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TELEFONEMAS

por feldades, em 30.08.14
Publicado no"blogdofilipemoura.com", em 09/08/2013
telefone tocou e vi que era ele. Estava indignado, muito bravo. Falava comigo com a mesma fúria que usaria contra um desafeto. A conversa começou mais ou menos assim: “Ô cara, vê se pode uma coisa dessas... Aquela gente da Globo tá dominando a visita do papa, e isso não pode acontecer não, uai! Você não viu? Até a Ana Maria Braga tá lá, vestida de santinha, pra receber o papa! E não é só ela não. O pessoal da novela tá tudo lá também. Cruz credo! E é gente de vida errada. Muita gente ali já casou, descasou, tem filho com todo mundo, mas tá lá que nem anjinho!”

 

O menino falava sem parar, como se eu fosse o culpado de tudo aquilo.  Logo eu, que nem estava vendoTV por aqueles dias... Então tentei redarguir: “Mas... é só não ver TV! Eu não vejo novela, não ligo na Globo...” Mas o moleque não me deixava falar. Só ele falava e eu teria de ouvi-lo naquele momento de angústia por que passava. Queria e exigia uma solução para a crise que lhe tirava o sossego. Uma palavra de consolo, um xingamento, qualquer coisa, mas só ele falava. Por fim, acedendo, pude lhe dizer algo, de que nenhum proveito tirou. Como já estou acostumado a ser procurado em momentos assim para dar opiniões, que nunca são aproveitadas, pouco me esforcei para acertar desta vez.

 

O caçula tem razão. Esse moleque estudou pouco, mas aprendeu muito. Sua argúcia supera em muito a minha, por isso devo ouvi-lo mais. Soube por ele que a Globo monopolizara a cena da visita pontifical. A Globo fez isso não por devoção, mas por picuinha com sua congênere Record, igualmente diabólica.  Acrescento que não há exclusividade nessa prática nada angelical. Outras emissoras, tidas e mantidas como católicas, aproveitaram o momento para vender medalhas com a figura do papa e uma cruz contendo terra e água lá da “Terra de Jesus”. Acessei no site para ver o preço: 649 reais!

 

Impaciente, pouco vi tevê nos dias em que ocorria a JMJ. O noticiário era enfadonho, repetitivo. Incréus opinavam sobre fé e católicos vendiam quinquilharias como as tais medalhas, além de livros de cura, CDs, imagem que reza, remédios, creme São Luiz, óleo de chia, cruz da felicidade, viagem à Terra Santa, ômega 3, cogumelo do sol..., e muito mais. O antigo armazém televisivo tornou-se mais fornido agora com a presença papal.

 

Certa vez telefonei para saber o preço de um produtoanunciado na Rede Vida, e a atendente já foi logo me pedindo cartão de crédito. Disse-lhe que sou idoso e sem rendas, ainda assim ela insistiu. Queria que eu comprasse tal produto “baratinho, uma pechincha..., apenas 189 reais!” “Mas eu não tenho esse dinheiro, moça. É muito caro pra mim!” “Vê se arruma emprestado...” “Vocês estão explorando o povo em nome de Deus. Isso é pecado!” “Não estamos explorando. Estamos vendendo até barato. As outras tevês cobram muito mais caro!” “Isso não é correto. Os pobres, velhos e doentes, que ligam a tevê para rezar o Terço e assistir à missa, estão sendo afrontados com essas propagandas. E eles querem comprar, pois sofrem de enfermidades que vocês prometem curar. Mas como vão comprar, se é tão caro? Além do mais, isso é charlatanismo, pois somente um médico pode receitar.” “Mas não é remédio, é complemento alimentar. Ah, deixa pra depois. Quando o senhor estiver mais calmo!...” “Mas eu não estou nervoso. Eu estou é...” A moça desligou o telefone.

FILIPE

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REFLETINDO

por feldades, em 23.08.14

Não apresento aqui uma contribuição às ciências humanas, mesmo porque este autor que ora vos agasta não tem suficientes letras para se arvorar de intelectual. Mas, pensando sobre as voltas, reviravoltas e cambalhotas que o mundo dá, cheguei à conclusão de que os antropólogos, sociólogos e demais estudiosos do comportamento humano – e os há às montanhas – estão nos devendo alguns porquês sobre nosso comportamento.

 

É sabido que as pessoas comportam-se mais ou menos conforme determina seu líder. Já os liderados, muitas vezes, nem têm noção de como são conduzidos; o líder, noutras vezes, nem mesmo se vê como condutor.

 

Baseando-se nessa breve assertiva, pode-se entender melhor o (mau) comportamento de determinadas pessoas ou grupos. Isso se verifica em gangues travestidas de torcidas organizadas, em determinadas famílias e, principalmente, nas seitas religiosas. Estas têm sido muito comuns e se proliferam feito sauveiro após as primeiras chuvas.

 

O líder de uma seita é conhecido e venerado, mas esta não é uma regra aplicada às famílias. Em geral, no núcleo familiar o líder aparente é um parvo. Pensa que manda, mas não decide sequer pelo café ou a pinga que bebe. À sua sombra – ou melhor, fazendo-lhe sombra – há quem de fato comanda a todos, inclusive o dito “mandachuva”, que, de tão inepto, não chega a ser nem “manda garoa”. Para o bem ou para o mal, essa liderança, ainda que submersa, existe e determina toda a trajetória do grupo.

 

Se o inexistente leitor discorda deste ensaio, dou-lhe o crédito da inteligência, que muito me é escassa. Ainda assim, ouso avançar nesta insana explanação. Para corroborar esta tese, tomo como referência a matilha do vizinho. Lá, há uns três ou quatro cães ferozes, mas um deles é quem decidiu pela ferocidade canina. Caso o líder fosse “gente boa”, a matilha passaria o tempo cochilando, sonhando com um osso e meditando sobre seu pequeno mundo delimitado por muros, e a perna do visitante estaria a salvo.

 

O ideal para todos nós, humanos, desumanos e para os “mano” também, seria que ninguém se submetesse aos ditames de outrem. Cada um deveria se empenhar em descobrir a verdade em meio a tanta maldade e deixar-se guiar por ela. Há que se encontrar discernimento, ou então se caminha manso e bovinamente para o matadouro.

 

Voltando aos grupamentos humanos, mais especificamente às tribos, suburbanas ou não, e aos clãs, o líder é quem lhe dá rosto. Vícios ou virtudes dessas massas têm o DNA de quem as comanda.  Esse comando, consciente ou não, pode vir de patriarca, matriarca ou “filiarca”, com o perdão por esse neologismo.

 

Por essas e tantas outras, tenho recalcado meus ânimos. Tento, meditabundo e sem muito sucesso, interpretar os “sinais do tempo” presente, passado e futuro. Mas, o produto de tamanho exercício mental deu nesse besteirol.

 

Desconfio que a (não) crônica de hoje deva frustrar alguns abnegados que insistem em me acompanhar. Mas, fazer o quê?... Preciso cumprir a agenda da quinzena...

 

FILIPE

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DONA MARIA

por feldades, em 16.08.14

Publicado no extinto "blogdofilipemoura" em maio de 2011.

 

Vivera para além dos noventa anos, e os últimos cinco apartada da família e dos amigos. Mas não era infeliz e gostava de prosear. Tivera alguns filhos, mas um deles se fora há alguns anos. A morte trágica do filho deixara-lhe profundas marcas. Ao visitá-la, de longe e já me reconhecendo, exclamava comovida: “Ah, o meu filho que Deus mandou pra mim. Perdi um, mas Deus me deu outro!” – brincava. Chegando, sentava-me ao seu lado e ela, por sua vez, pegando-me uma das mãos, lamentava a morte prematura daquele por ela gerado. “Marido morre, a gente arranja outro, mas filho... não tem jeito, não dá pra arrumar outro. Você se lembra dele?” – sempre me fazia essa pergunta ao final de sua máxima, ao que eu respondia: “Não me lembro dele, porque não cheguei a conhecê-lo”. Ela me parecia ainda mais triste com  a resposta, mas logo um sorriso brotava e se punha a falar de outras coisas.

 

Assim que ingressara naquela casa – voluntariamente, fazia questão de dizer –, conhecera um senhor que por ela se encantou. Homem sisudo, seu Natal nunca ria. Apenas dona Maria seria capaz de desmontar aquela sisudez. Ao lado dela, parecia um garoto de tão feliz que era. Aos poucos, de estreito passando a largo, seu sorriso era todo para ela, por quem se apaixonara de verdade.

 

Natal amou Maria e por ela foi muito amado. Mas, chegou um dia em que Natal não mais podia vê-la. Seus pés, feridos, não permitiam caminhadas, ainda que curtas, para visitar Maria que se encontrava acamada. Assim, embora sob o mesmo teto, os dois não se viam e Natal não mais sorria. No entanto, dona Maria não se queixava. Tinha, sim, saudades do amado e de uma comidinha mais caseira. “Não consigo comer carne cozida. Para mim, tem que ser frita e bem temperada. Essa que me servem, eu não como!” – desabafava com muita freqüência. Reclamava também da sopa servida como jantar. “Todo dia, sopa de macarrão, não aguento mais. O almoço até que dá pra engolir, mas a janta... Eu não gosto!” Sempre a ouvia e com ela concordava sem, no entanto, precisar me esforçar para isso.

 

Dona Maria já não sofre. Para sempre, repousará ao lado do filho amado e na memória de quem teve o privilégio de conhecê-la. Ela se foi num dia especialmente belo, e agora triste. Foi no Dia das Mães que ela partiu, sem ter como avisar e sem se despedir do amado Natal.  Ah! Como deve sofrer aquele que, no degredo, ainda a ama em segredo!

 

FILIPE

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NATAL

por feldades, em 08.08.14

Amara dona Palmira por meses, anos talvez, mas um dia os anjos levaram-na. E por tempos, Natal acabrunhara-se, ficando sentado num banquinho e tendo por companhia apenas o cigarro. Seu luto demorava passar, até que chegou dona Maria e pôs fim àquela tristeza toda.

 

Duas mulheres distintas: a primeira, baixinha, vaidosa e já octogenária, disfarçava os anos à custa de grossas camadas de ruge e batom. Usava vistosos vestidos de cores fortes, em tons que variavam do vermelho ao alaranjado, e também brincos e colares, mais parecendo uma cigana. A segunda era de uma estética mais discreta. Somente de vez em quando punha seus esmaltes e alguma maquiagem leve. Não obstante a diferença entre as duas, Natal as amou platônica e intensamente. E o fez bem à sua maneira, cada qual no seu tempo e sem duplicidade.

 

Certa feita, Natal ficando gravemente enfermo teve que se submeter a procedimento que envolvia uma engenhoca com mangueira e agulha espetada no pulso. Ficou nervoso com aquela parafernália e tentou recusar o tratamento. Mas, para seu consolo, eis que surge uma “enfermeira” em tempo integral. Sua amada, dona Maria, instalou-se ao lado de sua cama e lá permaneceu sentadinha até que ele se curasse. Cena comovente aquela.

 

Noutros tempos, Natal teve dificuldade de visitar dona Maria, pois seus pés estavam cheios de cravos. Obstinado, era comum vê-lo em peregrinação à ala feminina. Arrastando os pés bem devagarinho, boné atolado e cigarro na boca, ia ele cheio de amor e saudade. Houve tempos em que cheguei a conduzir dona Maria, já em cadeira de rodas, até seu amado. Deixava-a com ele enquanto visitava os demais. Na despedida, trocavam um discreto beijinho.

 

Parecia ter ciúmes, principalmente de dona Palmira. Talvez isso acontecesse pelo fato de que esta fosse um pouco “atirada” para seus padrões. Já dona Maria era mais contida e não lhe despertava insegurança.

 

Nos tempos de dona Palmira, quando não era crime distribuir doces naquele asilo, eu lhe oferecia balas. Nunca aceitava, mas a namorada sempre o impelia a pegar. “Pega, Natal, e dá pra mim!” Ele, finalmente, pegava sem dizer palavra e as entregava de pronto à companheira. Por essas, eu até cheguei a não me afeiçoar com ele. Achava-o rabugento, mas com o passar do tempo vi que era simpático, proseador, bacana mesmo. Antes, ele apenas resmungava alguma palavra; depois já se ouvia um bom-dia com sonoridade; finalmente, tornou-se íntimo e palavroso.

 

Após a morte de dona Maria, Natal ficou recolhido. Muitas vezes, no meio do dia, eu o encontrei desacoroçoado, deitado na cama sob o cobertor. Ao lado, no criado-mudo, um intocado prato de comida. Sem fome, ele aceitava umas paçoquinhas que eu arriscava clandestino. Mas, com o endurecimento do “regime” e o patrulhamento da diretoria, fui acusado de distribuir doces vencidos. Não houve, portanto, mais paçoquinhas. E o Natal definhava.

 

Partiu dona Palmira, partiu dona Maria, partiu Natal, partirei eu. Tudo o que resta são recordações que se anuviam, se descoram e se apagam. Como se apagam as existências.

 

FILIPE

 

NOTA: Dona Maria já foi retratada em crônica que será reproduzida aqui em “feldades”.

 

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UMA VISITA

por feldades, em 02.08.14

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 23/08/2013

 

O apartamento, como sempre, estava limpo e perfumado. Sobre a mesa, uma gamela de madeira com varias frutas: maçãs, pêssegos, bananas. No espaldar da cadeira, uma toalha de banho; um pouco além, próximo à cama, um par de chinelos. Um caderno aberto exibia uma caneta e um pequeno bilhete. “Amigo, fique à vontade. Este espaço é seu. A erva-mate está na geladeira. Amanhã, após a missa, darei uma passada por aqui.” Assinou.

 

Abri as cortinas e divisei no horizonte uma última estrela que ainda brilhava naquela madrugadinha de julho. Fazia frio e na calçada oposta da avenida estava um amontoado de cobertores, sob os quais haveria uma ou duas pessoas. Um pequeno cão ficava de guarda enquanto seu protegido dormia o sono dos desabrigados, ou dos embriagados, quem sabe.

 

Uma estante repleta de obras machadianas e de outros clássicos estava ali: dadivosa oferenda ao visitante. Mas os pés dentro das botinas, doloridos, talvez inchados devido à longa viagem, imploravam por repouso.

 

A água morna deslizava sobre minha pele despindo-me de toda a fadiga. Após o banho, um moletom macio substituía a dura farda de viagem e eu me sentia renovado. Abri um livro, que eu havia comprado na rodoviária enquanto aguardava o ônibus, e comecei a lê-lo. O tema estava da moda: o papa Francisco – sua história e as perspectivas sobre seu pontificado.

 

O dia acabara de chegar, mas o sol estava atrasado em sua viagem devido às rotineiras complicações com as nuvens, conquanto não houvesse prenúncio de chuva. Sendo o frio cada vez mais intenso naquela manhã, resolvi preparar um chimarrão. Fui ao armário da cozinha e procurei pela cuia do amigo. Não estava lá; estava na minha frente, sobre a geladeira – um moderno frigobar recém-adquirido – dentro do qual havia a erva-mate. Aqueci a água e preparei aquele que seria o mais maravilhoso de todos os chimarrões. Sempre o mate do momento é superior aos anteriores. Não se sabe por que, mas isso deve dar uma boa tese acadêmica. Há que se pesquisar...

 

Aquele dia foi reservado à leitura e descanso. Dormi bastante, a ponto de me despertar na madrugada seguinte. Era sábado e o amigo viria logo cedo.

 

De manhã,chega o amigo. Tímido, devagar, tão discreto que deixava a impressão de ser ele a visita, e eu seu anfitrião. Quase tive vontade de lhe dizer: “Amigo, fique à vontade, pois a casa é sua!”

 

O reencontro com o velho companheiro fez a fortuna do dia e da viagem. A conversa sempre prazerosa; e as palavras de tal leveza, que pareciam planar. Como a fumaça de seu cigarro de palha. As novidades, o conselho, a orientação e, sobretudo, a interrogação. Somente quem sabe é capaz de deixar uma interrogação no final. Os sábios são assim. Interrogativos.

 

FILIPE

 

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