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MINUDÊNCIAS COTIDIANAS

por feldades, em 30.01.21

PATO.jpeg

Esse aí é o Patão, mas só falarei dele mais para a frente. Porque se ele não tem pressa, eu também não tenho.

 

Nesses tempos insanos, minha saúde mental exige que eu procure algo que possa minorar minhas agruras, pois meu dia a dia tem sido bastante confuso. Embora eu tenha afazeres domésticos, tento pôr ordem no quintal, recortar jornais, pôr a leitura em dia, mas não consigo muita coisa, não. Começo cortando a grama; deixo a grama e começo recolher as folhas; deixo as folhas e começo a colher mangas; deixo as mangas e começo a acender o fogo; deixo o fogão a lenha em meio a uma fumaceira danada e começo a descascar as mangas; deixo as mangas e volto ao fogão, porque o fogo está muito violento; dou uma “bronca” no fogo, que se abranda, e volto a descascar as mangas; encho a panela com polpa, ponho no fogo e vou limpar a pia; deixo a pia e levo os rejeitos de manga para as galinhas do vizinho. E o doce fica pronto e fica bom.

 

Abandono a TV Cultura e cumpro a melhor parte da minha rotina: pego um baldinho com cascas de frutas e de legumes e levo para as “meninas” do vizinho. É uma festa! Ali, bicos famintos e vorazes quase furam minhas mãos enquanto distribuo as iguarias. Tem o galo, que canta forte um grito de “socorro”; tem também garnisés e galinholas; tem frangos e frangotes; e tem patos sem lagos, coitados. O gingado, a despreocupação e a falta de pressa fazem dos patos as aves mais charmosas. E lá tem o Patão, de quem não falarei ainda.

 

Leio notícias de Brasília e fico depressivo. Então pego a raquete elétrica e grelho algumas moscas e as jogo na teia da Chiquinha, nossa aranha de estimação. Todos os dias preciso alimentá-la e jogo uma ou duas moscas torradinhas para ela, que parece ficar agradecida e preguiçosa e cada vez mais gorducha. Vou à varanda e observo o casal de rolinhas que aproveitaram um antigo ninho e onde criam dois lindos filhotes. Um tucano, que fica à espreita, já devorou minhas juritis, mas essas rolinhas foram mais espertas e se aninharam bem próximas de minha janela. Aqui o tucano não se mete, eu acho.

 

No pomar aparecem uns macaquinhos que comem as minhas jabuticabas e cobiçam minha banana-maçã. Já deixei um cacho de banana para eles, e agora chega. Outro dia eles estavam lá: pai, mãe e filho brincando de esconde-esconde. Um descia do abacateiro e o outro descia também; um se escondia e o outro procurava; o que era encontrado subia rapidamente; o outro corria atrás e já não o achava. Por uns bons minutos pude apreciar a cena. Mas se eles estavam à toa e eu tinha serviço. Desci.

 

Ah, vou falar do Patão. Esse coitado nunca comia. Até ele chegar numa casca de banana, um bico mais veloz já havia tascado. Era sempre assim, atrasado. Eu jogava na direção dele, em cima dele, mas nada! Sempre abobado, sem saber o que fazer, ele me deixava condoído. Mas, com o tempo, fizemos amizade. Agora que ele confia em mim, come na minha mão. Então encho a mão com cubinhos de casca de melancia, sua comida preferida, e estendo na sua direção através do alambrado. Ele chega com aquele bico enorme e pega a comida, mas com uma delicadeza...

 

Valeu, Patão. Vida longa, amigão. Amanhã tem melancia, tá ok?... A sua porção está reservada. Com o Patão e essas miudezas, toco meu dia a dia. Porque sem isso acho que eu não resistiria.

 

FILIPE

 

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O VÍRUS E O VERME

por feldades, em 16.01.21

O mundo tem o vírus; o Brasil tem o vírus e o Verme. Poucos sabem, mas “coronavírus” virou apelido do vírus da ‘covid’ pelo fato de ele possuir uma coroa.

 

Diferentemente do que faz a imprensa, grafei ‘covid’ com inicial minúscula porque é assim que deve ser escrito. Explico. Não se escreve ‘gripe’, ‘tuberculose’, ‘câncer’ e o nome de outras moléstias com inicial maiúscula porque são substantivo comum. Então por que escrever ‘covid’ de outra forma?... Mesmo ela não sendo uma ‘gripezinha’ como disse o Verme... opa! Aqui tem um detalhe: esse “verme”, que não é um vermezinho qualquer e nesta nova acepção, já deve ser grafado com inicial maiúscula. Pelo menos é o que recomenda a boa gramática. Então, por respeito ao ‘cara’ e por elegância de estilo, escreverei sempre o antropônimo ‘Verme’ com inicial maiúscula. Em síntese, nomes de pessoas, que são nomes próprios, devem ser escritos sempre com inicial maiúscula – ainda que não mereçam.

 

O vírus tem feito a ceifa no Brasil. Já são mais de 208 mil óbitos pelas contas oficiais; extraoficialmente, esse número pode ser multiplicado por cinco, segundo alguns especialistas. Portanto, as vítimas fatais da covid no Brasil poderão estar na casa dos sete dígitos (1.000.000). Além dessas há um sem-número de mortes, não por covid, mas em razão dela pela falta de atendimento no sistema hospitalar colapsado. No mundo já são contabilizados dois milhões de mortes por covid. O Brasil, que tem menos de três por cento da população mundial, já conta com mais de 10 por cento das mortes por covid no planeta. Há aí uma triste desproporção.

 

Não se sabe o que fazem os milhares de militares que lotam os escalões do governo federal, quando não há sequer oxigênio nos hospitais.  A situação é gravíssima em Manaus. Se antes da pandemia havia cerca de 35 sepultamentos diários, esse número já está próximo de duas centenas. Na última quarta-feira, por exemplo, foram-se 198 almas manauaras! O oxigênio que faltou àqueles pacientes poderia ser adquirido na vizinha Venezuela, mas o Verme não aceitou. Ele está “de mal” com o governo venezuelano por razões bastante infantis. Antes, quando candidato, prometeu invadir a Venezuela – como uma criança pularia o muro do vizinho para roubar laranjas. Mas algum militar com cérebro – e existe alguém pensante nas forças armadas, acredite – disse ao Verme que, se invadisse a Venezuela, teria de enfrentar russos e chineses. Isso foi suficiente para o energúmeno se aquietar, mas ficou de “cara virada” com o vizinho.

 

Mas o Verme continua firme. Com sua campanha antivacina, antimáscara, antilockdown e, pior, com apoio da população, poderá se reeleger. Segundo pesquisa publicada hoje, o ‘desmascarado’ tem robustos 37% de ótimo ou bom.

 

Que Deus tenha misericórdia de nós, porque aqui o problema não é ‘um inimigo’ apenas, mas uma ‘legião’.

 

FILIPE

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TIA CÉLIA

por feldades, em 02.01.21

Tia Célia nos deixou numa triste manhã deste verão. Gostava de conversar com ela, e admirava sua cultura refinada, seu bom gosto, sua elegância. Era uma mulher bonita, esguia, tinha a “magreza de uma santa” como diria a Fernanda Montenegro. Nos anos cinquenta, foi normalista numa pujante Amparo que exalava cultura com teatro e cinemas, que não mais existem. Conversar com a tia Célia, principalmente caminhando pela cidade, era adentrar um passado fortunoso de uma Amparo colonial com suas ruas de paralelepípedos e postes de iluminação londrinos. Isso a deixava um tanto nostálgica, contudo não necessariamente triste. Até porque ela saíra daqui muito jovem, logo após se formar, para lecionar em outra cidade onde tocou a vida.

 

De vez em quando, tia Célia vinha a Amparo visitar uma de suas irmãs, que é a minha sogrinha, de quem ela gostava muito e com quem ainda podia dividir reminiscências. Pude participar de alguns desses momentos, que me foram de muita alegria. Eu gostava de lhe preparar o almoço com fava no cardápio, comprada de meu finado amigo Jorginho, lá de Minas. Tia Célia perguntava: “E aquele feijão branco?... Que delícia que é aquilo!...” Eu respondia: “Ah, a fava! Temos aqui na geladeira... Eu só estava esperando a senhora chegar pra fazê-la”. Então eu preparava uma comida bem ao gosto dela: invariavelmente frango, arroz, salada e fava. Ela pegava um fundinho de prato e comia, depois repetia e elogiava e repetia e elogiava, e eu ficava todo bobo. Mais tarde, depois do almoço, ela pegava uma revista ou um jornal, sentava-se no sofá da sala e lia, lia, lia, sem cochilar!

 

Mas o que mais me marcou nessas suas visitas foi uma vez em que pusemos uns CDs da chamada ‘Velha Guarda’, e ela ouviu por horas. Eram nomes como Francisco Alves, Lupicínio Rodrigues, Dalva de Oliveira, Orlando Silva etc. Enquanto tocava a música, ela pegava a capa observava as fotos e viajava naquela nave musical. Talvez essa tenha sido a última vez que tia Célia ouviu suas músicas preferidas.

 

Noutra ocasião, eram tempos natalinos, ela me acompanhou para uma novena de Natal na casa de uma senhora. Tia Célia conhecia todas as mulheres que estavam naquela reza e duas delas foram suas colegas de escola, lá dos tempos de normalista. Na volta, ela engatou animada prosa com dona Claudete e dona Vera e eu fiquei só observando. Mas a tia Célia ficou tão eufórica e se soltou de tal maneira, que parecia uma menininha ao rememorar, às gargalhadas, antigos episódios vividos por elas.

 

Cada vez mais tristonha e deprimida com a enfermidade da irmã, tia Célia adoeceu. Esperando que a pandemia passasse, guardei uma porção de fava para o nosso próximo encontro, que não pôde acontecer. Tia Célia não esperou e partiu no dia 28 de dezembro, aos 87, quando se completaram 17 anos da morte do esposo. Com ela foi um pedaço de todos nós, mas não só. Foi também um riquíssimo acervo de histórias de sua família, que jamais será recuperado.    

 

FILIPE

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