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O AMIGO SILENCIOSO

por feldades, em 09.11.19

Hoje o Cido me pareceu tristonho. Quando chego à sua casa, sempre ao anoitecer das sextas-feiras, bato à porta e um pequeno sino fazendo as vezes de campainha anuncia minha presença. Então dona Maria, sua esposa, deixa os afazeres na cozinha e vem apressadamente abrir a porta. Do sofá, o amigo esboça um tímido sorriso enquanto uma mão trêmula procura o controle-remoto para desligar a TV. Mas hoje a TV continuou ligada enquanto ele permanecia cabisbaixo, quase indiferente a mim. Dona Maria pediu que ele desligasse a televisão, mas eu pedi que a deixasse ligada.

 

Uma matéria num canal que desconheço me chamou a atenção. Na tela, um repórter vai a um bairro da periferia do Rio de Janeiro, numa encosta sob risco de desmoronamento, e entra no barraco de um senhor idoso e doente. As paredes de lata, o vaso sanitário dividindo espaço com o fogão, roupas penduradas. Um colchão sob o chão úmido de terra batida, um armário com a porta despencando e uma televisão antiga, daquelas “bundudas”, eram seus únicos bens. E nada mais havia ali além de umas caixas de papelão entulhadas de roupas – talvez por lavar. Dona Maria fixou os olhos na TV durante a reportagem e, ao final, exclamou: “É... A gente às vezes reclama da vida, mas, se olhar bem, vê que tem gente vivendo muito pior, não e mesmo?...”  

 

A vida daquele casal sempre foi dura. Ele nasceu lá pelos lados de Minas Gerais, mas em solo paulista. Ela me parece que é mineira de Ubá, mas foi criada no norte do Paraná. Eles se conheceram nesta cidade, aqui se casaram e trabalharam por muito tempo em fazendas da região até que, vinte e cinco anos atrás, o Cido sofreu um grave acidente. Com afundamento do crânio, teve que fazer várias cirurgias e ficou meses em coma. Recuperou-se parcialmente, mas ficou “tetra”, precisando de cuidados muito especiais. Com os filhos morando distante e sem poder pagar uma cuidadora, dona Maria é quem lhe faz de tudo. Ultimamente, porém, ela também apresenta problemas de saúde e já tem dificuldade de cuidar do marido sozinha.

 

Foi então que eu soube por que o meu amigo estava aflito. Enquanto eu conversava com a dona Maria sobre isso e outros assuntos mais prosaicos como: “Está chovendo, graças a Deus. Que bom. Agora deve dar uma esfriada, né?...”, o Cido acenava para nós, como sempre faz: a mão esquerda levemente espalmada (a outra não tem movimento) apontava na minha direção e, ao mesmo tempo, olhava para esposa, pedindo-lhe que o traduzisse. Olhei para ela e nem foi preciso perguntar. “Ele está falando que vamos mudar daqui.” “Vocês vão mudar?! Quando?...” “Amanhã!” “Para onde?” “Vamos lá pro São Dimas! Vou morar perto da minha filha pra ela poder visitar o pai mais vezes. Aqui é muito longe e ela quase não vem.” “Que pena... Não vou poder visitar mais vocês.” Ao ouvir isso, o meu amigo começou a chorar. Mas remendei a tempo o estrago e disse: “Não vou poder visitar todas as semanas! Mas pode deixar, seu Cido, que vou continuar vendo você, tá bom?”. Ele sorriu.

 

FILIPE

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CADÊ A ENXADA?

por feldades, em 26.10.19

Bom, não sei se isso é um título que se preze, mas a crônica que se segue também não deverá ser prezada por alguém. E nem por isso o título deixa de ter razão para estar lá em cima.

 

Visito com relativa frequência uma casa de idosos. Ao me aproximar de cada um, começava sempre com platitudes do tipo: “tá frio”, “tá calor”, “será que vai chover?” “cadê a chuva?” etc. Então decidi inovar, sobretudo com os homens, cuja maioria tem aspecto de gente da roça. Mudei a forma de abordagem para “Cadê a enxada?...”

 

Até que estava dando certo. O seu Antônio respondeu: “Ih, rapaz, eu não trabalhei na roça, mas meu serviço era ainda mais pesado. Trabalhei numa olaria por mais de trinta anos”.

 

Trabalhar em olaria, fazer tijolos... Isso não é pra qualquer um. Quando jovem, trabalhei por um ou dois dias na olaria de um tio, e até hoje estou cansado. Aquele tio consumiu a vida nesse árduo trabalho, e se cozinhou juntos às inúmeras caieiras de tijolos por ele queimadas. O fogo era aceso à noite e ele varava madrugadas pondo lenha e calafetando com barro as paredes para que o calor ficasse retido. De muito longe, na mais espessa escuridão, podia-se ver aquele brasido, que era um colosso de tijolos incandescentes. E o hálito ardente daquela fornalha impedia que curiosos se aproximassem impunemente.

 

Mas, naquele asilo, há quem de fato tenha trabalhado na roça. Um diz: “Vixe, quero saber mais de enxada não, moço!” Outro: “Até que se eles deixassem, eu queria uma enxada para capinar um pouco. Sabe, eu gosto e aqui tem bastante espaço. Eu queria plantar milho, mas acho que não pode, né?...” Ainda outro: “Ih, moço, já trabalhei muito nessa vida. Capinei, sim, mas não só. Até caminhão já dirigi. Mas essa danada da enxada judia da gente!” Um deles não disse que capinou, mas vem com esta: “Não quero, não. A enxada matou meu pai!” Peço a ele que explique, mas não explica nada e repete como um mantra: “A enxada matou meu pai.”

 

Em outros tempos, o seu Zé, que já partiu, era assim provocado por um funcionário: “Seu Zé, eu comprei uma enxada novinha. Então amanhã você já pode começar a capinar”. Mas o seu Zé ficava uma fera. Dentre impublicáveis impropérios, resmungava: “Eu não vou capinar. Nunca capinei, não sei capinar e ninguém vai me obrigar a capinar.”

 

Da última vez em que estive no asilo, vi um novato. Era um caboclo já meio roído, mas não tão velho e estava bem vestido. Pensei: “Com este nunca falei, mas vou provocá-lo”. Aproximei-me devagar e disparei: “Olá, tudo bem?” Ele me olhou meio desconfiado e não disse palavra. Mas eu precisava completar o serviço e emendei: “Cadê a enxada?” Dessa vez a coisa não funcionou. “Tá achando que eu sou algum filha da puta?!” “Mas por quê?...”, repliquei. “Eu sou escrivão, sei escrever e nunca tive que usar enxada!” Eu, muito sem graça, respondi: “Ah, então eu sou esse ‘filha da puta’? Porque sempre usei enxada, sou um capinador.”

 

FILIPE

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FINITUDE

por feldades, em 12.10.19

Ultimamente, tenho pensado bastante na tal da “indesejada das gentes”. Manuel Bandeira tem um belo poema sob o título de “Consoada”, no qual ele assim se refere à morte, que também recebe o epíteto de “iniludível”.  Tenho lembrado de pessoas que partiram há muitos anos, especialmente do meu avô Sebastião.

 

Vovô era um homem trabalhador. Embora analfabeto, tinha orgulho de saber escrever as iniciais de seu nome: ‘SLL’ (Sebastião Lopes de Lima), que costumava gravar com formão no cocho das porteiras que ajudava meu pai a fazer. Certa vez, ele levantou a barra da calça e me mostrou umas varizes – as veias formavam a letra ‘S’ – e me disse orgulhoso: “Aqui está a letra do meu nome!”

 

Vovô Sebastião cuidava de uma boa porção de terras, uma verdadeira fazendinha. Levantava bem cedo, pegava uma guiada e começava a chamar suas vaquinhas para a ordenha. Com sua inconfundível voz metalizada, ele nomeava uma a uma. Tinha várias, mas lembro do nome de apenas duas:  Açucena e Cocada. Lembro também de alguns bois carreiros: Roxinho e Ouro Fino eram “bois de coice”, aqueles que sustentam o cabeçalho do carro; as juntas Senado e Escovado, e Sete Ouro e Tesouro eram de “bois de guia”, aqueles que ficam à frente, obedecendo o candeeiro ou tentando passar-lhe os chifres. Da “junta torneira”, que fica no meio, entre os “coiceiros” e a “guia”, eu não lembro os nomes, porque eram os ‘novatos’, que estavam em treinamento. Mais tarde, dando certo, seriam “promovidos” para o “coice” ou para a “guia”. Na sua última aquisição, vovô comprou uma junta bastante desigual: o bonachão Mascote, um boi holandês que curtia a solidão dos brejos, e o endiabrado Coração, um boi preto com um coração branco tatuado na testa, que quase matou meu pai com um coice, quebrando-lhe umas três costelas. Esse danado tentou me acertar diversas vezes. Atravessando um rio, quase passou por cima de mim com o carro e tudo. Consegui me safar a nado, jogando-me na correnteza.

 

A fazendinha de meu avô era muito bem organizada. Tinha um terreiro cheio de galinhas, vários porcos de engorda, canavial e cafezal. Tinha também um simpático pomarzinho que me oferecia furtivamente deliciosas laranjas e bananas-maçãs. Ah, tinha o Queimado, um cavalo de sela e charrete, que era meu objeto de aventura. Quando ia ao pasto pegá-lo para meu avô, eu aproveitava para dar uns bons galopes. Mas o bicho era manhoso...  Às vezes, estava lá paradinho, pensando na vida, mas quando me via chegando, já dava uma abanada de cabeça e começava a sair de fininho. E não adiantava eu apressar o passo, porque ele sabia que eu não o alcançaria. Eu teria que negociar com ele, conversar mesmo, até que cedesse e resolvesse aceitar o cabresto. Depois disso, era só bamboleio! Encostava o   ‘corcel’ num barranco e, nem bem me ajeitava no seu lombo, ele já saia em disparada.

 

O sonho de meu avô era instalar confortavelmente a minha avó em sua casa na “rua”, conforme se diz na nossa terra sobre aqueles que moram na cidade. Ele tinha uma casa velha onde passavam fins de semana, mas comprou outra casa. Esta, uma das mais antigas da cidade, foi reformada mantendo-se quase intacta sua arrojada arquitetura. Certo dia, já na casa nova, vovô disse à minha avó: “Luzia, se eu morrer amanhã, não deixarei nenhuma dívida para você. Hoje paguei o resto que estava devendo.” Na manhã seguinte, dia em que eu completava doze anos, vovô partiu. Aos setenta.

 

FILIPE

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NOTÍCIAS ESCOLARES

por feldades, em 28.09.19

Ao som de “Música Antiga”, um belíssimo programa produzido pela Rádio MEC que o ‘coiso’ pretende fechar, deixo o jornal e começo a dedilhar o teclado do notebook em busca de algo para a postagem de hoje. Na Folha de S. Paulo, uma matéria sob um bem-sucedido programa de alfabetização de adultos me chamou a atenção. Há 45 anos o Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais do país, oferece gratuitamente aulas, transporte e lanches a um público carente e cada vez mais crescente. Por outro lado, nas escolas oficiais, que são mantidas pelo Estado, o antigo supletivo está deixando de existir por falta de alunos.

 

Noutro recorte de jornal, este do início da semana, uma notícia trágica: “Professor é esfaqueado por aluno dentro de escola na Grande São Paulo”. Lendo a matéria, soube que o professor dá aulas de geografia, tem 55 anos e estaria em estado grave num hospital da região. O algoz é um rapaz de 14 anos, seu aluno. Segundo a reportagem, o professor é querido, apesar de rígido; o agressor, por sua vez, é tido por estudioso, bem-comportado, um “bom moço”! Fiquei sem entender como um jovem “tão bom” pudesse ser assim tão covarde, tão atroz. Ah, o agressor feriu-se também, talvez querendo ‘empatar o jogo’, mas sem gravidade. Parece que a fúria maior seria contra o professor, porque ele apenas se arranhou com a lâmina.

 

Eu me vi “na pele” daquele professor. Um homem já esfolado pela vida e pelos anos, tentando realizar um trabalho cada vez mais penoso. A maioria de nossos jovens não se interessa por leitura nem pela escrita, nem por nada que não seja troca de mensagens nas redes sociais ou joguinhos eletrônicos. Mas há coisas muito tenebrosas nessas mídias que ocupam mente e espírito juvenis, e muito mais nocivas do que os inocentes jogos. Melhor não saber.

 

No Brasil, onde 11 milhões de pessoas com idade de 15 anos ou mais não conseguem ler sequer um bilhete simples, segundo reportagem da Folha, professores são ameaçados, agredidos e até esfaqueados pelos seus próprios alunos. Muito triste!

 

Acabou o programa da Rádio MEC e acho que a Rádio MEC também acabou. Sem “Música Antiga”, perdi a inspiração e encerro o texto por aqui. Sorte do eventual leitor, porque eu estaria disposto a destilar um balde fel nas linhas seguintes. Eu seria lamurioso, chato, muito além do habitual. Então vou nos poupando dessa neura.

 

FILIPE

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OS FRANCISCANOS ESTÃO DE PARTIDA

por feldades, em 14.09.19

Publicado na “Tribuna de Amparo”, edição de hoje.

 

Dia desses, enquanto aguardava na fila de um supermercado, fui despertado da leitura do jornal pelo seguinte diálogo: “Sabia que vão trocar os santos da igreja São Benedito?”, dizia uma senhora à sua amiga, tentando impressioná-la. “Vão, mas não só, porque a igreja nem vai continuar sendo São Benedito. Vão mudar até o nome da paróquia também”, exagerou a outra. “O quê?! Não são apenas os freis?... Se até os santos vão embora, eu também saio de lá”, interveio uma terceira.

 

Exageros à parte, há dias ouço rumores de que os frades franciscanos estariam deixando a Diocese de Amparo, mas nunca dei crédito a tais notícias, que mais me pareciam boatos. Mas agora parece sério.

 

Os franciscanos instalaram-se aqui em 1911, há mais de um século, e nestas terras fundaram convento, formaram comunidades, edificaram capelas, evangelizaram e encantaram o povo com sua abnegação e despojamento. Não me parecia crível, porém, que eles nos deixassem justamente neste momento tão difícil, quando os ânimos andam tão acirrados fora e até mesmo dentro da Igreja.

 

Frei Vanilton e seus dois companheiros, que ora conduzem a Paróquia são Benedito, são formidáveis. Suas homilias são encantatórias porque sucintas e contextualizadas, e as celebrações não cansam a assembleia. Também não se vê nessa tríade nenhum traço de vaidade clerical, algo bastante encontradiço noutras paragens, infelizmente. A sintonia com o bispo diocesano e com o Papa Francisco é outro atributo desses bravos religiosos.

 

Mas já há certeza. Os nossos freis vão mesmo nos deixar e será em breve. Porque eles hão de singrar outros mares e suas redes deverão ser lançadas em águas ainda mais profundas.

 

Ah, quão alvissareira seria uma réplica a este artigo sob o título: “Os franciscanos não estão de partida!”  Não custa sonhar.

 

FILIPE

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ENCONTRO COM O POETA

por feldades, em 31.08.19

Era de manhã, eu ia para o serviço, quando, de repente, eis que cruzo com uma criatura muito fofa. Paro e a fixo por um instante, e tento pará-la. Mas ela tinha pressa e não podia ser interrompida por mim. A rua estava deserta, mas à frente havia uma avenida bastante movimentada, e era para lá que se dirigia apressadamente a desajuizada “criança”. “Por que a pressa?”, quis perguntar mas desisti. E digo logo do que se tratava: um filhotinho de gambá.

 

O gambazinho queria arriscar a vida na avenida, mas não permiti. Abri o jornal e lhe fiz acenos para que voltasse, ele quis me desobedecer, mas fui enfático. Então o bichinho deu meia-volta, retornando com indisfarçável mau humor. E assim, fui conduzindo o ‘timbuzinho’ que, de vez em quando, me olhava furibundo. Contudo, manteve-se obediente num trote miúdo que fazia o corpo tremular e o rabinho oscilar, indo até o Jardim Público. Diante do meio-fio – para a diminuta criatura uma “muralha intransponível” – quis desistir, e, mais uma vez o meu jornal entrou em ação. Amedrontado, foi beirando a guia até encontrar uma fenda na qual pôde pôr as patinhas e escalar. Dali para diante, deixei que ele decidisse por si. Entrou num gramado, cruzou a passarela e se embrenhou no mato com muitas árvores. Ufa!

 

Mas esse não é um “encontro com o poeta”, mas um “encontro com a poesia”! Com o poeta foi noutro dia.

 

Eu voltava da escola, já bem noite, caminhando pela calçada oposta a um bar quando ouvi: “Professor, quero te dar os parabéns!” Pensei: “Não faço aniversário, não ganhei prêmios, não há por quê...” Mas, para cumprir o protocolo, cruzei a rua até a calçada onde havia umas mezinhas e ‘gente jovem reunida’. “Por que os cumprimentos?”, perguntei. O ‘Poeta’, era ele, me disse: “Gostei muito do que você escreveu.” Fiquei perplexo. Veio-me um filme antigo, de quando mandei algumas notas ao jornal contestando o “Poeta”. Num artigo, chamei-o de “extemporâneo da arcádia” – um xingamento, claro. Mas não. O Poeta referia-se a um texto que escrevi sob o título de “Carta ao Eremita”. Disse ter gostado muito e que levou o texto ao bispo diocesano. “Você já conversou com o bispo? Precisa conhecê-lo. É um dos nossos”, finalizou.

 

Sem ter como retribuir a ‘mesura’, pensei em falar alguma coisa que pudesse agradar meu interlocutor. Fui com esta: “Olha, também leio seus textos, tenho um livro seu e gosto muito, viu?” Ele me pareceu meio desconcertado, mas achei que a dose foi pequena, fraca mesmo. Então aumentei a carga: “Estamos sem Príncipe dos Poetas. Paulo Bomfim morreu e a cadeira está vazia. Por que você não se candidata?” Ele me respondeu: “Depois de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Guilherme de Almeida... Sabia que após a morte de Guilherme de Almeida, passaram-se anos até que alguém, no caso, Paulo Bomfim, se apresentasse?... E agora, quem vai ter a ‘cara de pau’ – e eu digo ‘cara de pau’ mesmo – de achar que pode ser ‘Príncipe dos Poetas’?”

 

A conversa foi curta, mas saí impressionado com o Poeta, com quem já tive sérias divergências e, contudo, ele sempre me tratou cordialmente. Não menti. Leio suas crônicas e poemas e admiro sua intelectualidade. Como poucos, ele tem domínio da escrita e memória prodigiosa. Confesso que esse encontro me deixou arrependido de um dia já ter brigado com o Poeta.

 

FILIPE

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PEQUENAS VERGONHAS

por feldades, em 17.08.19

Nossas vergonhas nem sempre são públicas e muito menos devem ser publicadas. De minha parte, já passei boas vergonhas – algumas até simpáticas. A seguir, devo citar umas três ou quatro, mas o raro leitor não terá sua curiosidade plenamente satisfeita, porque ainda tenho alguma lucidez.

 

Por exemplo, por um sem-número de vezes, um motorista para, interrompe minha caminhada e minha leitura, e, com um papel na mão, talvez uma nota fiscal, pergunta cheio de aflição: “Por favor, onde fica a rua Humberto Beretta?” “Rua Humberto Beretta...”, fico matutando enquanto o motorista aguarda ansioso. “Olha, eu moro aqui há pouco tempo e não conheço nada na redondeza”. Ou: “Ih, moço, eu não sou daqui!...” Mentira. Moro há dez anos neste pedaço e a Humberto Beretta fica há duas quadras de casa. [Será mesmo?...] Houve uma vez que atendi com toda convicção a um motorista. Mandei-o cruzar a cidade, seguindo sempre à direita até seu destino. Eu tinha tanta certeza e fui tão convincente, que senti até certo orgulho de minha sabedoria. Só uns passos adiante é que me dei conta de que o endereço procurado pelo desditoso motorista ficava a menos de cem metros de sua pergunta.

 

Outra. Na escola, sempre peguei a fila com a molecada para merendar. Mas houve um tempo que me cansei de ficar na fila. Amparado pelas minhas cãs e alegando a necessidade de me antecipar aos alunos na volta para a sala de aula, cismei de ir direto ao balcão de serviço. Fiz isso por algumas vezes até que uma merendeira recém-chegada me disse: “Professor tem que respeitar a fila!” Fiquei mais envergonhado do que chateado e dali por diante nunca mais furei fila.

 

Mais uma. A minha mais recente vergonha foi na igreja. Era Dia dos Padres e havia uma homenagem ao sacerdote no final da missa. Um senhor pegou um papel, empostou a voz e deitou falação. Houve uma pausa e eu pensei que já tivesse terminado. Estranhei o fato de todo mundo ficar quieto e pensei: “Que chato... Ninguém aplaude?!...” E tomei a inciativa começando a bater palmas sozinho. Me veio um calafrio, mas já era tarde e eu tentei terminar o serviço mal começado. Pus-me de pé e aplaudi com mais vigor. Somente eu, porque o homem ainda não havia terminado a leitura. No final, é claro, houve os esperados aplausos. Desenxabido, fiquei aguardando lá fora. Nisto, veio um senhor, já idoso e muito simpático, e começou a falar comigo sobre a chuva que começava e o animava com seu pomar. A chuva, dizia ele, vai aumentar a produção de figos. Eu lhe disse que tenho duas figueiras que nunca deram nem flor. Ele me orientou a podar e adubar. “Ah, posso pôr o adubo ‘FCK’?”, perguntei como alguém que entende muito bem de adubos. Ele: “Bom, esse aí eu não conheço, mas ponha o ‘NPK  20 - 5 - 20’”. Somente mais tarde é que me dei conta de que não existe nada com o nome de ‘FCK’.

 

FILIPE

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PATRULHEIROS

por feldades, em 03.08.19

O assunto seria outro e eu nem sabia ao certo de que eu trataria na postagem de hoje. Estava propenso a falar de uma tristeza profunda que me abate nestes tempos inglórios, quando nosso horizonte tem sido cada vez mais obscurecido por alguns usurpadores – esses “seres das trevas” ora no Poder. E além disso, sendo já quase sexagenário, descobri que, a partir desta data, terei de trabalhar por mais ‘956 dias’ para requerer aposentadoria. Estou triste por essas e outras coisas, que hão de passar.

 

Mas, terrificado pelas notícias sempre assombrosas que brotam na tela do computador, tento espairecer, escrevendo bobagens neste blog. E assim aconteceu há duas quinzenas, quando publiquei o texto “Na Sala dos Professores” – uma crônica bem-humorada, mas que despertou inesperada fúria em alguns colegas de trabalho.

 

Talvez não venha ao caso, mas preciso explicar aos meus “algozes” que ‘crônica’ é algo bem diferente de ‘artigo de opinião’ ou ‘reportagem’. Por tempos considerada um gênero literário menor, de pouco prestígio, foi Rubem Braga quem deu à crônica certa nobreza. Nela, o autor não tem compromisso com a veracidade dos fatos e sua narrativa é livre, quase sempre satírica, irônica e vem lambuzada de humor. Ah, mas é preciso ter senso de humor e alguma argúcia para entrar no ‘clima’. Não tendo uma coisa nem outra, é melhor partir para o noticiário político ou para o jogo de dominó ou, quem sabe ainda, procurar uma pista de ”dança tântrica”. Prestigiada ou não, e pela sua irreverência, a crônica é meu gênero favorito, que leio vorazmente e tento rabiscar algumas.

 

Mas, talvez por desconhecimento e não por maldade, alguns professores não me entenderam e, de forma velada e cruel, atacaram-me impiedosamente. Tachado de antiético, ridículo e outras belezuras, fiquei estupefato. Contudo, para desgosto daqueles, outros me apoiaram, fazendo-me imerecidos elogios.

 

Sinal dos tempos, uma ministra, aquela que esteve num pé de goiaba, falando com Jesus, recentemente baixou instrução proibindo publicação de livros infantis em que há estórias de fadas, duendes e bruxas. Pela mente doente daquela senhora, todo o rico fabulário que coloriu a infância de inúmeras gerações deverá ser banido. Sendo assim, Pequeno Polegar, Branca de Neve, A Bela Adormecida e tantas outras eternas obras de referência deverão ir ao fogo que, espera-se não ser eterno.

 

Censurado ou não, devo continuar publicando minhas crônicas aqui. Convido ao raro leitor, se ainda o tenho, que as leia criticamente. Não tenho intenção de ferir ninguém e, caso alguém se sinta atingido, que use a caixa de comentários. Aproveite-a, também, para apontar meus muitos erros de Língua Pátria, e eu ficarei agradecido por tão generosa intervenção. Mas sem patrulhamento, por favor!

 

FILIPE

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NA SERRA DA MUTUCA

por feldades, em 20.07.19

Numa tarde ensolarada deste inverno, acompanhado de meu irmão caçula e de seu filho, fui ao lugar onde ficava a casa de Antônio Vermieiro – um caboclo que conheci já velho e escarpado pela dura lida do campo. Naquele recanto, sem luz elétrica nem água encanada, seu Antônio viveu por anos com a esposa dona Fiinha – mulher “sem leitura”, mas uma das criaturas mais argutas que já vi.

 

Subindo sempre, percorrendo pequeno trecho de bosque permeado por furnas de pedra, chegamos às ruínas da antiga edificação.  A casa, há tempos demolida, deixou um teimoso alicerce de pedra bruta, que insiste em delimitar o contorno de cada cômodo: a sala, onde seu Antônio ouvia um velho rádio de pilha, os quartos, uma despensa e a cozinha, que ficava um pouco abaixo do corpo da casa.  Um montinho de terra é o que sobrou do fogão a lenha onde dona Fiinha assava saborosas broas de fubá. Lembro-me de que, em certa manhã, eu tomava chimarrão e ela me ofereceu café com um pedaço daquela broa. Como não bebo café, ela me deu água com açúcar, que aceitei. A partir de então, em todas as minhas madrugadas, quando tomo água doce antes do chimarrão, eu me recordo da simpática dona Fiinha.

 

Percorrendo as cercanias da antiga casa, encontramos vestígios da engenhoca que seu Antônio usava para fazer garapa de cana para seu café (o açúcar era reservado às visitas). Encontramos também o que sobrou d’uma chaleira, uma foice e algumas enxadas. Eu quis trazer comigo uma enxadinha, não apenas como recordação, mas para usá-la mesmo. Esse cacumbu, que para mim é uma relíquia, foi abençoado pelas mãos daquele montanhês, um dos últimos remanescentes dessa estirpe de bravos camponeses. Do pomar que ele cultivou, ainda restam frondosas mangueiras, um pé de cacau, limoeiros, bananeiras e um abacateiro.  

 

Em êxtase, meu irmão filmava, fotografava e explicava cada detalhe: “Aqui havia um chiqueiro, ali um galinheiro, lá o paiol, e estes paus eram os troncos do engenho.” Mais:  “Eu tinha um cavalinho, e o padrinho amarrou uma corda nele para tocar a engenhoca. Eu ficava montado no cavalo dando voltas enquanto ele ia pondo cana na moenda para fazer garapa”. Depois: “Cara, eu sou um Peter Pan... Sou um Peter Pan!”, citava o famoso personagem que não aceitava abandonar a infância. E a infância desse irmãozinho foi realmente fantástica junto àqueles seus padrinhos. E assim, ciscando aqui e ali, o caçula ia removendo espessas camadas de três décadas de história, revendo um passado sempre presente em sua vida. Enquanto isso, tal qual o desbravador Indiana Jones, meu sobrinho abria caminho com um machado improvisado.  

 

Numa de minhas ultimas visitas àquela família, encontrei dona Fiinha bastante doente. Seu Antônio, preocupado com ela porque não se alimentava, desceu até a vendinha e comprou alguns quibes para a esposa. “Eu busquei umas quibas, mas nem isso ela quis”, disse-me desacorçoado. Acamada e com doença grave, aquela mulher nunca reclamou de dores e partiu enquanto rezava. Eu soube com atraso da morte dela, e subi para visitar o amigo, que estava desolado. Lembro-me de sua expressão: reclinado e em silêncio, aquele homem olhava fixamente o chão.

 

Pouco tempo depois, seu Antônio seguiu sua companheira. Estava sentado, conversando com um parente, quando um estranho silêncio interrompeu o assunto. O companheiro pensou que seu Antônio cochilasse, mas não. Ele partiu tão serenamente como viveu.

 

FILIPE

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NA SALA DOS PROFESSORES

por feldades, em 05.07.19

Eu estava na sala dos professores e cuidava da grossa burocracia: fechamento de notas, contagem de faltas, preenchimento de fichas etc. Alguns professores corrigiam provas, outros mexiam no celular e havia quem não fazia nem uma coisa nem outra, apenas matracava falando da vida alheia – como todos gostamos de fazer, inclusive as almas mais santas.

 

Esse é sempre um momento mágico que vivencio a cada fim de semestre. A sensação do dever cumprido se mescla a certa frustração de não se alcançar determinados objetivos. Mas, a despeito de pequenos dissabores, o recesso que se avizinha refresca corpo e mente fatigados de tantas lousas.

 

Uma professora, com mais maquiagem do que beleza – melhor do que eu, sem maquiagem nem beleza – reclama do marido, que ronca a noite toda e não a deixa dormir. Por isso as olheiras. Um professor gorducho chega esbaforido, reclamando de que no pátio há três ou quatro alunos. “O que esse povo vem fazer aqui hoje, meu Deus?! Acabaram as aulas, e com esse frio...” “Vieram fazer prova de recuperação!”, responde outro. Uma professora liga o computador e põe uma música suave quando alguém pergunta: “É Bach?” “Não! É Rossini!”, corrige. Para mim poderia ser Bach, Rossini ou Puccini porque, embora eu aprecie música clássica, não consigo identificar sequer o gênero. “La Traviata, de Verdi”, exclama tonitruante um convicto professor. “Que horror! Expliquei todo dia as formas verbais particípio, gerúndio e infinitivo, mas metade da classe ainda erra... Uma aluna chegou a confundir ‘gerúndio’ com ‘girino’! Até quando vou ter que bater nisso?!”, desabafa a professora com uma pilha de provas ainda por corrigir. “Gerúndio... Acho que isso é de Português. Estou enganada?...”, pergunta alguém – que ficou sem resposta.

  

No outro dia meu serviço já está em ordem e aguardo o fim do expediente. Pego um livro e começo a ler, mas não dá para ser na sala dos professores. Aquele burburinho de entra e sai não permite a mínima concentração. Vou para uma sala vazia e singro solitariamente aquelas páginas – doce oceano. De repente, chega alguém e sai rapidamente sem dizer palavra. Não quer me incomodar e eu fico agradecido.

 

Mais tarde, no fim da jornada, encontro uma colega que fez a caridade de ajudar um novato atrapalhado no preenchimento dos diários de classe.  “E aí, refez os diários dele?”, perguntei. “Sim. Daqui para frente é com ele. Eu fiz o que pude. Ensinei e pedi a ele que comprasse um caderno de caligrafia. A letra dele, coitado, é sofrível. Ele disse que comprou o caderno e já está praticando, e que sua letra vai ficar bacaninha. Vamos ver.” Essa professora estava feliz por ter praticado uma boa ação. Mas quando já nos despedíamos, e desejando ‘boas férias’, ela confidenciou: “Olha, eu quase morri de vergonha. Só eu, porque o professor ainda deu risada da situação.” “O que aconteceu de tão trágico?”, eu quis saber. Ela: “Não é que, enquanto eu dava as últimas orientações àquele professor, a sala cheia, e ele me solta um baita peido?!”

 

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