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DONA CELISA

por feldades, em 16.01.22

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Dona Celisa foi uma das pessoas mais incríveis com quem convivi ao longo desta vida, que já se alonga. Quando a conheci, ela era uma “jovem octogenária”, que conservava o viço da mulher culta e elegante que sempre fora. Sua companhia era leve, suave, quase imperceptível. À noite, aquela mulher nunca se recolhia aos seus aposentos sem antes nos dar um boa-noite; pela manhã, ao se levantar, o bom-dia era tão certo quanto uma prece matinal.

 

Dona Celisa gostava de café. No começo de sua enfermidade, eu lhe dava o “pretinho” ainda na cama. Ela se sentava, pegava a xícara e, após um pequeno gole, dizia: “Tá gostoso!”

 

Paulista, dona Celisa mais parecia uma mineira.  O jeito de receber visitas, de prosear e o café oferecido a quem chegasse davam-lhe um ar de mineiridade. Muitas vezes, enquanto sua filha dava aulas de pintura lá no rancho, ela pegava o pote de pó, uma vasilha com água e me olhava sem dizer nada. Então eu sabia que era para fazer o café. Mas não era só café. Ela também pegava manteiga e pão, punha numa bandeja e me pedia para levar para as meninas.

 

Quando cheguei naquela casa, logo assumi o fogão, e a dona Celisa passou a se referir a mim como “o cozinheiro”. Eu não sabia cozinhar, mas inventava uns “grudes” que nos matavam a fome. Embora muito contida à mesa, ela gostava da comida e sempre dizia: “Desse jeito vamos todos sair daqui rolando [de tão gordos]!”

 

Dona Celisa tinha uma predileção pelos pobres e desafortunados. No Natal, ela sempre dava um “envelope recheado” aos coletadores; o pedinte nunca saía de mãos vazias; e, todas as sextas-feiras, por volta das 15 horas, ela saía para visitar uma amiga adoentada. Também nunca perdia as missas e participava de todas as novenas, rezas e campanhas de arrecadação feitas pela sua comunidade.

 

De dona Celisa ouvi muitos casos, fatos antigos, alguns do final do primeiro terço do século passado. Contava ela que em 1932, durante a guerra civil entre paulistas e o governo Vargas, houve tiroteio na cidade de Amparo. Aflitos, ela com seus irmãozinhos protegiam-se no porão do casarão onde moravam. “Foi um horror!”, dizia.

 

Dona Celisa falava bastante sobre seu trabalho. O começo da carreira de professora, no início dos anos cinquenta, foi muito difícil. Contou-me com detalhes suas dificuldades na distante Bofete (uma cidade paulista), aonde se chegava somente a pé ou a cavalo. Depois, já no encerramento da carreira, mais dificuldades.  Transferida para uma escola próxima de casa, teve de dar aulas para uma classe numerosa e indisciplinada. Na sala de aula eram tantos alunos, que ela não conseguia transitar entre as carteiras para lhes dar assistência.

 

Certa vez dona Celisa me mostrou um papel já bem desgastado. Era uma redação dos tempos de estudante, de quando era adolescente. Ali, a jovem fez uma descrição poética e pungente da mãe gravemente enferma, de quem pouco tempo depois ficaria órfã.

 

O tempo foi passando e a dona Celisa não conseguia mais fazer suas visitas nem ir às rezas. O tempo passou mais um pouco e dona Celisa já não contava caso. Por fim, a bondosa senhora já não sorria.

 

Hoje a dona Celisa está no Paraíso com os serafins, os querubins e as pessoas que, como ela, fizeram o bem aqui na terra. Mas não só com esses. Ela, com toda certeza, tem consigo a Lilica – sua fiel cadelinha de quem não se desgrudava.

 

Assim acredito, porque toda criatura terá parte com o Criador!

 

FILIPE

 

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ALUMBRAMENTO

por feldades, em 08.01.22

“Leio o que você escreve, sabia?”, ela me disse quase em segredo. Ao ouvir isso, fiquei a meio caminho entre a surpresa e a preocupação. Sim, porque jamais imaginaria que aquela garotinha de uns doze anos apenas pudesse se interessar pelos meus textos, que são um tanto áridos. A partir de hoje hei de ser mais cuidadoso com minhas publicações. Prometo.

 

A conversa fluiu por longos cinco minutos – uma eternidade para quem não consegue trocar mais do que três palavras com alguém de doze anos. Se o meu interlocutor tiver mais de doze anos e com ele houver alguma afinidade, a conversa poderá conter algumas frases além das três palavras iniciais; caso contrário, o silêncio se faz benfazeja solução.

 

Então, como a menina resolveu se soltar, eu tentei ser um ouvinte atento. Ela disse que a leitura a faz mais reflexiva e a torna tolerante ao diferente. E também confessou o desejo de escrever um livro, o que me deixou particularmente encantado.

 

Fiquei, como esperado, sem palavras, mas lhe disse alguma coisa do tipo: “nunca deixe de ler”, “a leitura abre horizontes” ou “quem lê adentra outro universo” etc. Não sei o que a menina  pensou dessas minhas platitudes, mas foi o que eu tinha a oferecer naquele momento. Ah, também a aconselhei a escrever um diário para aprimorar seus textos. “Escreva todos os dias ao menos duas frases contendo as alegrias ou tristezas, realizações ou frustrações. Não importa o quê, mas escreva sempre.” Por fim, o assunto acabou e a menina retirou-se.

 

Mais tarde, já noite alta, chegou o Freizinho de suas peregrinações e engatamos uma prosa sobre assuntos diversos. Falamos de capitalismo, socialismo e temas teológicos. Falamos, não. Ele falou, porque o ‘lugar de fala’ é dele, não meu. Metido que sou, fico cutucando, dando uma de sabedor das coisas, mas o frei, que é sempre muito gentil, me acolhe a mim e a minha ignorância sem perder a elegância.

 

Finalmente, um grilo aparece na tertúlia e o assunto passa ser o inseto. O franciscano, no melhor de seu ofício, agarra o bicho carinhosa e cuidadosamente para lançá-lo ao terreiro. Sorte do grilo se o sapo, que é um bichinho de estimação da Mana Véia, não o abocanhar. Não sei se torço pelo grilo ou pelo sapo. Gosto dos dois, mas a natureza tem suas regras.

 

FILIPE

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SEXAGENÁRIO

por feldades, em 23.12.21

MARIA DA FÉ.jpeg

Hoje completo sessenta anos e de mim já se pode dizer em linguagem bíblica: “aquele senhor de muitos dias”.

 

Se aos trinta anos alcança-se a ‘idade da razão’, aos sessenta, com ou sem razão, chega-se à ‘idade da libertação’. Livre, agora, da obrigação de ser polido com a aspereza e sensato com a malvadez, quero sorver com sofreguidão esses poucos dias que ainda me restam.

 

Se a vida para o jovem requer coragem, para nós, os provectos, ela exige destemor e suavidade. Nesta crônica, tentarei a suavidade.

 

É manhã e estou na varanda de uma simpática pousada na Serra da Mantiqueira e meus olhos alcançam as montanhas verdes e molhadas, todas cobertas de névoa. Não muito distante daqui, está a igreja matriz de Maria da Fé cujo pináculo perfura uma parte do nevoeiro. No posto, um pequeno trator estaciona para abastecer. Sobre ele há seis caboclos de chapéu  e mochila, prontos para o trabalho rural – roçar, plantar, talvez colher.

 

Sento-me com o notebook, deixo a cuia de chimarrão na soleira da balaustrada e ponho a garrafa de água quente no chão (vai que cai...). De vez em quando, deixo o teclado e pego a cuia para um trago de mate.

 

O trator tomou rumo com seus caboclos para roçar ou plantar ou colher. Agora encosta uma caminhonete e dela desce o  motorista, que parece mal-humorado. Olha para os lados, não achando os frentistas, ele mesmo calibra os pneus.

  

Lá na frente, um homem atravessa a rua com dois cães: um preto e outro encardido, que talvez fosse branco algum dia. Por aqui, bicicletas e motos passam frenéticas. Um ônibus da Venetur desacelera, dando passagem a um assustado cãozinho amarelo.

 

No posto, o frentista reaparece e atende a um senhor de chapéu e botinas, trazendo consigo um pequeno galão. Este certamente não tem carro, mas tem uma roçadeira e vai abastecê-la.

  

O céu ainda está nublado com muitos tons de cinza-chumbo. À noite choveu e durante esta manhã deverá permanecer “embruscado” (essa é uma expressão de minha mãe).

 

No outro lado da rua passa veloz um cãozinho preto, que teria sido enxotado por alguém.  E a padaria do Tiaguinho, que fica a poucos metros daqui, acaba de tirar uma fornada de pão francês. O cheiro é convidativo para o desjejum.

 

Desde bem cedo, antes de raiar o dia, ouço os canários-da-terra, que aqui são abundantes. Mas a sinfonia agora é de pardais, ainda mais numerosos.

 

Subi a Mantiqueira à procura de um frio que não encontrei. Todavia, com os nossos verões cada vez mais quentes, a temperatura aqui está amena.

  

Volto à rua e vejo um homem com um porrete passeando com seu cão. O cão para e começa a beber de uma poça. O homem puxa, o cão resiste; o homem insiste e o cão não desiste. Por fim o cão se rende ao homem ou ao seu porrete.

 

Lá na frente vem vindo alguém com uma carriola, que deve estar vendendo mandioca, mas não vou saber, porque ele virou numa esquina. Na pracinha há uma feira e aquele homem foi lá para comprar ou vender.

 

A padaria do Tiaguinho acaba de desenfornar alguma coisa diferente de pão francês, que eu não sei o quê. Enquanto isso, um caminhão passa gemendo sob o peso de centenas de toras de eucalipto. Logo atrás dele, sem gemer, segue o caminhão de lixo e seus  socialmente invisíveis operadores.

 

No horizonte, o nevoeiro que cobria os montes com suas matas e pastagens se desfez, mas o céu continua nublê (na expressão de minha ‘patroa’), agora num tom aclarado. Na rua, ao trote de um cavalinho castanho-escuro, bamboleiam carroça e carroceiro. E da igreja matriz vem um anúncio fúnebre: “Comunicamos o falecimento de (...)”.

 

Deixo a rua e suas muitas surpresas e desço para o café da manhã, que nem é café, mas chocolate quente com o pão do Tiaguinho.

 

É, a vida aos sessenta requer suavidade e apaziguamento. A pressa é para os jovens.

 

FILIPE

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TEREZINHA

por feldades, em 11.12.21

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O ano era 1980; a cidade, Juiz de Fora. Eu havia me alistado para o serviço militar e fui convocado para servir numa unidade de cavalaria que ficava na região central daquela cidade. E foi nessa ocasião que conheci a Terezinha.

 

Tudo começou assim. No quartel, tive como chefe de seção o subtenente Lopes, a quem chamávamos carinhosamente de ‘Sub’. Este era um militar trabalhador, justo, cordial, e por quem eu me afeiçoei desde o início, mal sabendo ser ele o Zezinho,  esposo da “Terezinha da tia Áurea”.

 

Certo dia, o subtenente Lopes me chamou para acompanhá-lo num serviço que ele faria na cidade. A certo ponto, ele mandou o motorista estacionar a viatura, desceu e me convidou para acompanhá-lo. Em seguida, ele abriu um portão e, com um gesto, fez com que eu continuasse o acompanhando. Bom soldado que era, fui atrás dele. Então o ‘Sub’ afundou casa a dentro, e eu atrás... Já na cozinha, ele anunciou jubiloso à esposa a ‘chegada de um primo dela’. Era bem cedinho e a Terezinha estava ainda de pijama, trazendo consigo uma xícara de café e um cigarro. Assim que eu fui apresentado, ela já me tratava como um dos seus. Começou perguntando sobre meus pais, depois sobre seus parentes e, por fim, sobre sua Guiricema, de onde saíra havia muitos anos. Aquela mulher me foi tão intensamente agradável, que voltei lá outra vez, mais outra e outra, e passei a me sentir “um da casa”.

 

Conheci aquela família, começando pelo casal Zezinho e Terezinha. Depois fui me aproximando dos filhos: primeiro o Sérgio, que foi meu colega de farda; depois o Carlos, um magricela barbudo e cabeludo, com ideias libertárias e de quem passei a ser discípulo, amigo e confidente; finalmente a Rosana, Sandra, Rita, Marcelo, Márcio e Lurdes –  a “filha mais velha”.

 

Muitas são as passagens docemente vividas que fazem da Terezinha uma pessoa muito especial para nós. Papai, sempre que ia a Juiz de Fora, quando podia, passava na casa dela. Mais de uma vez mamãe, quando precisou ser internada ou fazer exames em Juiz de Fora, foi acolhida pela Terezinha. Há outros parentes, como uma tia, que também ficaram na sua casa por algum tempo antes ou após a internação. Essa prima sempre foi assim: hospitaleira, caridosa, desapegada... Com a palavra os muitos pedintes que a abordavam!

 

Certa vez, eu estava vivendo de bicos e passava por uns perrengues danados. Sabendo disso, a Terezinha me disse: “Sei que você está em dificuldade. Eu não posso fazer muita coisa, mas posso lhe garantir o almoço aos domingos. Então, todo domingo estou lhe esperando para a refeição. Mas é para vir mesmo, hein!”

 

A muito amável Terezinha sempre nos tratou com indistinto carinho.  Mas, vou revelar um segredo dela. O seu grande xodó foi meu irmão mais velho, o padre. Com este ela brincava (e brigava também) como se crianças fossem. O encontro dos dois era muito divertido. Muitas vezes a ouvi dando umas broncas bem brabas nele, e ele fazendo ouvidos moucos, como se nada estivesse acontecendo.

 

É... A vida, que segue reto seu curso, parece bastante apressada. Isso porque hoje perdemos a Terezinha sem que eu pudesse visitá-la.

  

FILIPE

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MINHA ÚLTIMA AVALIAÇÃO

por feldades, em 04.12.21

Como faço desde o início da carreira, em dezembro dou um pedaço de papel a cada aluno para que avaliem meu trabalho. Recomendo que essa avaliação deva ser anônima a fim de que possam expressar mais livremente seus pontos de vista sobre meus inúmeros erros e possíveis acertos também.  O resultado, embora doloroso para mim, tem sido frutuoso, pois a partir dele, eu me esforço bastante para melhorar a atividade docente. De início, essa “enquete” era feita no último dia de aula, mas devido à debandada prematura dos alunos, tive que antecipá-la.

 

No entanto, engana-se quem pensa ser isso vaidade. De posse dos papeizinhos preenchidos, costumo abri-los apenas quando estamos encerrando a burocracia. No silêncio de uma sala de aula deserta é que eu costumava desdobrar os pequenos “bilhetes”. Ali eu me pegava ora maravilhado com demonstrações de afeto de uns, ora terrificado com a violência verbal de outros. Agora, se me faço vidraça, é por que deveria confiar numa blindagem – mas ela não existe. As sibilantes pedradas que recebo costumam me estilhaçar. Contudo, continuo acreditando que esse trabalho faz parte de meu ofício. De todas as críticas recebidas, as que mais me incomodam são aquelas que desnudam meu comportamento discriminatório. “O professor dá atenção para uns, os inteligentes, e despreza outros”, muitos já disseram essa “mentira”, e parecia ser vã minha tentativa de mudar essa conduta tão ferina. No entanto, devo admitir, esse traço de minha personalidade extrapola o ambiente da sala de aula. Nas relações sociais sou bastante seletivo e confesso (não muito envergonhado) que essa seletividade me traz conforto.

 

Volto à “minha última avaliação” que dá título a esta crônica. Assim que peguei todos os papeizinhos, separei-os por classe e os pus em uma sacolinha para cumprir aquele ritual: ler quando estiver só. “Leu, professor?”, perguntavam-me curiosos alguns alunos no dia seguinte. Eles queriam que eu me manifestasse, que debatesse o assunto. No outro dia, cheguei e disse: “Hoje vou fazer uma coisa que nunca fiz em trinta anos de sala de aula”. Houve um silêncio, uma expectativa, parecia que eu anunciaria o dia do apocalipse. Chamei uma aluna à mesa e a apresentei à classe, dizendo: “Eu não li os bilhetes, mas a colega de vocês vai ler para nós. Vai ler tudo o que estiver escrito, até xingamentos, a menos que o pudor a impeça. Mas ela não vai ler o nome de alguém que resolveu assinar. Fiquem tranquilos”.

 

 

A classe ainda estava silente, apreensiva, paralisada, quando uma aluna irrompeu, protestando: “Por que tem que ler pra todo mundo?!” “Porque quero! Não é anônimo? Qual o problema?...”, rebati. Ouvi dela ainda um pálido resmungo, mas a leitura se iniciou.

 

Por sorte minha, pura sorte mesmo, os bilhetes eram só elogios. Todos, sem exceção, me exaltavam e eu fiquei até embasbacado. No entanto, um aluno visivelmente incomodado mudou de carteira, indo mais à frente. Por fim, ganhou coragem e disse: “Posso pegar meu bilhete de volta? Eu queria mexer nele”. Respondi que até poderia, mas como os bilhetes são anônimos, não teria como. “Eu assinei, professor”, disse ele. A mocinha pegou o papel, que ainda não tinha sido lido, e o entregou ao rapaz. Este o trocou por outro e eu fiquei sem saber por quê.

 

E assim em todas as salas: um aluno lia e todos ouvíamos atentos aquela que foi a ‘minha última avaliação’. Alvíssaras! Desta vez até fui tachado de chato, mas não xingado nem acusado de discriminação intelectual.

 

FILIPE

 

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MARIANA

por feldades, em 20.11.21

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Você acaba de completar trinta anos! Ainda ontem uma “pirralhinha”; hoje uma sóbria senhora, porque tem a ‘idade da razão’, é esposa, é mãe.

 

Lembro com carinho das mamadeiras no meio da noite, nas madrugadas, nas manhãs e nas tardes – todas feitas de leite com Ovomaltine. Tempos depois, veio a ‘papa-papinha’ de mandioquinha; de sobremesa, Yakult ou Danoninho, mas que você queria como antepasto.

 

Lembro com saudade das manhãs preguiçosas, assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum na Cultura, e das tardes sonolentas, vendo Chaves no SBT, e dos fins de semana com as "fitas-cassete" da Disney, que eu pegava para você na locadora do bairro. Em tardes de sábado, costumávamos ir de trem a Santo André. As suburbanas vagas humanas comprimidas nos vagões tal qual um “formigueiro” conforme você denominava e com ele se irritava. A missa na Catedral, uma parada na banca de jornais e um passeio na livraria do shopping. Você querendo um livrinho infantil e o insensato pai dando-lhe um dicionário!

 

Recordo-me de quando eu voltava da escola, noite alta e fria -- e você, pés descalços, me esperando ansiosa para tomar o chá que eu sempre trazia num copinho de plástico. Saía com o copo cheio, mas o bamboleio da caminhada fazia que derramasse uma parte na rua; ao abrir o portão, outro tanto ficava na calçada; depois teria que desviar dos afagos das cadelas Madona e Dolly, fazendo com que apenas metade chegasse até você. Dois ou três goles de chá morno já a deixavam agradecida, realizada e completa para dormir. Dali, você escalava o berço e se amoitava numa cabana de cobertores idealizada por mim para que não se resfriasse.

 

Havia também as consultas e as seções de inalação no postinho. Você chorava, não queria, brigava com o inalador, mas parece que o choro fazia parte da terapêutica.

 

Ah, e tinha também a creche! Eu a levava todas as manhãs, a pé, mas você queria colo. Chegando lá, você não queria entrar, mas o ‘tio Paulo’, bondoso porteiro, a convencia e você cedia. Enfim, você entrava e era recebida pela ‘tia Hélia’, a quem você detestava, não sei por quê. Certo dia, ligaram, dizendo que você estava doente e fui lá para pegá-la. Foi a única vez que entrei naquele prédio, de ambiente estranho, sem brinquedos nem paredes enfeitadas. Num cômodo havia uns colchonetes e sobre um deles estava você. Eu não disse nada, mas naquele dia compreendi as razões de seu enfado.

 

À tardinha, quando ia buscá-la, eu levava uma balinha Babalu e o Pitoko que, embora de pelúcia, tinha personalidade. Genioso, o bichinho nem sempre queria papo, mas de vez em quando fazia graça também. De dentro de meu casaco, ele deixava escapar uma patinha, que você via e dizia: “Acho que estou vendo alguém aí...” Então havia um teatrinho. Eu corria com o Pitoko, dizendo que ele não queria sair do quentinho do bolso. Mas você não desistia. Corria, já um pouco brava, até arrancá-lo de mim. Aí você o acarinhava, dizendo: “Você não gosta mais da mamãe, é?... Não sente saudades de mim?! Estou chateada com você!” E, com esses afagos, você reconquistava o Pitokinho. Caminhando mais um pouco, passávamos a uns cem metros de uma sorveteria. Você olhava para lá e dizia: “Soverte, soverte, pai. Quero soverte!” Eu fingia não entender, mas você insistia. Houve vezes em que passamos lá para gelar o gogó. Mas eu dizia sempre que picolé dá dor de garganta, resfria, dá gripe... embora isso nunca a convencesse, nem a mim.

 

Obrigado, Mariana, pelo ensejo. Agora é sua vez de viver essa doce saga com a Maria Eugênia.

 

FILIPE

 

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O PEDREIRINHO

por feldades, em 06.11.21

Ele acaba de completar ‘cinquenta anos’! Ainda ontem esse mano era um rapazinho franzino, que furava buracos, amarrava ferragens, levantava muros e paredes, armava laje, cimentava, rebocava e azulejava. Com apenas dezoito anos ele ergueu a minha casa!

 

Olha, que tempos foram aqueles!... Era finalzinho dos anos oitenta e começo dos noventa. A inflação roía nossas economias, tornando difícil um planejamento. Mas, com o mano ao meu lado, fui em frente. Trabalhando quase sempre sozinho, ele fazia a argamassa, punha na lata e subia no andaime onde despejava a massa no caixote. Depois descia, ajeitava a masseira e retornava ao andaime com a colher de pedreiro, prumo e nível. E assim, as paredes de alvenaria foram erguidas, colunas concretadas, laje batida, telhado posto.

 

Por tempos, levantando muito cedo, ele atravessava parte da cidade, percorria alguns quilômetros, até chegar à obra. A comida era bem precária: arroz, feijão, carne cozida e talvez uma salada, ou nem isso. O cardápio, que eu mesmo preparava, não variava nunca. Mas ele talvez não saiba que a minha comida era ainda mais pobre. A carne eu reservava a ele, enquanto eu me virava com um ovo cozido.

 

O interessante é que ele nunca pediu aumento no ordenado. Combinamos um valor no começo da obra e depois as coisas foram se ajustando. Certa vez eu lhe propus pagar o valor de ‘dois sacos de cimento’ como diária. Ele se animou, dizendo que “o Chimba sempre falou que o pedreiro deve ganhar ‘dois sacos de cimento’, e que o servente pode ganhar ‘um saco’”. Fiquei contente, porque não foi preciso mais fazer muitas contas. Bastava contar os dias de trabalho e ver o preço do saco de cimento que eu pegava lá no Zé da Roleta. Então, quando eu ia acertar, ele ia nos seus guardados e pegava um pedaço de papel onde estava sua contabilidade. Nesse papel, que não por acaso era de saco de cimento, ele apontava os dias trabalhados e eu pagava.

 

É importante explicar uma coisa. Naquele tempo, a Votorantim monopolizava a produção de cimento e punha o preço que lhe conviesse, chegando a sonegar o produto para encarecê-lo. Mas isso mudou depois que o presidente Itamar Franco importou cimento da Grécia, fazendo o preço cair. Hoje, ainda que o cimento seja caro, o preço não se compara ao que já fora.

 

Mas o mano não perdia tempo mesmo. Trabalhava o dia todo e à noite ainda ia para a escola estudar aquilo que era conhecido como ‘primeiro grau’; concluído esse, fez o segundo grau. Lembro dele naquela escola, onde eu também lecionei. Nesse tempo, sua vida tinha melhorado, porque já estava trabalhando na indústria. Ele chegava timidamente e se dirigia a um professor para pegar a ficha de estudos. Não sei se por coincidência ou sorte dele, mas eu nunca o atendi.

 

Econômico, quase não gastava o que ganhava. Na minha memória ficou uma domingueira calça jeans que ele sempre usava. Nela tinha um desenho de um vampiro e a palavra “Vamp” alusivo a uma novela. Acho que ele tinha outras calças, mas só me lembro dele com essa.

 

Hoje o "pedreirinho" já não tem dessas preocupações. Estabilizado, oferece sem medir esforços todo conforto à sua família composta de esposa e três filhos – o mais velho, um futuro economista.

 

O que mais me impressiona nesse mano, de poucas palavras e humor cáustico, é sua sabedoria. Dentre os onze irmãos, talvez ele seja a voz mais sensata, ponderada e esperada quando surge algum impasse entre nós.

 

FILIPE

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PASSAREDO

por feldades, em 23.10.21

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O flagrante acima é de um jacu. Essa ave esbelta e um pouco arredia costuma me dar o agrado de uma breve visita, mas que só acontece de vez em quando. Ela deve ter suas razões, e por isso não gosta de muita prosa comigo. Quando chega, pousa no telhado, olha ao redor, caminha um pouco e pula para o abacateiro, depois voa para a mangueira e de lá segue seu destino para outras e longínquas paragens.

 

Moro numa região bastante arborizada onde há várias espécies de pássaros. Por aqui há sabiás, bem-te-vis, rolinhas, tico-ticos, corruíras, sanhaços, canários-da-terra, tucanos, galos-da-campina, pica-paus, joões-de-barro, maritacas, anuns, colibris, asas-brancas e um sem-número de outros pássaros que não consigo nomear.

 

Nas manhãs de sábado, ando pelo bairro com meu cãozinho Tokinho e vamos ouvindo o passaredo. Outro dia, num desses passeios, notei algo estranho na casa de um vizinho. O homem estava com uma vara comprida – talvez um bambu, ou sei lá o quê. Ele usava aquilo para dar golpes violentos na garagem, onde estava seu carro. De vez em quando ele abaixava e enfiava o bambu por debaixo do carro, levantava novamente e socava o bambu pra lá e pra cá. Quando me viu, parou por um momento, mas voltou ao serviço. Daí a pouco sua mulher chegou, talvez para ajudá-lo ou, quem sabe, fazê-lo desistir daquela difícil empreitada que lhe roubava as forças. E ele bate com o bambu aqui, bate ali, bate lá até quebrá-lo. Nesse momento, quando ele se abaixou para pegar o pedaço do chão é que vi o que acontecia. De súbito, um jacu passou rasante pela sua cabeça e ganhou o bosque lá embaixo. Mas foi por pouco que o homem não o acertou. Furioso, ele ainda conseguiu lançar aquele pedaço de bambu, chegando arrancar uma pena da pobre ave.

 

A última imagem que me ficou daquela cena – que considero “obscena”, é bom ressaltar –  foi a do homem com uma pena preta na mão e olhando na direção do bosque, à procura do jacu – agora feliz e salvo.

 

Durante o inverno, os passarinhos sofrem bastante. Esses pequenos seres vagueiam à procura de alimentos que são bastante escassos. Tento atendê-los com uma pitangueira, duas goiabeiras e três amoreiras. Não posso fazer mais do que isso, mas ajudo um pouco. A vizinhança, porém, não colabora. Dois anos atrás, um vizinho “removeu” árvores que o incomodavam com folhas na calçada. Cortou as árvores para vender o imóvel em seguida. Vai entender... Outro vizinho fez algo semelhante àquele. Cortou dois grandes pés de lichia, que alimentavam inúmeras famílias de maritacas, e vendeu a chácara logo depois.

  

Os pássaros – essas pequenas, frágeis e dóceis criaturas – são tão necessários que, sem eles, em dois anos os insetos nos dominariam, sendo extintos todos os vertebrados não marinhos do planeta. Pelo menos foi o que ouvi há muitos anos no extinto programa Projeto Minerva da rádio MEC.

 

“Vinde a mim as criancinhas, mas também os passarinhos!”, talvez dissesse Cristo no dia de hoje.

 

FILIPE

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PERDAS

por feldades, em 09.10.21

Cheguei ao ponto de ônibus às ‘seis horas e vinte e cinco’— como faço todos os dias, de segunda a sexta-feira. Há vezes em que o ônibus atrasa uns minutinhos, chegando às seis e meia. Dessa vez, no entanto, ele não atrasou.

 

Como sempre, uma senhora já está lá desde muito antes de eu chegar. Com cigarro aceso, fazendo fumaça e pensando na vida, ela me parece bastante simpática, mas de pouco assunto. Chego, dou-lhe o bom-dia e também fico em silêncio até o “cata-louco” chegar.

 

De uns tempos para cá, no entanto, passamos a trocar algumas frases banais do tipo: “que frio!”, “que calor!”, “que seca!”, “que chuva!”, e nada mais do que isso.

 

Hoje, porém, fomos um pouco além do prosaico. Eu sentia frio, mesmo com um casaco, e ela em trajes de verão.  Perguntei se fazia frio mesmo ou estava febril, e expliquei o motivo. Extraí um dente, estou com vários pontos, tomei anestésico e aquilo tudo me afetou bastante, só conseguindo dormir à noite depois de tomar dipirona.  Ela disse que não fazia muito frio, mas que não estava quente também. E disse mais. Hoje teria um dia bastante agitado. Disse que deveria sair do serviço para fazer compras etc., e que resolveria alguma coisa da família de um primo que falecera anteontem. “Seu primo faleceu? Com que idade?”, perguntei a idade, mas não o porquê (não gosto de saber a causa mortis, porque não tenho vocação para legista). Ela disse ‘sessenta e cinco’, e eu respondi que não era velho. Em seguida, ela me disse que perdeu uma sobrinha, e esta tinha 35 anos – o que me deixou bastante assustado. Dessa vez não foi preciso perguntar a idade, mas eu quis saber se o nome dela era Juliana; quase perguntei se foi covid, mas essa palavra tem causado alguns atritos e eu não queria aborrecer alguém e muito menos ser aborrecido. “Não, a Juliana é outra pessoa, e já faz dois meses que partiu; minha sobrinha era a Aline, que faleceu semana passada”.

 

O ônibus apontou na curva, mas a tempo de ela ainda acrescentar algo. Disse que, há tempos, teria perdido uma irmã e a mãe, e com diferença de apenas seis meses entre uma e outra.

 

Nesses ínfimos quatro minutos de prosa, foram quatro longas perdas relatadas pela minha colega passageira. Ao subir os degraus da embarcação, apenas tive tempo de dizer uma ‘platitude acaciana’ -  algo típico do ‘Conselheiro Acácio’, um personagem célebre de Eça de Queiroz: “A vida são perdas”. Ela concordou e entrou; eu entrei também. Paguei a passagem e me acomodei num banco alto perto da roleta, e ela foi para o fundo, sentando-se no banco de sempre. Nesse momento, pensei: “Ela perdeu o pai, a mãe, irmã, sobrinha, primo... E eu aqui, triste por ter perdido um dente!”

 

FILIPE

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QUEIMADAS

por feldades, em 25.09.21

Quando menino, fiz uma tremenda besteira da qual nunca me esqueço. Na época em que cometi esse “crime”, eu tinha a idade de dez ou onze anos. A história foi assim. Meu pai havia roçado nosso quintal e feito umas coivaras [um amontoado de galhos] para serem queimadas a fim de preparar o solo para o plantio. Ele é quem deveria pôr fogo nas coivaras, e não um menino, que ‘não tem juízo’.

 

Antes desse malfeito, eu assistia encantado às queimadas que todos faziam naquele tempo e queria protagonizar uma cena daquelas também. Lembro de um tio, irmão caçula de minha mãe, que botou fogo num roçado no sítio da vizinha tia Badica. Ele pegou uma vara de bambu com um chumaço de pano embebido de querosene, pôs fogo nesse chumaço e semeou as chamas pelo matagal. Eu olhava com orgulho (e inveja) o meu tio: pequeno, um garoto ainda, mas tão poderoso!

 

Voltando ao meu caso. Meu pai não estava em casa e eu, querendo adiantar o serviço, peguei uma caixa de fósforo, risquei um palito e tentei pôr fogo nas coivaras. O fogo começou trêmulo, desanimado, chegando a apagar. Eu tive que gastar vários palitos de fósforos para convencer o fogo que aquele era um trabalho sério. Por fim, uma pequena chama se formou. Depois outra e outra e outra, que se uniram e se animaram. Em pouco tempo as labaredas devoraram as minhas coivaras e queriam mais. Então elas começaram a lamber as beiradas do mato que cercava o roçado e, de repente, uma língua de fogo mais comprida e indisciplinada alcançou uma pequena moita de capim, já fora do meu roçado. Foi o suficiente para eu perder o controle da situação e ser dominado pelo danado do fogo.

 

Desesperado, usando um pequeno balde com água para apagar o fogo, comecei a gritar, pedindo socorro. Meus irmãos eram muito pequenos e nada poderiam fazer, mas o Zé Alfredo, nosso vizinho, chegou para ajudar. A essa altura, o fogo já estava no terreno da tia Badica, transformando tudo em cinzas. Sem pressa, com muita calma, o Zé Alfredo foi controlando as chamas, até apagar completamente o fogo. Ele usava um galho de folhas verdes, com o qual abafava os focos até dar cabo de todos eles.

 

Aprendi a lição e nunca mais eu quis saber de pôr fogo em mato. Envergonhado, tive que ouvir por muito tempo a mofa de minhas vizinhas, as filhas do Antônio Moisés. “Então o fogo pulou?!”, perguntavam. “Pulou, uai!”, eu respondia, tentando mudar de assunto.

 

Conto essa história aqui, que é verdadeira, para mostrar que havia uma “cultura do fogo” no meio rural. Aquelas queimadas eram feitas todos os anos no preparo do solo para a plantação, mas eram muito bem controladas. O que acontece atualmente não tem paralelo com o passado. Há um crime ambiental no campo e nas cidades. Nada justifica que desocupados ponham fogo nas margens das estradas, em terrenos urbanos e, muito menos, que incendeiem nossas matas.

 

FILIPE

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