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TÉDIO!

por feldades, em 19.06.21

Tédio!, é o que sinto nesses tempos tenebrosos e de escassas esperanças. Já chegamos a meio milhão de mortes por covid, grande parte delas evitável, mas o Asmodeu continua negando a ciência e combatendo os protocolos sanitários. Mas não só. Ele ainda dissemina ódio, dividindo a nação, as comunidades, as famílias. O genocida nos trouxe a cizânia e não suporto mais ouvir aquela sua voz cavernosa. Todos os meios de comunicação que não lhe são afetos deveriam “cancelá-lo” de vez, mas não o fazem. Sempre, e em todos os jornais, está aquele vomitório. Da última vez que vi o ’coisa-ruim’, o ‘inominável’ fazia apologia da morte, dizendo que todos devem ter uma arma em casa para se defender. “Eu não durmo sem uma arma”, disse orgulhoso, e completou: “Você não se garante?...”. Bom, quem não se garante é ele que precisa de uma arma para dormir. Imagine o que mais deve passar naquela mente insana numa noite de insônia...

 

Mas a besta-fera quer mais, quer a vendeta. Pretende armar seus asseclas e, pior, com apoio da polícia e, pasmem, das Forças Armadas também. Não sei se um policial médio entende isso, mas quanto mais armas nas mãos de civis, mais difícil e arriscada fica uma diligência. Agora eu me pergunto: esse pessoal, que quer fazer a “revolução bolsonarista”, vai usar o arsenal contra quem? Resposta: contra os militares, os mesmos que apoiam o armamento da população! Mas por quê? Porque numa tentativa de golpe de Estado, os milicianos hão de ser combatidos por pelo menos parte das forças de segurança. Numa triste ironia, esses agentes serão vítimas de uma política fratricida antes apoiada por eles próprios.

 

Então... O imbecil planaltino, que tanto fala em Deus, mas que tem medo de dormir sem sua garrucha, deveria ler mais a Bíblia. Se lesse, ia encontrar lá no Livro de Samuel a seguinte passagem: “Então Saul tomou três mil de seus melhores soldados de todo o Israel e partiu à procura de Davi e seus homens. (...) havia ali uma caverna, e Saul entrou nela para fazer suas necessidades. (...) Então Davi foi com muito cuidado e cortou uma ponta do manto de Saul, sem que este percebesse.”

 

Lendo o livro sagrado, talvez o “valentão das milícias” aprenderia que nem o poderoso rei Saul pôde “amarrar o gato” em paz. Em outras palavras, ninguém pode se sentir protegido por ter uma arma ou se acercar de agentes. A literatura é prodiga em histórias de pessoas que foram vítimas de suas próprias armas ou de seus seguranças. Uma arma é muito eficaz para atacar, e não para se defender com ela. Simples: quem ataca surpreende; e quem é surpreendido nem sempre consegue se defender.

 

Enfim, fico triste, entediado e desesperançado ao perceber que o Asmodeu não é uma única pessoa, mas uma legião.  São muitos os “asmodeus” que pensam e agem como aquela triste figura, e alguns deles estão no meu entorno. E no seu entorno também, raríssimo leitor. Só espero que você não seja um deles.

 

FILIPE

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MELQUÍADES, O DESERTOR

por feldades, em 05.06.21

 

No começo dos anos oitenta eu prestava serviço militar numa unidade de cavalaria em Juiz de Fora. O presidente da República era João Figueiredo, um general cavalariano de maus modos, tosco, mas nada que se compare ao “Cavalão” que hoje está no posto. Embora vivêssemos os estertores do regime militar, a atmosfera política era bastante tóxica. Gilberto Gil, Caetano Veloso entre outros eram vistos com desconfiança, e Chico Buarque foi tachado de subversivo por um tenente numa palestra.

 

Havia naquela unidade militar uma sala em cuja porta estava afixada uma plaquinha em que se lia “xadrêz” – assim mesmo: com o desnecessário acento circunflexo. Eu tinha curiosidade de entrar naquela sala, queria ver como era a famosa ‘’cadeia’’. Um dia, na companhia de um colega, entrei lá para fazer alguns reparos como reboco e pintura. Passamos pela porta com a tal plaquinha e à esquerda havia outra porta, de aço e pesadíssima, que dava acesso ao ambiente. Dentro da cela havia outra salinha, muito estreita e escura, denominada solitária, e onde ficava preso político. Como eu não sabia o que era ‘preso político’, não me importei com a tal ‘solitária’ e segui fazendo meu serviço com o soldado Luís Carlos. Rebocamos e começamos a pintar a cela: eu passava cal e ele tinta. Não sei por quê, mas nos desentendemos e começamos uma guerra de tintas, fazendo uma enorme lambança. Quando vi que eu estava perdendo a parada, porque ele me jogava tinta enquanto eu atacava de cal, tentei pegar aquela tinta e jogar na cabeça dele. Com os olhos empapados, abaixei e tateei o balde. Depois vi que não era balde, mas o coturno de alguém. “O que é que vocês estão fazendo?!” Era o major, comandante da unidade, que nos abordou. Não sei de meu colega, mas eu fiquei gelado e sem ter como disfarçar, pensei: “Pintei essa cadeia pra eu ficar nela!...” O major, porém, não me puniu. Disse alguma coisa em desaprovação, sorriu e saiu. Um caso raro de militar sensível, que declinou de seu poder quase imperial, poupando dois soldados bagunceiros, mas trabalhadores. Caso fosse o subcomandante, a “solitária” teria sido nosso destino.

 

A cadeia, depois de reformada, foi abrigo do protagonista desta crônica: o soldado Melquíades. Esse caboclinho, que veio lá dos cafundós, deveria prestar serviço militar na minha unidade, mas ele não se apresentou. Então uma ‘patrulha’ foi encarregada de encontrá-lo, onde quer que estivesse, e trazê-lo ao quartel, observando a máxima: “ordem dada, missão cumprida”. Essa missão, no entanto, estava difícil de ser cumprida porque o Melquíades embrenhara-se no mato e ninguém o achava. Foram várias tentativas para, enfim, escoltarem-no e o conduzirem àquele xadrez.  Em geral, presos devem ficar isolados, mas eu visitei o Melquíades mais de uma vez. Quando o vi, fiquei pasmo. Mal vestido, talvez sujo – ele estava de pé, com os olhos parados, parecendo um espectro. Chamei-o pelo nome e, embora tentasse evitar contato visual comigo, ele atendeu. Conversamos um pouco. Ele falou de seus dramas, de sua família etc. Eu perguntei se ele sabia rezar. Não, ele não sabia rezar. Então eu escrevi o 'pai-nosso' num papel e ele aceitou, mas acho que ele não sabia ler também. Passados uns dias, Melquíades foi expulso do Exército e nunca mais o vi.

 

FILIPE

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