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AULA DE MATEMÁTICA

por feldades, em 20.06.20

Não se assuste, raríssimo leitor, porque não tenho a pretensão de lhe dar aulas. Quero, neste breve texto, compartilhar algo que me deixou um pouco ‘avexado’ por esses dias. Antes, porém, proponho um pequeno problema de matemática que traz quatro alternativas, das quais uma deveria ser verdadeira. O leitor poderá ler e analisar, mas não acho que deva perder seu precioso tempo com isso. Ei-lo.

 

Priscila foi à sorveteria tomar um sorvete de massa com duas bolas de sabores diferentes e com uma única cobertura. Lá ela se deparou com seis sabores diferentes de massa e três de cobertura. Quantas são as diferentes maneiras de Priscila fazer a sua escolha? [sic]

(A) 108         (B) 90            (C) 18             (D) 14

 

Para melhor “sorver” esse problema, vamos supor que os sabores das massas sejam assim denominados: A (ameixa),  B (banana), C (coco), D (manga), E (leite) e F (uva); e as coberturas sejam de X (chocolate), Y (caramelo) e Z (limão).

 

Vamos trabalhar com a seguinte hipótese: a Priscila chega à sorveteria e faz seu pedido (duas bolas de sabores distintos e uma cobertura). O sorveteiro tem as três coberturas: X, Y e Z, mas não tem as seis massas.  Então vamos supor que ele tenha:

 

1) duas massas: A e B. Nesse caso, Priscila tem uma única escolha para as massas (AB = BA) e três para a cobertura (X, Y, Z). O número de opções é: 1 x 3 = 3. Estas são as três opções:  ABX, ABY ou ABZ

 

2) três massas: A, B e C. Nesse caso, as opções de massa são três: AB = BA, AC = CA ou BC = CB; a cobertura continua sendo três: X, Y ou Z.  Agora, multiplicamos o primeiro número (de massas) pelo segundo (de cobertura): 3 x 3 = 9. Nesse caso, seriam nove maneiras, que são: ABX, ABY, ABZ, ACX, ACY, ACZ, BCX, BCY ou BCZ.

 

Beleza. Agora, volto ao enunciado do problema. São seis sabores de massa e três de cobertura. Para a primeira bola, Priscila tem 6 escolhas; para a segunda bola, tem 5, porque não se pode repetir sabor e uma bola já está no copo; e para a cobertura, são as 3 opções originais. As contas poderiam ser feitas assim: 6 x 5 x 3 = 90 (como foi feito e publicado). Poderiam, mas não podem. Sabe por quê? Porque se Priscila escolher ameixa e banana, essa combinação só conta uma vez, pois AB = BA. Assim como AC = CA, BC = CB etc. Como as massas foram contadas duas vezes para dar o número 90, temos que dividir esse resultado por 2. Resposta: a Priscila, se ainda não desistiu, tem 45 opções para escolher o seu sorvete. Conclusão:  sem alternativa!

 

Nota: Esse probleminha fez parte da AAP do primeiro bimestre do oitavo ano. AAP é uma avaliação do governo estadual direcionado a todos os alunos da rede. Quando vi essa questão, pedi sua reconsideração, mas ninguém me ouviu. Mandei mensagens, gritei no ‘chat’ da Secretaria... em vão. Como eu não dou aulas para oitavos anos, não tenho como consertar o estrago do governo em sala. Por isso, a publicação aqui.

 

FILIPE

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PEDAGOGIA OPRESSORA

por feldades, em 05.06.20

“Bom dia a todas e a todos!” (que lindo!). Agora é assim que alguns pedagogos moderninhos, os tais especialistas em educação, se dirigem ao manso rebanho – nós professores. E ao final da parlação costuma haver ainda o indefectível “beijo no coração” (que dor!).

 

Deu para perceber que neste texto não serei indulgente com determinados atores da educação, mas prometo ser breve. Aqui estou criticando a “ditadura pedagógica” que oprime professores há décadas e quero provar no final desta crônica a desnecessidade de determinados saberes. Mas não vou atacar o patriarca Paulo Freire, a quem todo professor minimamente informado deve reverenciar.

 

Desde tempos muito antigos, nutro certa birra com a pedagogia. Pernósticos, alguns pedagogos gostam de usar expressões impactantes como ‘resiliência’ (a vedete do momento), ‘ressignificação’, ‘empoderamento’, ‘superação’, ‘protagonismo’ (juvenil e sênior), ‘mediação tecnológica’, ‘fase de letramento’, ‘aluno aprendente’, ‘aluno alfabético’, ‘espaço formativo’, ‘construção do conhecimento’ – este já fora de catálogo. E se algo não está funcionando a contento, um pedagogo que se preze dá logo o diagnóstico e envia a receita. Mas poucos são aqueles que tratam com carinho e respeito a Língua Pátria. Outro dia, uma especialista gastou meia hora para explicar a diferença entre ‘persuasão’ e ‘convencimento’ sem, contudo, convencer ou persuadir alguém. Por isso, parto da premissa de que um bom professor precisa ter conhecimento e bom senso; o resto é blablablá. Até porque grandes nomes da educação não eram pedagogos, mas advogados, engenheiros, escritores, poetas.

 

Fechamos esta semana fazendo o quê?... Ouvindo intermináveis e maçantes videoconferências de manhã e à tarde. Isso porque a Secretaria da Educação decidiu fazer replanejamento e determinou que não enviássemos atividades aos alunos durante a semana – um absurdo! Na contramão, mandei exercícios, mas fui impiedosamente ignorado pelos meus.

 

É claro que filhos e netos desses gestores não estudam em escola pública. Caso estudassem, eles não agiriam tão irresponsavelmente. Na cúpula da Secretaria da Educação de SP, eu pesquisei, tem advogado, economista, administrador e até pedagoga! Exceto esta, os demais nunca entraram numa escola pública para trabalhar. Esperar o quê, dessa gente?...

 

Explico agora por que é inútil a pedagogia dos escribas. Há anos, fiz uma prova que continha uma redação partindo de uma frase de “C. Vasconcellos”.  Eu teria que desenvolver todo o texto em cima do pensamento dessa pessoa, que eu ignorava, não sabendo se era homem ou mulher.  Então comecei: “Segundo Vasconcelos, (...)”. E assim escrevi pelo menos as obrigatórias trinta linhas, percorrendo às cegas um caminho tortuoso. Contudo, tive êxito e a nota da redação foi determinante para a minha aprovação. Depois, só por curiosidade, descobri que o misterioso personagem que me tirou a paz e me deu a vitória é Celso dos Santos Vasconcellos – um dos papas da moderna pedagogia.

 

Precisa dizer mais alguma coisa?...

 

FILIPE

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