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AUSÊNCIAS

por feldades, em 24.04.21

Eu estava passeando com o Tokinho, meu cãozinho, quando vi aquele homem em sua casa. As mãos impacientes no gradil da varanda pareciam denunciar o atraso de alguém que deveria chegar, e um olhar displicente caía sobre a rua ensolarada, numa seca manhã de outono. Nunca o havia visto, embora há muito o conhecesse de nome e de histórias. Quando ele me avistou e notou que eu o olhava, virou-se disfarçadamente para dentro, como se alguém o chamasse. Mas em casa não havia ninguém além dele. Naquele momento, ele estava só.

 

Continuei caminhando devagar e parei em frente ao portão, que estava semiaberto. Assim que ele me viu de perto, nós nos cumprimentamos. Então ele deu alguns passos em minha direção e parou.  Nesse momento, eu quis me certificar de que ele fosse o tal senhor que eu conhecia pelo nome de Fiori. “Sou eu mesmo”, ele me respondeu acrescentando os pedaços que faltavam para completar o nome.  “E aquela senhora que sempre fica aí, na varanda?”, perguntei meio temeroso da resposta. “Ah, ela é a minha ‘patroa’, mas agora está na casa da filha. Aqui ela era bem cuidada, mas essa minha filha resolveu levá-la pra passar um tempo lá. Então eu fico aqui, sozinho, mas à noite vou pra lá também”. Após esse início de conversa, o seu Fiori, parecendo ter se afeiçoado a mim, resolveu contar um pouco de sua vida.

 

“Rapaz, eu moro aqui há mais de 20 anos, mas a vida inteira eu trabalhei no sítio, com um mesmo patrão. Depois eu peguei a danada da ‘maculosa’, que me deixou como morto. Fiquei muitos dias prostrado. Alguém poderia me puxar pela orelha, arrastar e me jogar no rio, que eu não dava conta disso. Eu não prestava para nada, então saí do sítio e vim morar aqui. Depois eu melhorei, graças a Deus, e não quis mais saber de trabalhar em sítio. Aqui eu trabalhei muito mais do que lá: fiz essa casa, trabalhei em dois empregos, mas ultimamente eu parei com tudo. Tenho que cuidar da Maria, sabe... Eu gosto daqui, mas fico triste sem ela. Eu choro, sabia?... Tenho que arrumar sempre alguma coisa para fazer, senão fico muito aborrecido. Ela ficava ali, na cadeira dela, quietinha, sem reconhecer as pessoas. O alimento tem que ser na seringa, e precisa de gente com paciência para cuidar dela.  Eu sei que ela sente a minha presença, então gosto de ficar perto dela para que ela não se sinta sozinha.”

 

Eu ouvi o seu Fiori e ainda quero ouvir mais histórias dele. Após esse breve relato, ele me disse que estava esperando um pedreiro para uns reparos na casa. Então eu me despedi e continuei minha caminhada. A alguns metros acima, eu queria ver outro amigo. Dessa vez, contudo, a casa do seu Benedito, que fica sempre aberta e com várias pessoas na varanda, estava fechada. Então eu não pude ver o seu Benedito e nem o verei mais. Ele não quis esperar a sua festinha de 94 anos, que seria em agosto.

 

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O DIÁRIO DE CAROLINA

por feldades, em 10.04.21

CAROLINA M. DE JESUS.jpeg

13 de junho de 1958

“...Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No frigorífico vi uma mocinha comendo salsichas do lixo.

— Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada.

Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos. Época que achamos o mundo maravilhoso. Época em que a rosa desabrocha. Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira.

...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte. Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão é mais feroz que o racional. É o terrestre. É o atacadista.

A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juízes que é Deus. Foi em janeiro quando as águas invadiu os armazens e estragou os alimentos. Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta dos preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem.

Hoje estou lendo. E li o crime do Deputado do Recife, Nei Maranhão. (...) li o jornal para as mulheres da favela ouvir. Elas ficaram revoltadas e começaram a chingar o assassino. E lhe rogar praga. Eu já observei que as pragas dos favelados pegam.

... Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operários, para os mendigos, que são escravos da miséria.”

 

Acima está um fragmento de “QUARTO de DESPEJO – Diário de uma favelada”, obra icônica da mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus, publicada por Audálio Dantas em 1960. O editor teve a sensibilidade de manter a grafia original da autora, que estudou apenas até o segundo ano primário.

 

Li “Quarto de Despejo” nesses dias e me veio uma forte lembrança dos tempos em que eu trabalhava nas Lojas Americanas de Juiz de Fora, lá no começo dos anos oitenta. Todos os dias, caminhões carregados encostavam no calçadão e sua mercadoria subia para o depósito por um elevador. À noite, as caixas de papelão desciam para a calçada e uma senhora com suas crianças pegavam aquele material para vender. Na calçada havia também uma caixa plástica onde se depositavam restos de alimentos do restaurante da loja. Bom, não vou descrever essa cena.

 

Carolina Maria de Jesus voltou a ser notícia nesta semana. Desta vez, um jornal publicou matéria em que três de suas netas vivem num “Quarto de Despejo – 2”, assim denominado por elas próprias, tal a penúria em que se encontram.  

 

Termino com Chico Buarque:
“Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo”

 

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