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MENTE BAGUNÇADA

por feldades, em 25.09.22

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“Aquele que não conhece sua história está condenado a repeti-la”

 

Deixo para comentar a frase acima no final do texto, porque agora estou muito ocupado com minha mesa tão bagunçada, como confuso também estão meus miolos e seus parcos neurônios entrelaçados e preguiçosos. Tão preguiçosos e irresponsáveis como este computador, que fez desaparecer o texto digitado de manhã. Ele, que sempre salvou automaticamente, dessa vez me traiu.

 

Faz tempos que estou aguardando minha sofrida aposentadoria no conforto do lar, onde passo o tempo lendo, cuidando de meus vira-latas, fazendo pequenos serviços com madeira. Também resolvi fazer uma horta onde plantei alguns pezinhos de almeirão. Só almeirão, porque nada mais consigo produzir. A couve, o jacu devora; alface não prospera; cebolinha dá pulgão; rúcula tem ferrugem branca. Mas, para quem não tem muito jeito de hortelão, que pelo menos plante e colha almeirão. E é isso que faço com relativo êxito.

 

E eis que o tempo passou, minha aposentadoria não veio e terei que sair da sombra para voltar ao sol escaldante da sala de aula. E faz dias que estou tentando preparar umas aulas sem saber ao certo o que ensinar e sem ter certeza de que ainda tenho algo a oferecer. Um turbilhão de coisas passa pela minha cabeça. Minhas noites mal dormidas são invadidas pelos fantasmas das lousas, apostilas, planilhas, atividades, relatórios e as intermináveis reuniões. E tem mais. Há as enfadonhas palestras de uns tais especialistas, uma gente pernóstica que nunca deu aulas ou fugiu da sala de aula ou de lá foi expulsa. São seres patéticos, com fumos intelectuais, que usam neologismos à larga, mas tropeçam no próprio vocabulário.

 

Agora, voltando à frase que abre a crônica, preciso dizer algo sobre ela. Quando eu fazia o antigo segundo grau, hoje ensino médio, um professor nos apresentou a frase e atribuiu a Hegel sua autoria. Mas parece que o autor não é Hegel, mas Burke. Para mim, no entanto, não importa quem a fez nascer, mas sei que ela nos faz crescer. Manuscrevi essa ‘máxima’ numa cartolina e fixei na parede de meu quarto para que eu nunca perdesse de vista tal advertência. E é exatamente sobre isso que pretendo falar.

 

Se os professores tivessem mais autonomia didática e fossem estimulados, e até mesmo obrigados, a ler os clássicos, estaríamos bem melhor. Um professor precisa ler cotidianamente artigos e livros sobre artes, ciências, literatura, humanidades etc. e não baboseiras pedagógicas. Todos precisamos conhecer ao menos a história recente de nosso país. Precisamos saber o que foram as ditaduras e o que faziam seus agentes. Mas parece que há uma conspiração oficial contra o desenvolvimento do pensamento crítico. O resultado está aí. Gente supostamente esclarecida acreditando que a terra é plana, que o STF é comunista e que os militares serão os nossos redentores.

 

Bom, sei que sem conhecimento não há salvação, mas o que eu preciso mesmo é organizar a minha mesa, as minhas ideias e preparar as minhas aulas.

 

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CHATEAÇÕES

por feldades, em 13.09.22

Começo a escrever este texto na "sala vip" da viação Cometa, no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Daqui a pouco, por obra do acaso (ou do descaso), embarco para Juiz de Fora. Tenho rodado bastante ultimamente, e essas viagens têm me causado algumas alegrias e variados aborrecimentos. Hoje, quero falar de perrengues, porque dizem que a vida sem um pouco de tédio não tem muita graça. Todavia, se assim for, prefiro uma vida nada engraçada, mas sem tédio. Xô, inhaca!

Não sei por quê, mas quando saí de casa para pegar o primeiro dos três ônibus, que comporiam meu périplo, eu estava sem máscara. E é meu costume sair com aquele trapo charmoso na fuça. Chegando à rodoviária e sabendo da obrigatoriedade, procurei a máscara nas minhas tralhas, revirando a mochila e nada! Eu sabia que tinha posto uma dezena delas junto às minhas roupas. Como não encontrava, pedi ao motorista que me deixasse embarcar e lá dentro eu a acharia com calma. Ele me disse um 'não' com tanta força, que seria preferível um bofetão. Impactado, saí da fila e me sentei para outra vez procurar as tão necessárias e fugidias máscaras. Abri a já tão humilhada mochila e expus suas entranhas. Caiu blusa, rolou para longe uma trouxinha de meias e até uma despudorada cueca foi ao chão. Mas as máscaras... nem sinal delas. Voltei ao motorista, que já estava ao volante e pronto para dar partida, e implorei: "Deixe eu entrar sem máscara. Eu tenho, vou achar e vou pôr..." Ele, do alto de seu imperial poder, indiferente à minha aflição e com indisfarçável deleite, respondeu frio: "Você tem ainda três minutos. Vá ao guichê e compre uma!" Subi a rampa e pedi a máscara, que me custou doídos três reais.

Ornado agora com uma "focinheira" preta, que na pressa pus de ponta-cabeça, entreguei o bilhete de embarque e fiquei ainda mais chateado, porque dentro do ônibus havia gente sem máscara. Sentei, abri a mochila para pegar um livro, mas não achei livro. Achei máscaras!!! Tive vontade de socá-las. Aconcheguei-me na poltrona, sosseguei a alma e adormeci.

 

Três horas depois, eu chegava a Sampa. A passagem estava marcada para as 'cinco e meia da tarde', mas cheguei ao embarque dez minutos antes. Quando entrei na fila, um ônibus aguardava os passageiros, mas não seria aquele. Perguntei a um funcionário pelo meu ônibus e ele disse: "Tá vindo!" Esperei dez, quinze, vinte minutos e voltei lá. Ele de novo: "Tá vindo!"

O tempo foi passando até que apareceu outro funcionário dizendo: "Seu ônibus já foi!" "O queeeê?!", desabei. Segurando o riso, ele disse: "Eu passei aqui e chamei umas três vezes."  Retruquei, dando início a um bate-boca:  "Chamei várias vezes." "Não, isso não aconteceu" "Chamei, sim." "Não chamou." "Sim." "Não."

Os ânimos se exaltaram, perdi a compostura e disparei: "Estou velho, mas não estou doido! Não teve ônibus e vou mandar um e- mail para a empresa!" Nisso, o sujeito afinou: "Por que o senhor não vai lá em cima e pede nova passagem?... Mas fale que chegou atrasado." "Posso ir, mas não quero mentir. Vamos juntos?..." "Não, eu não posso sair daqui."

Fui,  expliquei o acontecido e o funcionário do guichê reconsiderou minha passagem perdida, convertendo-a numa espécie de vale para ser usado noutra oportunidade.

Pois é... Mudei minha rota porque o rapaz disse que perdi o ônibus, mas foi o ônibus que me perdeu. Perdi foi a paciência. Mas não perdi a razão e recuperei a paz numa viagem em que houve encontros, reencontros e nenhum desencontro.

FILIPE 

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