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NA SERRA DA MUTUCA

por feldades, em 20.07.19

Numa tarde ensolarada deste inverno, acompanhado de meu irmão caçula e de seu filho, fui ao lugar onde ficava a casa de Antônio Vermieiro – um caboclo que conheci já velho e escarpado pela dura lida do campo. Naquele recanto, sem luz elétrica nem água encanada, seu Antônio viveu por anos com a esposa dona Fiinha – mulher “sem leitura”, mas uma das criaturas mais argutas que já vi.

 

Subindo sempre, percorrendo pequeno trecho de bosque permeado por furnas de pedra, chegamos às ruínas da antiga edificação.  A casa, há tempos demolida, deixou um teimoso alicerce de pedra bruta, que insiste em delimitar o contorno de cada cômodo: a sala, onde seu Antônio ouvia um velho rádio de pilha, os quartos, uma despensa e a cozinha, que ficava um pouco abaixo do corpo da casa.  Um montinho de terra é o que sobrou do fogão a lenha onde dona Fiinha assava saborosas broas de fubá. Lembro-me de que, em certa manhã, eu tomava chimarrão e ela me ofereceu café com um pedaço daquela broa. Como não bebo café, ela me deu água com açúcar, que aceitei. A partir de então, em todas as minhas madrugadas, quando tomo água doce antes do chimarrão, eu me recordo da simpática dona Fiinha.

 

Percorrendo as cercanias da antiga casa, encontramos vestígios da engenhoca que seu Antônio usava para fazer garapa de cana para seu café (o açúcar era reservado às visitas). Encontramos também o que sobrou d’uma chaleira, uma foice e algumas enxadas. Eu quis trazer comigo uma enxadinha, não apenas como recordação, mas para usá-la mesmo. Esse cacumbu, que para mim é uma relíquia, foi abençoado pelas mãos daquele montanhês, um dos últimos remanescentes dessa estirpe de bravos camponeses. Do pomar que ele cultivou, ainda restam frondosas mangueiras, um pé de cacau, limoeiros, bananeiras e um abacateiro.  

 

Em êxtase, meu irmão filmava, fotografava e explicava cada detalhe: “Aqui havia um chiqueiro, ali um galinheiro, lá o paiol, e estes paus eram os troncos do engenho.” Mais:  “Eu tinha um cavalinho, e o padrinho amarrou uma corda nele para tocar a engenhoca. Eu ficava montado no cavalo dando voltas enquanto ele ia pondo cana na moenda para fazer garapa”. Depois: “Cara, eu sou um Peter Pan... Sou um Peter Pan!”, citava o famoso personagem que não aceitava abandonar a infância. E a infância desse irmãozinho foi realmente fantástica junto àqueles seus padrinhos. E assim, ciscando aqui e ali, o caçula ia removendo espessas camadas de três décadas de história, revendo um passado sempre presente em sua vida. Enquanto isso, tal qual o desbravador Indiana Jones, meu sobrinho abria caminho com um machado improvisado.  

 

Numa de minhas ultimas visitas àquela família, encontrei dona Fiinha bastante doente. Seu Antônio, preocupado com ela porque não se alimentava, desceu até a vendinha e comprou alguns quibes para a esposa. “Eu busquei umas quibas, mas nem isso ela quis”, disse-me desacorçoado. Acamada e com doença grave, aquela mulher nunca reclamou de dores e partiu enquanto rezava. Eu soube com atraso da morte dela, e subi para visitar o amigo, que estava desolado. Lembro-me de sua expressão: reclinado e em silêncio, aquele homem olhava fixamente o chão.

 

Pouco tempo depois, seu Antônio seguiu sua companheira. Estava sentado, conversando com um parente, quando um estranho silêncio interrompeu o assunto. O companheiro pensou que seu Antônio cochilasse, mas não. Ele partiu tão serenamente como viveu.

 

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NA SALA DOS PROFESSORES

por feldades, em 05.07.19

Eu estava na sala dos professores e cuidava da grossa burocracia: fechamento de notas, contagem de faltas, preenchimento de fichas etc. Alguns professores corrigiam provas, outros mexiam no celular e havia quem não fazia nem uma coisa nem outra, apenas matracava falando da vida alheia – como todos gostamos de fazer, inclusive as almas mais santas.

 

Esse é sempre um momento mágico que vivencio a cada fim de semestre. A sensação do dever cumprido se mescla a certa frustração de não se alcançar determinados objetivos. Mas, a despeito de pequenos dissabores, o recesso que se avizinha refresca corpo e mente fatigados de tantas lousas.

 

Uma professora, com mais maquiagem do que beleza – melhor do que eu, sem maquiagem nem beleza – reclama do marido, que ronca a noite toda e não a deixa dormir. Por isso as olheiras. Um professor gorducho chega esbaforido, reclamando de que no pátio há três ou quatro alunos. “O que esse povo vem fazer aqui hoje, meu Deus?! Acabaram as aulas, e com esse frio...” “Vieram fazer prova de recuperação!”, responde outro. Uma professora liga o computador e põe uma música suave quando alguém pergunta: “É Bach?” “Não! É Rossini!”, corrige. Para mim poderia ser Bach, Rossini ou Puccini porque, embora eu aprecie música clássica, não consigo identificar sequer o gênero. “La Traviata, de Verdi”, exclama tonitruante um convicto professor. “Que horror! Expliquei todo dia as formas verbais particípio, gerúndio e infinitivo, mas metade da classe ainda erra... Uma aluna chegou a confundir ‘gerúndio’ com ‘girino’! Até quando vou ter que bater nisso?!”, desabafa a professora com uma pilha de provas ainda por corrigir. “Gerúndio... Acho que isso é de Português. Estou enganada?...”, pergunta alguém – que ficou sem resposta.

  

No outro dia meu serviço já está em ordem e aguardo o fim do expediente. Pego um livro e começo a ler, mas não dá para ser na sala dos professores. Aquele burburinho de entra e sai não permite a mínima concentração. Vou para uma sala vazia e singro solitariamente aquelas páginas – doce oceano. De repente, chega alguém e sai rapidamente sem dizer palavra. Não quer me incomodar e eu fico agradecido.

 

Mais tarde, no fim da jornada, encontro uma colega que fez a caridade de ajudar um novato atrapalhado no preenchimento dos diários de classe.  “E aí, refez os diários dele?”, perguntei. “Sim. Daqui para frente é com ele. Eu fiz o que pude. Ensinei e pedi a ele que comprasse um caderno de caligrafia. A letra dele, coitado, é sofrível. Ele disse que comprou o caderno e já está praticando, e que sua letra vai ficar bacaninha. Vamos ver.” Essa professora estava feliz por ter praticado uma boa ação. Mas quando já nos despedíamos, e desejando ‘boas férias’, ela confidenciou: “Olha, eu quase morri de vergonha. Só eu, porque o professor ainda deu risada da situação.” “O que aconteceu de tão trágico?”, eu quis saber. Ela: “Não é que, enquanto eu dava as últimas orientações àquele professor, a sala cheia, e ele me solta um baita peido?!”

 

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