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VELHICE E LIBERDADE

por feldades, em 17.06.23

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“Na natureza há três sexos: sexo feminino, sexo masculino e sexagenário”, disse certa vez o grande Millor Fernandes, que certamente tinha vivência e experiência pra fazer tal afirmação.

 

Sexagenário que sou, ainda não estou preocupado com isso, mas percebo que a velhice não é aquele fantasma que me assombrava a infância, a adolescência e parte da maturidade. A idade nos limita fisicamente, mas nos liberta de muita coisa. De uns tempos para cá, por exemplo, sou mais seletivo em meus contatos e meu círculo de amizade tem sido mais restrito – e muito mais sólido também. Mas a velhice não pede licença e chega empurrando a porta. Explico.

 

Dia desses fui ao dentista e após avaliação minuciosa de meus dentes, ele disse: “Seus caninos e incisivos estão todos muito bem preservados, mas com pequena retração da gengiva; já os molares sofreram algum desgaste, mas de natureza fisiológica. Tudo isso está dentro da normalidade”. Em outras palavras, o dentista me disse: “Você está velho, mas seus dentes estão bem conservados e deve demorar um pouco pra gente pensar em trocá-los por uma dentadura!”

 

No mês passado, quando fui ao médico, este já foi mais direto, cruel até. Depois de analisar meu prontuário e os resultados de um exame que pediu, ele me restringiu certos alimentos, recomendou outros e disse: “Daqui pra frente, meu caro, as coisas só vão piorar pra você!” Ri sem graça da situação e respondi que quero experimentar essa piora, sim, mas que ela vem pra todos, inclusive pra ele.

 

Fora esses perrengues da saúde, toco a vida com a simplicidade de um matuto. Em casa cuido de minha companheira, de meus cães e, mais ou menos, do meu quintal. Não vejo televisão (que nem tenho) e evito ler notícias ruins. Tenho um fogão a lenha fumacento, que acendo de vez em quando para cozinhar feijão e mandioca. Ah, gosto de fazer doce também, mas tenho evitado a sacarose. Neste momento, o fogão já está sem as labaredas que se veem na foto lá em cima, mas a cozinha está quentinha e meus cãezinhos dormem tranquilamente.

 

Concluindo, quero envelhecer com a liberdade de quem não tem a preocupação de agradar, é espontâneo em todas as relações e não tem o ímpeto de aborrecer quem quer que seja.

 

Quero que a minha felicidade seja como uma brisa, que passe por mim e vá por aí, sem que força alguma possa detê-la.

 

FILIPE

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A MAGIA DO PÃO FRANCÊS

por feldades, em 03.06.23

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Eu vinha de uma longa viagem, que me tomou uma noite inteira e um pedaço do dia. Quando cheguei na minha cidade, entrei num supermercado a fim de procurar algo que me aplacasse a fome e fui direto à padaria. Dentre as inúmeras tentações, decidi comprar pães franceses (ou pão de sal, conforme se dizia antigamente na minha terra). Aquela não seria a minha refeição, mas tomado de fúria famélica, devorei apressadamente dois pãezinhos como se fossem a melhor das iguarias.

 

O ‘pão de sal’ é iguaria, sim, pelo menos para mim. E sei que ele foi também o petisco preferido de meu pai. Muitas vezes, eu me lembro, papai, ao passar por uma padaria, consultava o bolso e, confirmado o ‘saldo’, entrava e comprava uma sacola de ‘pães de sal’. De imediato, pegava deles e repartia com quem o acompanhasse. Depois pegava outro e o comia sofregamente enquanto caminhava pela estrada poeirenta, no caminho de casa.

 

Enquanto eu comia o pão naquele começo de tarde, eu lembrava de meu pai, mas não só. Eu lembrei também de um sujeito que encontrei numa das rodoviárias pelas quais passei. Maltrapilho, um homem chegou até mim, dizendo: “Aqui, eu não estou pedindo dinheiro. Dinheiro, não quero de jeito nenhum. Eu só quero um pedacinho de pão, porque não almocei nem jantei e estou com muita fome!”

 

Olhei bem para aquele senhor e o reconheci de outra passagem. Então eu lhe disse: “Já virou freguês, né? Outro dia você me procurou...” Ele sorriu desconcertado e quase me pediu desculpas, mas foi bastante eficiente no serviço: “Pois é... Eu peço porque estou muito precisado.” Então eu disse que lhe daria uma coxinha e pedi que me acompanhasse até a lanchonete, o que ele recusou veementemente. Disse que a dona da lanchonete não gosta dele, não se sabe por quê, e que nunca ia pôr os pés lá. Insisti, dizendo que ele fosse comigo e nada lhe aconteceria, porque neste país ainda há leis. Mas o homem ‘bateu o pé’ e não quis me acompanhar.

 

Quando eu já estava a certa distância, rumo à lanchonete, ele me alcançou apressado para dizer: “Aqui, traz a coxinha, mas uma coca também. Uma coquinha só...” Eu comecei a me irritar. “Você quer Coca-Cola?! Se tem fome, come o lanche. Eu não compro refrigerante pra mim...” “Ah, compra, sim”, ele insistiu e continuou: “É que hoje é meu aniversário e eu queria beber uma coquinha!...” “Seu aniversário? Que legal! Então me diga uma coisa: que dia é hoje?” Ele olhou pra baixo, pro lado e pra cima e quase abriu a boca pra falar algum número, mas desistiu. Então eu percebi a malandragem e o deixei parado ali. Trouxe a coxinha pra ele, mas sem refri. Ele pegou o salgado, me agradeceu e se foi.

 

A dona da lanchonete me advertiu na outra vez e nesta também: “Não dê nada pra esse homem, porque ele vai vender e comprar porcaria. Então dê a coxinha e mande ele morder na sua frente pra ninguém comprar dele.” “Mas quem vai comprar um lanche de um mendigo?”, perguntei. Ela disse que muita gente compra. Respondi que se alguém compra a comida de um pedinte, essa pessoa está em pior situação. Então a mulher pegou os sete reais e não disse mais palavra.

 

Foi preciso escrever tudo isso só pra dizer que, quando se tem fome, um pão francês é o ‘menu dos deuses’.

 

FILIPE

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