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BOM-DIA

por feldades, em 29.04.16

Cumprimentar as pessoas faz parte do ofício de quem é, ao menos razoavelmente, educado. Ainda que desprovido de beleza e parco de inteligência, pode-se arrumar na vida sendo simpático, porque o sorriso é um infalível abre-portas. Talvez pelo fato de não ser belo nem inteligente, conservo esse velho costume, apesar de eu não ter me “arrumado na vida”.

 

Um bom dia sempre começa com um bom-dia, diz o ditado. Por isso, costumo cumprimentar as pessoas que encontro, mas nem sempre sou correspondido. Nas minhas caminhadas, que normalmente faço lendo um pedaço de jornal, fico atento a quem cruzo. Aproximando, tiro os olhos do jornal e fixo na figura. Se o fulano (ou fulana) despistar, olhando para o lado, já sei: não quer ser cumprimentado e continuo a leitura. De vez em quando, passo perto de uma senhora, que me ignora inteiro. Noutros tempos, tentei cumprimentá-la, mas ela colheu o meu bom-dia virando a cara com um resmungo, atirando ao longe a minha saudação.  Ela não quer que eu a cumprimente e eu não a cumprimento mais. Passo raspando, sinto roçar-me o sopro quente de suas narinas, mas vou reto e mudo. No entanto, já foi pior. Uma colega costumava responder: “Bom dia pra quem? Só se for pra você, porque o meu dia tá uma m...”

 

Deixando de lado essas torpezas, penso que deveria apenas haver ‘bom-dia’ e ‘boa-noite’. Lá no Gênesis, está: “Deus chamou à luz dia e às trevas noite”; a ‘tarde’ e a ‘manhã’ foram citadas, mas só de raspão. Já que há ‘boa-tarde’, por que não “boa-manhã”? Tem mais. No início do horário de verão, a noite começa com o astro-rei ainda a “metros” acima do horizonte e os ‘boas-noites’ já se assanham... Acho uma falta de respeito para com a majestade solar. E ainda, pelos manuais da etiqueta, após a meia-noite – duas da madrugada, por exemplo –, a saudação deve ser ‘bom-dia’.  Vê se pode, dizer bom-dia no meio da escuridão?...

 

Sei que é de bom-tom cumprimentar as pessoas, mas isso nem sempre é possível. Quando, numa rua deserta, vem um sujeito meio assustado, de longe já se desconfia das intenções dele. Os passos costumam ser largos e descompassados, olha para trás, para os lados e estando já à meia distância, fixa em você. Penso que atravessar a rua lhe seja mais prudente, pois a situação exige cautela. Se você lhe der bom-dia, ele retribuirá com um: “Ô moço, numprocê me cinquenta centavos? Preciso pegá o ônibus pra (...) e sem grana”. Olha que esse bom-dia já lhe custa ‘cinquenta centavos’!... Tá barato, mas pode custar caro. Tome cuidado!

 

Quando entro na sala de aula, a primeira coisa que digo é o tal ‘bom-dia’. Mas sempre há um engraçadinho, berrando: “Bom dia, fessô! Num dá bom-dia pra nóis não?!” E aí, para não ter que ficar explicando a esse mala, que eu cumprimentava a classe enquanto ele fuçava no celular, escrevo no canto da lousa: “Bom dia! Guarda teu celular”.

 

Aliás, vou confessar algo e gostaria de que ficasse somente aqui, entre nós. Quando resolvi escrever a saudação com a “regra do celular”, quis ser chique e usei o imperativo. Mas pus o verbo na terceira pessoa e o pronome na segunda, lascando um “guardem vosso ...”. Então, uma colega, muito sutilmente e com a discrição dos sábios, advertiu-me: “Não seria ‘guardai vosso’?...” “Ah, sim, tem razão!”, respondi sorrindo para disfarçar minha parvice.

 

Não consegui ser chique, continuo antipático, mas aprendi a usar verbo e pronome de forma correta.

 

FILIPE

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A CAPELA DOS HOMENS PRETOS

por feldades, em 23.04.16

Numa praça do Centro Velho de São Paulo, há uma monumental escultura intitulada “Mãe Preta”. Distraída entre pombos e mendigos, uma negra dá de mamar a um bebezinho branco e gorducho.  A escultura evoca o tempo em que os filhos das sinhás eram amamentados pelas pretas escravas. Um pouco ao lado, está a capela da Irmandade dos Homens Pretos de São Paulo

 

Erguida por negros em trabalho voluntário há um século, essa capela sucedeu a outra que fora construída pelos escravos no começo do século dezoito e, pouco depois, demolida, num criminoso projeto de urbanização da cidade. Seu interior é simples e acolhedor. Nas laterais, entre um Bom Jesus e várias madonas, uma rica iconografia negra se impõe, destacando-se as imagens dos santos etíopes Elesbão e Ifigênia. Santa Bakhita, acompanhada de São Benedito e outros, está majestosamente instalada logo na entrada. Mais à frente, à esquerda, encontra-se Santo Antônio Categeró, outro negro e escravo. E assim, em cada canto e em cada altar há uma multidão de imagens, que parece disputar a prece, o pedido ou a devoção do fiel que chega. 

 

No altar, sob o olhar vigilante e compassivo da Virgem do Rosário, que é a padroeira daquela comunidade, mulheres e homens (pretos e brancos) se dividem na nobre tarefa de auxílio ao celebrante. É uma assembleia genuinamente formada por gente do povo, que participa daquele ritual litúrgico, entoando seus cânticos numa contagiante alegria. 

 

Após a Comunhão, já no final da missa, outra fila se forma. O sacerdote, como que compadecido dos fiéis que estão excluídos do Banquete Eucarístico, lhes asperge água benta. Isso é um verdadeiro lenitivo para a alma destes, mas funciona também como sagrada sobremesa para os outros. Cumprido todo o ritual, o padre se faz povo e com o povo se mistura, trajando seus jeans e camiseta surrados.

 

Comunidades assim são tesouros da Igreja e deveriam existir em todas as dioceses. Se assim fosse, jamais teriam acontecido histórias tristes como a de minha amiga, dona Dora. Esta, quando jovem, não conseguiu entrar para uma congregação, por ser negra! E isso aconteceu a pouco mais de meio século! O impressionante é que dona Dora, apesar dessa ferida, nunca abandonou a Igreja Católica, permanecendo-lhe fiel como poucos.  Viúva, continua vocacionada, mas não pode ser freira. Desta vez,  por ser velha!

 

Talvez haja a necessidade de se fundar, inspirada no Velho Simeão e na Profetisa Ana, as Irmandades dos “Homens Velhos” e das “Mulheres Velhas”.

 

FILIPE

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ANGÚSTIA

por feldades, em 15.04.16

É madrugada, interrompo a conversa com meu pai pelo ‘feice’, porque amanhã preciso cumprir a obrigação de postar algo neste blog. Tenho um texto antigo, mas não vou publicá-lo agora. Estou angustiado e aquela crônica não reflete meu estado de espírito. Os maus ventos que sopram de Brasília, ou sopram para Brasília, ou que sopram Brasília, também varrem minha inspiração. Sufocado e paralisado, perco a vontade de escrever.  

 

Politicamente nulo e sem filiação partidária, cumpro sem entusiasmo meu dever cívico a cada dois anos, votando. No passado, votava num candidato que foi defenestrado da política por envolvimento no mensalão. Dias desses, soube que era inocente e que fora absolvido por unanimidade no STF. Atualmente, tenho votado em candidato que faz vigorosa oposição ao governo do PT. Acredito na democracia, e democracia se faz com contrários, com barulho; o silêncio é das tiranias e dos túmulos.

 

A história ensina que o afunilamento ideológico desemboca em autoritarismo: de esquerda ou de direita. E o Brasil caminha para o chamado ‘pensamento único’, só que de direita.

 

O desembarque de políticos aliados do barquinho de Dilma é nauseante. Ratos, camundongos e ratazanas escapam tresloucadamente do naufrágio. Enquanto a tripulação se salva, nós, a “arraia-miúda”, submergimos.

 

Já à beira do precipício, fomos surpreendidos por forças antagônicas como a maçonaria e evangélicos, que se irmanam pelo mesmo fim: o impeachment da presidente.

 

Triste sina de quem nos últimos anos lutou por um Brasil mais justo e decente. Mais triste, porém, é ouvir os aplausos dos ‘pequenos burgueses” mal remunerados, mas com fumos de barão.

 

Domingo é o dia mais amargo para quem teme pelo futuro deste país. A Câmara, composta de muitos réus e com aprovação popular de apenas 10%, julgará em “primeira instância” a presidente, que nem sequer foi indiciada pela Justiça.

 

O mês de abril evoca Tiradentes, mas também seu traidor: Joaquim Silvério dos Reis. Dilma não é Tiradentes, mas tem o seu “Silvério dos Reis” na figura de um vice traíra, ávido por assumir “essa coisa toda”, prometendo um governo de “salvação nacional”. Eles se salvarão, não a nação.

 

Sobre o governo salvacionista de Michel Temer e Eduardo Cunha, os evangélicos e a maçonaria hão de lhe dar respaldo, porque em breve, todo o reino será deles e eles reinarão sobre todos nós.

 

Ah, que vontade de procurar uma “Pasargada”..., e nem precisa ser a de Manuel Bandeira. Eu me contentaria com o Uruguai, nossa antiga província. “Vou me embora para a Província Cisplatina!”, porque...

 

“Cada louco com sua alegria, porque somente os loucos são felizes!”

 

FILIPE

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THEREZINHA

por feldades, em 01.04.16

“Tudo bem, bem, bem?”, ela. “Tudo bom, bom, bom!”, eu. Assim, dava início nossa prosa de poucos minutos nas manhãs das segundas-feiras. Estava ela saindo da igreja, após a missa das sete, e eu a acompanhava até o carro, um bonito fusquinha que Therezinha dirigia pela cidade a fazer suas compras ou visitas.

 

Naquelas missas, eu observava a amiga. Sentava-se sempre no mesmo banco, sob o altar de Santa Terezinha, próximo à porta lateral direita. Como a igreja estava sempre quase vazia naquelas manhãs, não lhe era difícil manter a rotina. Após a bênção final, pegava sua bengala e começava a caminhar, ora cumprimentando uma pessoa ora sendo cumprimentada por outra. Eu ficava mais afastado, junto à porta principal, esperando por ela. Era nesse momento que acontecia aquela singular saudação.

 

Therezinha tinha deformação nos pés – reumatismo, talvez – o que lhe dificultava a andar e por isso a bengala. Mas não reclamava de dores, embora, só de ver, eu já sentisse uma fisgada no calcanhar. Estava sempre sorrindo, um sorriso franco e acolhedor. 

 

Fora professora desde a juventude, lá nos idos da década de cinquenta, até os anos oitenta, quando se aposentou. Naquele tempo, após a jornada diária, costumava receber alunos com mais dificuldades em casa, improvisando a garagem como sala de aula para reforço. Muitos passaram por lá, segundo contava.

 

Morava num antigo casarão, em uma chácara no centro da cidade. Ali, Therezinha nasceu, cresceu e se tornou octogenária, tendo por companhia até o começo dos anos setenta Ernestina, sua mãe. Partindo a mãe, a filha passaria outras quatro décadas sozinha na casa. Estive lá mais de uma vez e me encantei com o que vi. Nos fundos da casa, um pequeno bosque de árvores frutíferas ladeira acima, dando o que fazer à passarada em barulhentos piqueniques – uma coisa louca de se ver e ouvir. Eu disse, quando me deparei com aquele santuário: “Se eu morasse aqui, faria poesia e seria poeta de verdade”, ela sorriu.

 

Mas um dia Therezinha mudou-se de lá e foi para o asilo, ante a promessa de uma acomodação confortável. Pegou, então, o que precisava, pôs no velho fusca e ela mesma foi dirigindo para o seu novo lar. Chegando, pôs o carro numa ponta de estacionamento e se instalou no ‘apê’. Pouco tempo depois, tomaram-lhe a chave do fusca, dizendo: “Aqui você não vai poder dirigir”, e não pôde mesmo. A consequência disso foi seu gradual definhamento, acentuando a dificuldade para caminhar. E em troca do fusca confiscado, deram-lhe uma cadeira de rodas.

 

Acompanhei a Therezinha em seu ocaso. Todas as tardes, enquanto pôde, visitava as colegas na enfermaria e dizia ficar triste ao ver tanto sofrimento. Mas fazia questão de passar por lá, parando em cada cadeira, em cada leito, fazendo uma oração com cada um. Mais tarde, era ela quem esperava que alguém a visitasse.

 

No último 28 de fevereiro, após dois ou três anos asilada, Maria Therezinha Ribeiro partiu para a Eternidade. Em oitenta e seis anos de vida, uma linda história fica para ser contada e um belo exemplo a ser seguido.

 

FILIPE

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