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A INFÂNCIA REVISITADA

por feldades, em 18.01.19

É sempre uma celebração o encontro dos Moura Lima – família a que pertenço por divina graça. A alegria é indizível. Cada um puxa uma história antiga da infância – e tem que ser antiga mesmo, porque estamos todos já bastante envelhecidos. Os mais novos contam das suas, que os mais velhos não presenciaram. Obviamente, os fatos narrados pelos irmãos mais antigos não foram vivenciados pelos novos. E assim, uma sucessão de histórias e gargalhadas nos aproxima e congrega, mitigando as sutis, porém inevitáveis diferenças que temos. Um dos causos mais interessantes lembrados pela irmã mais velha foi sobre ‘amendoim’, que há tempos eu queria registrar.

 

Papai, em tempos muito antigos e de que tenho pouquíssima lembrança, tinha um cavalo de nome Figurão. Acho que esse foi seu único animal de montaria. Mas, por razões que desconheço, papai teve que vender o Figurão, ficando para trás o arreio. Esse arreio ficava pendurado num gancho de madeira amarrado ao caibro do telhado no quarto da sala. Certa vez, papai vendeu também o arreio, deixando inútil aquela peça de madeira.

 

Agricultor, papai plantava arroz, feijão, milho, abóbora e amendoim. Todas as colheitas eram jubilosas, mas a do amendoim era particularmente festiva. Este era arrancado do solo, despencado e posto em balaios. Após apurado, o amendoim era espalhado no terreiro para secar. Crianças, participávamos mais comendo amendoim do que trabalhando. Mas papai não se importava com isso, embora nos advertisse sobre a inevitável dor de barriga, que vinha tão certa como um castigo.

 

Como sempre fazia com o que colhia, papai reservava uma parte para a despesa e vendia o restante para um compadre ou para o vendeiro da vila. Com o amendoim não foi diferente. Vendeu uma parte e deixou a outra para nós, que guardou num saco. Mas quando papai percebeu que o amendoim do saco estava diminuindo rapidamente, disse: “Chega! Agora essa parte aqui é para plantar.” Pegou o saco, amarrou sua boca com uma corda e o pendurou no gancho onde ficava o arreio do velho Figurão. Como o saco ficava alto e nós não conseguíamos alcançar, tive a luminosa ideia de pegar uma varinha e cutucá-lo. Fui cutucando, cutucando, até que, de um buraquinho, veio a recompensa pelo meu esforço. A partir de então, era só cutucar o saco que, alheio às ordens de meu pai, nos fornecia generosas porções. Mas de tanto fuçar naquele buraquinho, parece que o saco ‘perdeu a paciência’ conosco. Certa vez, fui lá e ele começou a despejar ininterruptamente as vagens. Fiquei aflito, tentando devolver, não sei como, o ‘butim’ ao saco, que se recusava a aceitar de volta. Por sorte, as vagens se aquietaram, pondo fim à minha angústia.  Finalmente, papai costurou o saco, que não mais foi incomodado, nem por mim nem por meus irmãos.

 

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PALAVRÕES

por feldades, em 04.01.19

De vez em quando o vejo na rua. Já me disse o nome – completo, como manda a boa educação à antiga –, mas esqueci e tenho vergonha de perguntar novamente. Anteontem mesmo o vi por um breve instante. Da primeira vez que nos encontramos, eu caminhava distraidamente quando ia passando por ele, mas algo me chamou atenção e puxei assunto.

 

Homem de muitos dias, ele é alto, magro, usa chapéu de palha e chinelas, com bastante dificuldade para andar. Perguntei-lhe os anos: “Setenta e quatro!”, respondeu com um sorriso, expressando o sabor de quem sabe envelhecer. Pensando que tivesse mais, fiquei espantado com sua “juventude”.

 

Mas o que há de peculiar naquele senhor de passadas trôpegas são o otimismo e as muitas frases recheadas de ‘palavrões’. Portanto, peço às retinas mais puras e sensíveis, que abandonem esta leitura ou pulem para o último parágrafo, porque algumas expressões indecorosas insertas aqui poderão lhes afetar o pudor e o humor.

 

Anteontem, mesmo não estando no melhor momento, o amigo não “fez feio”. Provoquei-o com: “Que calor, hein?” Ele rebateu: “Ah, tá quente mesmo, mas tudo que Deus manda é bom, né? ‘Puta vida!...’ Tudo que Deus manda é ótimo! Esse vento então..., esse ar fresco. A água, a cerveja... Quer coisa melhor do que cerveja?!” Entre gargalhadas nos despedimos: ele para os lados de cima da rua e eu para casa.

 

Mas um bom momento dele eu peguei há uns tempos, talvez três semanas atrás. Eu vinha da missa em ‘estado de graça’, conforme se diz de quem experimentou algum enlevo espiritual. Havia chovido uma chuvinha mansa, fina e a terra estava molhada. Nisto, avisto na ponta da rua o amigo, que vinha ao meu encontro. Chegando, cumprimentei-o, como ainda costumam fazer os bem-educados. “Como vai o senhor?” Ele tirou o cigarro da boca, deu uma boa cuspida e respondeu: “Estou ótimo!” Continuei: “Depois de uma bela chuva dessas, até os passarinhos estão sorridentes, não?” Ele: ”Puta que pariu! Gosto de tudo o que Deus manda: pode ser chuva, sol, calor, frio... Eu gosto de tudo mesmo. Porque, ‘puta que pariu’, como Deus é bom!”.

 

Adolescente, tive um vizinho que gostava muito de passarinho. Bom, ele dizia que gostava, mas mantinha os coitadinhos sempre na gaiola... Isso é gostar de passarinho?! Mas o que interessa é que, dentre os ‘penados’, havia um canário-da-terra muito bom. E o vizinho sempre dizia: “Esse canarim é ‘fedaputa’ de bom pra cantá!”

 

Na minha casa, tivemos uma educação rígida e não nos era permitida a linguagem chula. De meus pais nunca se ouviu qualquer impropério, embora este escrevinhador tenha dado algumas escorregadas – como um “zé da puta” contra o irmão mais velho, embora até hoje eu não saiba o significado disso.

 

Contudo, o decoro linguístico é relativamente novo na civilização. Até fins da Idade Média, os costumes eram lassos e a linguagem não tinha regras de etiqueta. Expressões ou palavras que hoje consideramos ‘pesadas’ eram livremente empregadas em refinada literatura daquele tempo. Da mesma forma, a despeito de uma linguagem hipoteticamente “chula”, aquele meu amigo faz uma peculiar prece, expressando profunda gratidão a Deus.

 

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