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FOFOQUEIROS

por feldades, em 30.07.22

Concordo com o amigo: fofoca é um problema sem solução.

 

Estava para mais de dois anos que eu não o via. A última vez que nos encontramos foi antes da pandemia. Apavorado com a moléstia que se alastrava, refugiei-me num arrabalde bem afastado do burburinho da cidade e não mais me encontrei com o amigo. Dia desses precisei ir à casa dele e lá cheguei no meio do dia. Apertei a campainha e esperei por largo tempo, talvez uns dois ou três minutos. Ele, um “animal noturno e solitário”, foi despertado em horas inoportunas, e isso deve tê-lo aborrecido bastante. Assomou-se à porta, lançando-me um olhar sonolento e nada amistoso, mal respondendo ao meu bom-dia. Perguntei como ele estava, se seus pais estavam bem etc. –  essas perguntas corriqueiras e desimportantes que são feitas por gente educada ou, no meu caso, sem assunto.

 

O amigo apenas disse que estão todos bem, e não foi além disso. Depois ficou estacado como uma fera acuada, fixando-me uns olhos cansados e entediados. Permaneceu no umbral da casa com as mãos no bolso enquanto me observava, talvez querendo me mandar embora.  Eu pensava que ele estivesse com saudade de nossas conversas. Não com saudade de mim, claro, porque saudade nem existe. Mas talvez um desejo de falar sobre coisas prosaicas, como fazíamos nos tempos pré-pandêmicos.

 

Enfim, o rapaz desembuchou e desembestou a falar. Reclamou dos políticos, dos passantes, do comércio, da carestia, de tudo. No entanto, o que mais o incomodava é a tal ‘fofoca’. Dizia ele que a cidade está cheia de gente fofoqueira. Um dia no supermercado, ele contou, havia uns três funcionários que, em vez de trabalhar, ficaram parados que nem jeca, observando o povo que entrava. Entreolhavam-se e diziam algo que, na opinião deste meu amigo, é fofoca. Ele consegue reproduzir o que, na sua imaginação, seria o que os moços teriam dito.  “Aquele ali eu conheço. Mora na minha rua e é um tranqueira. Não trabalha e vive às custas da mãe diarista. Aquela moça de blusa preta gosta mesmo é de namorar. Deve ter uns três namorados e cada dia sai com um.  A mulher de óculos, aquela gordinha que anda mancando, é uma coitada. Foi abandonada pelos filhos e, recentemente, perdeu o marido pela covid. Aquele de bermuda cinza é outro. A namorada não gosta dele, e acho porque ele é muito feio”.  Finalmente, o amigo me disse que não quer mais morar nessa cidade. Quer ir para outro lugar, mas para onde?..., indaga. Nenhum lugar presta, porque fofoqueiro tem em toda parte, completou.

 

Sem poder resolver o problema do amigo, concordei com tudo que ele disse. Antes de sair, no entanto, aconselhei ser melhor desistir da mudança, porque fofoqueiro e coronavírus tem em todo lugar.

  

Despedi-me dele e fui andando devagar, tentando digerir aquelas informações. Já um pouco distante e como bom mineiro que sou, olhei para trás. Lá estava o amigo na mesma posição: parado, pensativo e com as mãos no bolso.

 

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A BENGALA

por feldades, em 16.07.22

São três horas da manhã e perdi o sono. Estou na cama que foi de meu pai, ao lado da cama da minha mãe. Mamãe  também está acordada.

 

Na parede do corredor que dá acesso à cozinha, outra fiel companheirinha  do papai também parece não dormir, esperando pela  volta dele. Ali, ela permanece quieta e em silêncio, sem saber ou fingindo desconhecer que há idas sem vindas.

 

Foi nesta cama, às duas da madrugada, que certo dia meu pai me chamou. Isso aconteceu há pouco mais de três meses. Insone e em crise respiratória, papai me pediu socorro. Ele me acordou e ligou para a minha irmã logo em seguida. Levantei, cheguei no quarto e ele ainda falava com a filha: "Preciso de ajuda!" Pela primeira vez na vida, dei bronca no meu pai: "Se estou aqui, por que foi acordar a menina?!". 

 

Não,  não se deve repreender os pais, principalmente um pai como aquele que tive. Eu ainda pensava nisso quando ele me olhou com olhos tristes e aflitos, dizendo: "Eu não estou conseguindo respirar!" Enquanto dizia, tentava me mostrar quão difícil estava sendo aquele momento. "Venha, ponha seu ouvido aqui e ouça!", ele disse, abrindo a camisa  e me pedindo para que auscultasse seus pulmões. Então eu me aproximei e, pela primeira vez, encostei minha orelha naquele peito magro, flácido e quente. "Não parece que tem um gato chiando dentro de mim?", ele quis saber. Sem convicção eu disse 'não', porque queria confortá-lo de alguma forma. 

 

A minha irmã chegou e foi para o fogão fazer um chá.  Antes de ela chegar, ele já havia me pedido para procurar um pezinho de camomila que teria plantado no quintal. Papai me seguiu apontando a lanterna de seu celular, mas não encontramos nada além de uns matos sem função medicamentosa.

 

Feito o chá,  papai o tomou ainda quente e se sentiu melhor. Voltou para a cama, mas não se deitou. Ficou sentado por uns minutos e depois resolveu passar aquele resto de noite numa poltrona, ao lado de minha cama.

 

Dois dias depois, papai seguia para o hospital, deixando para trás a sua casa, a sua cama, a sua história  e a sua bengala.

 

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ESQUENTANDO O FRIO

por feldades, em 02.07.22

 

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Faz frio. Meus cães não reclamam, mas tremem. Peguei umas madeiras velhas, podres até, e pus no fogão. Eles ficaram me observando, curiosos, cada um no seu cantinho. Acendi o fogo. Parece que gostaram, embora a Pituka, incomodada com a fumaça, pedisse para sair. Então abri uma fresta na janela e a fumaça se dispersou.

A cozinha ficou quentinha e meus três cãezinhos: Tokinho, Tiziu e Pituka puderam dormir em paz.

Mas o que dizer sobre os milhares de pessoas nas calçadas de pequenas, médias e grandes cidades?...

 

Este é o Tokinho 

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Esta é a Pituka 

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E este é o Tiziu 

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