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NOITES JUNINAS

por feldades, em 24.06.16

Ainda pequeno, tinha eu uns sete anos, papai nos levou a uma festinha – que eu não sabia ser junina. O festeiro, seu Antônio Inácio, morava numa velha casinha de pau-a-pique, que ficava próxima ao local do ranchinho onde costumo fazer a sesta nas tardes de minhas férias.

 

Chegamos à noitinha. No terreiro, um alto mastro de madeira exibia uma estampa de Santo Antônio, o patrono do folguedo. Ao lado, toras cruzadas crepitavam ao sabor das chamas, aquecendo aquela noite de junho. Não havia lua; havendo, fora ela ofuscada pela fogueira e por nós ignorada. Havia chaleiras de café e muita batata doce, que púnhamos nas cinzas que iam se formando. Broa de fubá também havia, mas preferi as batatas, que eu mesmo cobria com cinzas e depois as tirava fumegantes. Havia também uma sanfona ‘8 baixos’, que seu Antônio tocava.

 

Lá pelas tantas, meu pai consultou seu velho relógio de bolso e disse: “Vamos embora, que já é meia-noite!”  Um deslumbramento: nunca eu ficara acordado até meia-noite! Seu Antônio perguntou: “Quem vai ‘pular’ a fogueira?” E começou a preparar a passarela, quebrando as brasas, formando uma trilha pedregosa e incandescente.

 

Alguém se animou e passou. Depois outro e mais outro. Meu irmão mais velho, passou num galope e eu o segui. Impressionou-me o fato de sentir as brasas sob os pés descalços e não me queimar – uma proteção do santo milagreiro então festejado?... Mas a minha fé não era maior do que o medo das brasas. Por isso, fiz a travessia repetidas vezes, mas em poucas e velozes passadas. Meu pai também se aventurou. Com o caçula no colo – o bebê, que anos mais tarde seria missionário sacramentino –, caminhou lentamente por sobre o brasido, para espanto e admiração de todos. Com certeza, a sua fé, muito maior do que a minha, o salvou das bolhas.

 

Anos mais tarde, na escola onde fiz o primário, outra festinha aconteceu, desta vez de São João. Era sofisticada: tinha iluminação elétrica, bandeirolas, Quadrilha e Casamento do Jeca. Só que, para entrar, teria de pagar ingresso – de valor simbólico, é claro –, mas o que é ‘valor simbólico’ para quem não tem dinheiro? Eu não podia pagar e, na companhia do irmão mais novo e de um amigo, empreendemos uma burla. Havia um roçado nos fundos da escola, que no inverno virava um matagal de espinhos e carrapichos. Chafurdamos naquele mato até darmos na cerca de bambu, que rodeava a escola. A custo, abrimos um buraco e entramos um a um. Com a roupa amarfanhada, tendo que nos livrar dos espinhos e carrapichos, chegamos a tempo de participar. O sanfoneiro, seu Gentil, que eu conhecia da padaria, animava a Quadrilha. Enfim, chegou o momento mais esperado: o Casamento do Jeca.  No ‘altar’, o Zé Amaury era o ‘seu vigário’; os ‘nubentes’: Zé Lourenço e Zita; havia também um ‘delegado’ para evitar que o noivo fugisse. Estavam adornados de roscas no pescoço e pães doces na cintura, mastigando sem parar. E o ‘padre’ deu início à cerimônia com: “Pelo sinal da santa lambança, por enquanto não entrou nada em minha pança!” – arrancando a primeira de outras tantas gargalhadas.

 

Outras festas aconteceram: modernas, teatrais. Essas duas, porém, ficaram cravadas na minha memória como as mais notáveis.

 

Hoje, já não há mais folguedos nem fogueiras. As noites juninas não são mais fagueiras e suas festas não são mais joaninas.

 

FILIPE

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O HOMEM DO BIRIL

por feldades, em 18.06.16

Publicado no blogdofilipemoura.com em 16/09/2011

 

Chegara à tardinha. Tocou a campainha e, ao ser atendido, pôs-se a falar de seus problemas, que não eram poucos. E assim, de forma bastante ensaiada, começou: “Escuta aqui, seu moço. Você não quer morrer, não é?” Sobrevivendo a esse tipo de pergunta, que pode matar qualquer um de susto, respondi que não. E ele continuou: “Eu não vou mentir. Deus me livre de mentiras!”  Disse e ergueu os olhos para mim, para ter certeza de que eu lhe dava atenção e o merecido crédito. Então, prosseguiu: “Tomo remédios e o posto me dá oito tipos, mas tem um que ele não dá. E se eu não tomar esse remédio, moço, eu vou morrer! E eu não quero morrer... Você tá me compreendendo?” Essa última frase foi como uma pinça, capaz de remover qualquer pedrisco que insistisse em obstruir a boa ação, que se seguiria a tão pungente apelo.

 

Confiante, fitava-me e estava certo de que o samaritano que encontrara poderia ser o bom moço de quem tanto precisava. De minha parte, naqueles microssegundos que se passaram lentamente, pude observar o personagem que ali se encontrava: Um homem já afundado nos anos, porém “sacudido”, como diria meu pai. Seus cabelos, brancos, se escondiam sob um gorro de lã. Usava uma espécie de alpargatas, mas estava de meias. Sua roupa era um agasalho de malha. Seu rosto, liso e redondo, não denunciava qualquer enfermidade, embora tentasse convencer-me de que estaria moribundo, despencando-se à cova.

 

Quis ajudá-lo, perguntei onde morava. Gaguejando um pouco, saiu-se com esta: “Ih, seu moço! Sou da roça, moro na Pamonha”.  Não conhecendo nenhuma “pamonha” diferente daquela que se faz com milho em palha, quis mais detalhes. Desconversou, voltando ao ponto de partida de sua prosa: “Não quero morrer. Ajude-me com uns trocados, pelo amor de Deus!” Quis ver a receita. Não a tinha. O nome do remédio? “Biril. Custa quatrocentos e cinco reais. O doutor me pergunta: ‘Como vai fazer pra conseguir esse dinheiro?...’ Eu falo que vou pedir esmola. E eu tô pedindo”.

 

O homem se foi sem as moedas que tanto queria, levando consigo apenas a promessa de que seria encaminhado ao Serviço Social. No bucho, um copo d’água e outro de leite, “bem gelados!” – conforme ordenara. E o remédio? Consultada a internet, verifica-se a sua inexistência.

 

Com certeza, o astuto senhor estará “birilando” boas almas por aí. Não mais por cá. 

 

FILIPE 

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A GAMELEIRA

por feldades, em 10.06.16

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Eu a descobri garbosa e poucos sabem de sua existência ou por ela não se importam. Cresceu silenciosa, como crescem as árvores, e sua copa já alcança as alturas – uma enormidade. Lembra uma catedral gótica, quando observada a partir de seu tronco repleto de nervuras. Antes, disputava fiapos de sol com a vizinhança galhuda e folhosa; hoje, reina soberba por sobre a ramagem. Balançando ao vento, seus galhos, feito longos e encurvados braços, parecem desdenhar de mim e dos arbustos – uma insignificância rasteira cá embaixo. Brotando de sua base, sinuosas e robustas raízes se estendem pelo solo como serpentes em fuga.

 

Quando criança, tinha medo das gameleiras, pois diziam serem elas mal-assombradas. Havia uma dessas, um pouco distante de nossa casa, enorme, gigantesca! Crescera em meio a um rochedo com reentrâncias cavernosas, onde urubus nidificam. Morreu prematuramente, ainda uma ‘jovem’ centenária, e dela restou o caule desprovido de galhos, semelhante a um gigantesco braço nu erguido em permanente protesto.  Seu tronco repleto de catanas, como convém às gameleiras, é de difícil acesso.  Medrava ao passar perto daquela árvore, onde havia um caminho estreito e margeado por uma espessa vegetação. Os antigos – sempre eles! – juravam haver ‘coisas do outro mundo’ naquelas bandas. Passando por lá à noite, só não corria de olhos fechados pela óbvia razão de que eu erraria o caminho e adentraria o matagal.

 

A fama da defunta gameleira, como a de outras tantas, não é apenas de assombração.  Muita gente se beneficiou delas, pois as ‘velhas benzedeiras’ de antanho tinham o costume de ‘pregar tosse coqueluche’ no seu tronco. Diziam-se que, à meia-noite e em determinadas ocasiões, as curandeiras acorriam àquele tronco munidas de martelo, prego e muita fé. A cada batida, uma prece para a moléstia ficar cravada para sempre no lenho gameleiro.

 

Mas os camponeses não se serviam apenas das propriedades miraculosas da gameleira a fim de pôr fim a suas enfermidades. O termo ’gameleira’ deriva de ‘gamela’, um recipiente de madeira que tinha múltiplas funções na casa dos caboclos. Havia gamelas para guardar ou lavar alimentos e gamelas usadas como penicos. Meus ancestrais usaram desses utensílios, que eram feitos a partir das tais catanas da gameleira. O gameleiro – artesão fazedor de gamelas – cortava com machado aquela protuberância, preservando a árvore, e a esculpia de forma a torná-la uma espécie de tigela. Na minha casa havia uma dessas gamelas que mamãe usava para alguma coisa na cozinha.

 

Naquelas redondezas, muitas gameleiras foram dizimadas por sitiantes ambiciosos ou temerosos de ‘almas-penadas’. Não se usam mais gamelas e o que dá lucro é capim, que engorda o gado e o bolso. Por isso, limpam os pastos de árvore ‘agourenta’ para produção de forragem.

 

Protegida de superstições e das mundanas ambições, cresce formosa a minha rica gameleira. Sabedora da iniquidade humana, resolveu fixar-se num despenhadeiro inóspito, em terreno de pouca valia, onde apenas tatus e gambás se amoitam. Mas não somente tatus e gambás, porque também eu, ainda que em pensamento, escondo-me naquelas brenhas para me curar do fastio quando a vida me enfada.

 

FILIPE

 

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