aceso à noite e ele varava madrugadas pondo lenha e calafetando com barro as paredes para que o calor ficasse retido. De muito longe, na mais espessa escuridão, podia-se ver aquele brasido, que era um colosso de tijolos incandescentes. E o hálito ardente daquela fornalha impedia que curiosos se aproximassem impunemente.

 

Mas, naquele asilo, há quem de fato tenha trabalhado na roça. Um diz: “Vixe, quero saber mais de enxada não, moço!” Outro: “Até que se eles deixassem, eu queria uma enxada para capinar um pouco. Sabe, eu gosto e aqui tem bastante espaço. Eu queria plantar milho, mas acho que não pode, né?...” Ainda outro: “Ih, moço, já trabalhei muito nessa vida. Capinei, sim, mas não só. Até caminhão já dirigi. Mas essa danada da enxada judia da gente!” Um deles não disse que capinou, mas vem com esta: “Não quero, não. A enxada matou meu pai!” Peço a ele que explique, mas não explica nada e repete como um mantra: “A enxada matou meu pai.”

 

Em outros tempos, o seu Zé, que já partiu, era assim provocado por um funcionário: “Seu Zé, eu comprei uma enxada novinha. Então amanhã você já pode começar a capinar”. Mas o seu Zé ficava uma fera. Dentre impublicáveis impropérios, resmungava: “Eu não vou capinar. Nunca capinei, não sei capinar e ninguém vai me obrigar a capinar.”

 

Da última vez em que estive no asilo, vi um novato. Era um caboclo já meio roído, mas não tão velho e estava bem vestido. Pensei: “Com este nunca falei, mas vou provocá-lo”. Aproximei-me devagar e disparei: “Olá, tudo bem?” Ele me olhou meio desconfiado e não disse palavra. Mas eu precisava completar o serviço e emendei: “Cadê a enxada?” Dessa vez a coisa não funcionou. “Tá achando que eu sou algum filha da puta?!” “Mas por quê?...”, repliquei. “Eu sou escrivão, sei escrever e nunca tive que usar enxada!” Eu, muito sem graça, respondi: “Ah, então eu sou esse ‘filha da puta’? Porque sempre usei enxada, sou um capinador.”

 

FILIPE

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FINITUDE

por feldades, em 12.10.19

Ultimamente, tenho pensado bastante na tal da “indesejada das gentes”. Manuel Bandeira tem um belo poema sob o título de “Consoada”, no qual ele assim se refere à morte, que também recebe o epíteto de “iniludível”.  Tenho lembrado de pessoas que partiram há muitos anos, especialmente do meu avô Sebastião.

 

Vovô era um homem trabalhador. Embora analfabeto, tinha orgulho de saber escrever as iniciais de seu nome: ‘SLL’ (Sebastião Lopes de Lima), que costumava gravar com formão no cocho das porteiras que ajudava meu pai a fazer. Certa vez, ele levantou a barra da calça e me mostrou umas varizes – as veias formavam a letra ‘S’ – e me disse orgulhoso: “Aqui está a letra do meu nome!”

 

Vovô Sebastião cuidava de uma boa porção de terras, uma verdadeira fazendinha. Levantava bem cedo, pegava uma guiada e começava a chamar suas vaquinhas para a ordenha. Com sua inconfundível voz metalizada, ele nomeava uma a uma. Tinha várias, mas lembro do nome de apenas duas:  Açucena e Cocada. Lembro também de alguns bois carreiros: Roxinho e Ouro Fino eram “bois de coice”, aqueles que sustentam o cabeçalho do carro; as juntas Senado e Escovado, e Sete Ouro e Tesouro eram de “bois de guia”, aqueles que ficam à frente, obedecendo o candeeiro ou tentando passar-lhe os chifres. Da “junta torneira”, que fica no meio, entre os “coiceiros” e a “guia”, eu não lembro os nomes, porque eram os ‘novatos’, que estavam em treinamento. Mais tarde, dando certo, seriam “promovidos” para o “coice” ou para a “guia”. Na sua última aquisição, vovô comprou uma junta bastante desigual: o bonachão Mascote, um boi holandês que curtia a solidão dos brejos, e o endiabrado Coração, um boi preto com um coração branco tatuado na testa, que quase matou meu pai com um coice, quebrando-lhe umas três costelas. Esse danado tentou me acertar diversas vezes. Atravessando um rio, quase passou por cima de mim com o carro e tudo. Consegui me safar a nado, jogando-me na correnteza.

 

A fazendinha de meu avô era muito bem organizada. Tinha um terreiro cheio de galinhas, vários porcos de engorda, canavial e cafezal. Tinha também um simpático pomarzinho que me oferecia furtivamente deliciosas laranjas e bananas-maçãs. Ah, tinha o Queimado, um cavalo de sela e charrete, que era meu objeto de aventura. Quando ia ao pasto pegá-lo para meu avô, eu aproveitava para dar uns bons galopes. Mas o bicho era manhoso...  Às vezes, estava lá paradinho, pensando na vida, mas quando me via chegando, já dava uma abanada de cabeça e começava a sair de fininho. E não adiantava eu apressar o passo, porque ele sabia que eu não o alcançaria. Eu teria que negociar com ele, conversar mesmo, até que cedesse e resolvesse aceitar o cabresto. Depois disso, era só bamboleio! Encostava o   ‘corcel’ num barranco e, nem bem me ajeitava no seu lombo, ele já saia em disparada.

 

O sonho de meu avô era instalar confortavelmente a minha avó em sua casa na “rua”, conforme se diz na nossa terra sobre aqueles que moram na cidade. Ele tinha uma casa velha onde passavam fins de semana, mas comprou outra casa. Esta, uma das mais antigas da cidade, foi reformada mantendo-se quase intacta sua arrojada arquitetura. Certo dia, já na casa nova, vovô disse à minha avó: “Luzia, se eu morrer amanhã, não deixarei nenhuma dívida para você. Hoje paguei o resto que estava devendo.” Na manhã seguinte, dia em que eu completava doze anos, vovô partiu. Aos setenta.

 

FILIPE

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