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BANANA-OURO

por feldades, em 23.05.20

banana-ouro.jpg

Tenho uma estreita ligação com as bananas, que vem desde minha infância. Penso que se alguém não consegue identificar a banana que está comendo: se é prata, ouro, maçã ou nanica – para ficar nas mais comuns – deve ser uma pessoa muito triste. Agora, um campesino não pode viver impunemente se ele nunca plantar ao menos uma bananeira. Eu já plantei alguns pés de banana, mas ultimamente estou entusiasmado é com a banana-ouro.

 

Meu pai também tem afinidade com a banana-ouro, e ele conta uma pequena história sobre ela. Ele diz que em certa ocasião, com a idade de uns dez anos, foi com seu pai procurar uma vaca lá pelos lados da casa de uma tia nossa, a Áurea Moura. Naquelas redondezas, eles viram um cacho dessa banana no ponto de ser colhido. Como a tia Áurea não morava mais lá, ela se mudara com a família para a cidade grande, vovô cortou o cacho e o levou para casa. Depois ele chegou a procurar o dono do sítio para pagar, mas o homem não quis receber.

 

Na infância eu também tive um pequeno caso de amor com essa fruta. Foi quando meu avô Sebastião cedeu a meu pai um pequeno terreno para plantarmos o que quiséssemos.  Vovô propôs isso, porque onde morávamos havia um vizinho com uma criação de porcos que era um inferno: tudo que plantávamos os porcos comiam. Então, ao tomarmos posse do terreninho, havia nele uma pequena moita de banana com um cacho quase no ponto. Era banana-ouro, eu me lembro bem.

 

Hoje não moro no sítio e meu vizinho não tem porco solto – e nem preso. Mas eu tenho um pequeno pomar e nesse pomar há um pé de banana-ouro.  Ganhei a muda de uma vizinha e a plantei, sem muito ânimo, junto a outras que já estavam “belas e formosas”. Aquela plantinha, tímida, raquítica, cresceu em silêncio sob a sombra das colegas e seguiu seu destino.  E em silêncio também ela pariu um cacho, que meu pai disse não parecer banana-ouro. “Banana-ouro tem as frutas separadinhas umas das outras” – ele disse, mostrando a mão espalmada para explicar o que seria uma penca de banana-ouro.  Também desconfiei. Essa espécie de banana não costuma dar cachos grandes, e aquele era enorme. Esperei para ver no que daria e, de fato, era um cacho espetaculoso de banana-ouro.

 

A casca amarelinha e fina esconde um fruto também amarelinho e muito doce. Descascar a banana-ouro é quase difícil. Você puxa a casca e ela não se rompe. Puxa mais e começa a deformar o fruto. Às vezes é preciso fazer um corte para descascá-la com mais facilidade.

 

Soube recentemente que cerca de 80 por cento das espécies de banana estão ameaçadas pela praga conhecida por ‘mal-do-panamá’. Mas certamente a banana-ouro não está entre elas, porque essa espécie é marruda. Uma moita de banana-ouro sobrevive no meio do mato, e frutifica! Em qualquer solo, mesmo se a situação não lhe for favorável, ela dá ao menos uma penca. Mas cada bananinha é bem-acabada, gordinha, feita com esmero, como se fosse a única do cacho. Ah, a banana-ouro faz honras ao nome!

 

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ANGÚSTIA SEM FIM

por feldades, em 08.05.20

Graciliano Ramos escreveu vários livros, e publicou também “Angústia”. Tenho esse livro há alguns anos e ainda não o li por absoluta falta de tempo – não de vontade. Não sou Graciliano nem Ramos, mas tenho angústias que parecem não ter fim.

 

Faz tempos que me encontro entediado, sem vontade de fazer nada além de dormir agora, neste momento, para acordar só no próximo século. Isso me ocorre desde o dia em que um determinado ‘ser’ emergiu do abismo e foi assunto ao poder. Mas a vida segue e exige que eu acorde todos os dias bem cedo, que eu abra o computador para trabalhar, mesmo que eu comece o dia sempre vendo na primeira página a abjeta figura de olhos esbugalhados. Esse celerado, que deveria estar há tempos numa prisão fortificada, submetendo-se diariamente a generosos banhos de sal e não de sol, continua malevolente em sua trajetória genocida. A “onipotência miliciana”, contudo, sobreviverá por meses e não por anos. Explico.

 

Quem sustenta aquele ‘ser’ na presidência são as forças armadas (em minúsculas), mas só por enquanto, porque no ano que vem... tchau! Caso houvesse impeachment neste ano, teria que haver eleições*, o que não interessa aos militares. Já no próximo ano, o vice é automaticamente efetivado na ausência do titular – o sonho inconfessável dos fardados. Por enquanto os militares estão mapeando, calculando, e vão engolindo o “coiso” e seus filhotes – esses grosseiros e desaforados. 

 

Mas o “coiso” tenta sobreviver, escapando da investigação de vários crimes atribuídos a si e ao seu clã. Como no último domingo, quando convocou a cúpula militar para uma reunião de emergência, numa tentativa desesperada de se salvar. Nesta última foiçada na quiçaça, o capitão teria chorado as mágoas contra um Parlamento e um Supremo hostis, conforme avalia.  Pediu muito e ganhou pouco. Mas que se dê por satisfeito, porque poderia não levar nada. Dessa vez, ele buscava respaldo para descumprir mandado judicial e, com isso, abrir-se-ia um flanco para impor seu sonho napoleônico, mas sem a sabedoria salomônica. O momento lhe parecia mais do que propício. Com o país sob pandemia, um cerco aos opositores não lhes daria chance de fuga: nada de exílio, todo mundo em cana. Mas os milicos não se animaram com o “coiso”, porque o capital dele é pequeno: apenas um terço de popularidade. Posso até imaginar o recado dado pelos generais ao capitão. “Ô cara, fica na tua e vê se te calas por um tempo.  Apenas finge estar no comando, que o resto fica por nossa conta. E não nos enchas mais com essas murmurações infantis”.

 

Muitas e inumeráveis são as mazelas perpetradas por esse homem no poder. Não fazendo nada, acontece desmatamento, garimpo ilegal, assassinato de lideranças indígenas, volta de doenças tropicais etc.  Quando resolve fazer algo para cumprir promessa de campanha, vem decreto autorizando posse de quatro ou cinco armas de fogo a civis, e mais: para cada arma o cidadão tem direito a 200 cartuchos anuais.

 

Desde a posse daquela infame figura, são famílias divididas, amizades desfeitas e mortes, muitas mortes. Agora é a Covid-19, que ele chama de “gripezinha”, que faz a ceifa.

 

Ah, esse homem nos trouxe a tormenta!

 

(*) Errei ao dizer que haveria eleições neste ano com a queda do “pato manco”. Um novo pleito só seria marcado caso os dois, titular e vice, fossem cassados até a metade do mandato.

 

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