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MISTÉRIOS

por feldades, em 30.03.18

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A imagem que ilustra esta crônica pareceu-me intrigante. Antes que o leitor escorregue distraidamente pela página, sugiro que volte os olhos para a foto e tente decifrá-la. O que está ali?... Após examiná-la, continue a leitura. Ao final deste “tobogã”, outra imagem o aguarda para fechamento do texto.

 

Confesso ao ‘ausente leitor’ minha dificuldade para acreditar em milagres, que acontecem, mas sem estardalhaços. A tecnologia, por exemplo, é um milagre do engenho humano – apesar da horrorosa ‘tomada de três pinos’! A tríade (vida, morte e ressurreição) é o mais sublime dos milagres – obra-prima do Criador. Mas há outros ‘sinais’ que nos inquietam cotidianamente.

 

A história é a seguinte. Uma amiga, freira por mais de trinta anos e a quem chamo carinhosamente de ‘Irmãzinha’, deixou o convento. Houve desentendimentos com a “chefia”, dos quais não tenho ciência, mas dou “carradas de razão” à amiga, que não se ocupa de outra coisa senão rezar e fazer o bem. Eis uma autêntica ‘irmã de caridade’, conforme nomeavam-se as freiras nos tempos antigos.

 

Essa amiga, ao sair do mosteiro e sob o risco de virar uma sem-teto, foi acolhida pela Diocese. Ajeitaram para ela uma casinha ao lado de uma capela abandonada, da qual tornou-se zeladora. Mas, quando da entronização do Santíssimo e não havendo aquela ‘vigilante’ lâmpada conforme manda a tradição, a religiosa acendeu uma ‘vela de sete dias’, que se tornou a ‘sentinela’ do Altíssimo por um tempo. A vela derreteu, transbordou e formou no mármore a imagem que encima este texto. Por ceticismo, insensibilidade, ignorância ou até mesmo sabedoria, alguém poderá descartar qualquer interpretação que transcenda a materialidade daquela cera. Com ou sem ‘delírios místicos’, o leitor tire suas conclusões ao final da leitura.

 

Comigo já aconteceu algo bastante curioso, que escrevi aqui há tempos. Quando criança, um boi invadia o nosso roçado para comer as espigas de milho. Eu o expulsava, mas ele voltava. Então peguei a espingarda, caprichei no carregamento e mirei o bicho. Era Sexta-feira Santa e, por sorte nossa, mais minha do que do boi, a espingarda quebrou e o tiro não saiu. Mas há outra história ainda mais interessante do que essa.

 

Era uma também uma Sexta-feira Santa – de jejum e abstinência. Embora meu pai sempre cumprisse e nos recomendasse a observância das normas doutrinais, sempre vacilei nesses preceitos. Mas naquele dia eu estava jejuando. Na hora do almoço, foi-me oferecida uma bacalhoada, que recusei sem muita convicção. Houve insistência. Resisti. “Não é pecado! Coma, vai...”  “Hoje não!”, repliquei quase cedendo. De repente, misteriosamente, o prato espatifou-se no chão, ficando na mão apenas a parte em que os dedos seguravam. Uma massa de cacos, molho, batatas e bacalhau confundiu-me mente e espírito, e eu nunca me esquecerei daquilo.

 

Mas os grandes sinais são sutis, e sua beleza não se vê com os olhos carnais. Para enxergá-los, é preciso ter a fé dos simples, a fé da Irmãzinha.

 

Abaixo está a foto do sacrário onde repousam as Espécies Sagradas. A vigilante vela se desfez e esculpiu a imagem que, sem esforço de imaginação, remete à asa de um dos guardiães que adornam o tabernáculo.

 

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A IRMÃ MAIS VELHA

por feldades, em 16.03.18

Escrever sobre a “Irmã mais velha” exige tempo, zelo, memória e o talento de um escritor que não sou. Ouso, contudo, pôr nesta página pequenos retalhos da vida dessa singular figura, que não teve uma infância ajardinada e multicolorida como toda criança deveria ter.

 

Muito cedo, ela teve de assumir compromissos domésticos – ao suceder à mãe impossibilitada pela enfermidade –, começando a fazer nossa comida, lavar as roupas, cuidar da casa e dos irmãozinhos. Por ser ainda tão pequenina, não conseguia alcançar as panelas sobre o fogão, também pequeno. Então, meu pai teve de improvisar, pondo um caixote de madeira para que nele subisse e pudesse manusear conchas e escumadeiras.

 

A nova cozinheira trouxe-nos conforto, oferecendo-nos refeições nas horas devidas, mas a menina custou a se organizar, atrapalhada que ficava com o serviço se avolumando cada vez mais. De manhã, quando papai se levantava para fazer o café, ainda havia vasilhas no fogão para serem lavadas. O pai ficava confuso, pois era “louça” para todo lado. Eu disse louça, mas eram panelas de ferro e pratos esmaltados. Naquele tempo, porcelana se achava apenas nas cristaleiras dos vizinhos abastados.

 

Mas papai foi orientando a filha, ensinando-a aos poucos. Na cozinha, havia uma mesa onde ficavam pratos, panelas e outros utensílios prontos para serem usados. Então papai sugeriu: “Filha, vou lhe passar um programa. Assim que uma panela for usada e você não puder lavá-la naquele momento, ponha-a debaixo da mesa, para que não atrapalhe o serviço. Quando puder, lave-a e a coloque junto às demais. Este deve ser seu ‘programa’ a partir de hoje”. O irmão mais velho, rapazinho muito trabalhador, mas sapeca à beça, provocava a irmã: “Olha o ‘programa’ debaixo da mesa!”, dizia às gargalhadas, apontado o dedo para as panelas sujas, deixando a coitadinha por demais furiosa.

 

Embora frágil na aparência e de saúde delicada, essa irmã nos surpreendeu. Em pouco tempo, aprendeu o ofício, tornando-se uma cozinheira de mão-cheia, mas não só. Foi arrumadeira, costureira, educadora, e uma segunda mãe para todos os irmãos, especialmente para os mais novos. Lembro-me de que, ao anoitecer, ela punha água morna numa bacia e banhava cada pequerrucho, enfileirando-os sentadinhos sobre um banco de madeira. Assim, após enxugar cada um, ela os vestia e os punha na cama para dormir.

 

É, a nossa vida naquele tempo não foi fácil. Certa vez, quando eu tinha oito anos, papai me pediu para que, na volta da escola, trouxesse dois pãezinhos para minha irmã, que estava adoentada. Um parêntese: pão lá em casa era artigo de luxo, que raramente podíamos comprar. Então, após as aulas, fui à padaria comprar os dois pãezinhos. Era bem de tardinha, quase anoitecendo e eu estava com uma fome danada. O cheiro do pão fresco aguçava ainda mais meu apetite e não resisti. Comecei a roer o pãozinho da mana ao percorrer a longa estrada até a casa. Fui pegando de mansinho e furtivamente um pedacinho do miolo, depois mais um pedacinho e mais um pedacinho. Ao chegar em casa, sem que eu percebesse, os pães tornaram-se dois canudos, sobrando deles apenas a casca. A irmã, naturalmente, não gostou e foi reclamar com o pai. Fiquei preocupado com a bronca, que certamente receberia. Mas não. O velho calou-se numa sofrida impotência por não conseguir comprar um simples pão para cada um dos filhos.

 

Essa irmã, guardiã dos pais e acervo da memória da família, reverencio genuflexo.

 

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COISAS DA JUVENTUDE

por feldades, em 02.03.18

Ele não estava na sala quando cheguei, onde sempre o encontro nas tardes de sexta-feira. O neto me disse com voz ‘aguada’: “O vô tá no quarto, professor! Voô! Vooooô!”. Chamava o avô, caminhando a passos bambos e seguido por mim até ele.

 

No quarto abafado, sobre uma cama-box sem lençol, estava o velho. Sem camisa, o suor escorria sobre seu dorso, que brilhava. O quarto pequeno, sem móveis, parecia amplo, enorme até. Na parede, uma foto de seu casamento, e na soleira do vitrô, um anjo. Não havia guarda-roupa porque as roupas, sendo-lhe escassas, cabem todas na gaveta da cama. Pedi um pano para lhe enxugar o rosto, mas o rapaz não sabia onde tinha pano. “Mãe, onde tem pano?”, gritou. “Pegue um papel mesmo”, pedi. “Aqui, o papel e o pano... Toma! Se precisar de mais coisa é só falar!” Saiu. Segundos depois, voltou: “Se precisar, é só chamar... Taaá, professor?”

 

Deitado no colchão, o homem estava inquieto, abrindo e fechando os olhos, num sono perturbado. Tinha diarreia e sua bermuda estava molhada. “Não é xixi, professor... É suor mesmo”, disse o moço numa de suas entradas súbitas e frequentes. E com a voz cada vez mais rala, emendou: “Não é negligência, professor. Eu cuido bem dele, taaaaá?!”, e saiu de cambaleio.

 

Havia moscas, muitas, que não me davam sossego, mas o velho parecia não se importar com elas. Penetravam-lhe as narinas, a boca, sugando-lhe a saliva, o suor, o ânimo. Vez ou outra, num espasmo trêmulo, reagia. Mas a mão, lenta demais, não as ameaçava.

 

O ar quente, espesso, tornava-se mais denso e irrespirável com um forte e estranho cheiro. Lá fora, uns jovens folgavam, bebendo, fumando, jogando cartas e “queimando um matinho”. Entre eles, uma moça e o filho de quatro anos, que brincava com uma pequena matilha de cinco cães.

 

Defronte à rua, sentada na soleira da porta da sala, a dona da casa era uma mulher triste. Obesa e doente, tem que cuidar do pai, do filho, dos cães, de tudo.

 

O velho, agora desperto, chama o neto com vigor. Pensei que fosse repreender o ‘borracho’, mas não. “O que quer, vô?...” “Compra um guaraná!” “Cadê o dinheiro?” “Tá aí, na carteira.” “Mãe, mãaaae, onde tá o dinheiro do vooô?” “Eu sei lá, menino!” “Professor, não liga não. O vô é só meu... Só eu cuido dele e muito bem! Não é negligência, não. Ele tá molhado, mas não é de xixi. Ele tá com diarreia, mas não é culpa minha, taaá?” Saiu do quarto e voltou. “Vou fechar a porta porque os cães vão entrar e atrapalhar, tá?  Dá liceeeença!” Foi-se e voltou para a mesa de jogo. “Cês tão me roubando, né?! Eu não permito, não gosto de ser roubado. Nem no jogo, nem em nada. Não goooosto!” “Para de gritar!”, interveio a mãe. “Mãe, eu não tô gritando, sou fino. Não é, amigos?... Sou finoooo!” “Não vejo ninguém fino aí”, retrucou a matriarca.

 

Suado, terminei de fazer a barba do amigo e sai. Passei pela mulher, que continuava na porta da casa, tomando a fresca. “Desculpa, professor. Meu menino tomou uma cerveja e meio alterado” “Coisa da juventude”, eu disse já saindo e passando a mão na testa para afastar o suor. Nisto, uma moto chega e para. Um homem tatuado, “tipo mano”, passa sem dizer palavra e afunda casa adentro. A mulher apenas observa. “Coisa de jovens”, ela deve ter pensado.

 

Saí e lá deixei aquela sofrida figura. Continuou sentada, olhando a rua, sobrepesada com o lento e amargo arrastar das horas.

 

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