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SERIAM NOVENTA E TRÊS ANOS

por feldades, em 20.11.23

foto do papai.jpeg

“Maria, Maria... Vem cá!”

 

Enquanto eu preparava o chimarrão e pensava em como começar este texto, mamãe me interrompeu. Cedo ainda, quatro e meia da manhã, voltei ao quarto. Ela insistiu: “Maria... Cadê?...” Eu disse que a Maria vinha mais tarde e que só eu estava ali. Então ela pediu ‘água e comprimido’. “Dois comprimidos!”, ordenou.

 

Ontem à noitinha passei um bom tempo ao lado dela, ouvindo suas histórias. Poucos de seus filhos conseguem decifrar aquelas frases. Eu tenho me esforçado bastante e acho que quase consigo. Naquele bate-papo, mamãe me falava “dele”. Dizia que ele estava sumido. Que “agorinha mesmo estava aqui, mas saiu e não sei pra onde foi”. Perguntei quem é. “Marido!”, respondeu de imediato. Eu completei, dizendo que ele deve ter ido a Corgo Preto, porque tem muito serviço pra fazer lá. Ela assentiu desconfiada.

 

Desde que papai partiu, mamãe veio para o centro do “palco”. Até parece ter sido essa a intenção dele. Aqui, na nossa família, penso que as atenções se voltavam mais para o pai do que para a mãe – pelo menos de minha parte foi assim e preciso me redimir desse “pecado”. Porém, saindo de cena o Velho, mamãe ganhou um protagonismo que nunca tivera. Digo isso porque, em todas as rodas de conversa, mamãe estava sempre um pouco ao lado. Eu até consigo revê-la, apoiada no batente da porta, tentando participar da prosa até que, um tempo depois e bastante desanimada, recolhia-se ao seu quarto para retomar as intermináveis ‘costuras de mão’. No entanto, muitas vezes, eu me lembro disso também, meu pai, percebendo a situação, dava um salto do sofá onde estava recostado e corria para o quarto a fim de fazer companhia à sua ‘Neguinha’.

 

Ninguém mais do que o papai compreendia o universo da mamãe. E por ser tão zeloso de sua Velhinha, seus últimos tempos ao lado dela foram bastante aflitivos. Mamãe estava cada vez mais debilitada e papai tinha pouca esperança da recuperação dela. Foi minha mãe baixar hospital que meu pai quedou-se também, e daquela vez foi tudo de imensa gravidade. Eu, estando aqui para uma visita de rotina, assinei a ficha de internamento dos dois. A impressão era de que papai ficasse poucos dias internado, mas a mamãe não voltaria pra casa. No entanto, mamãe voltou e papai “decidiu ficar”.

 

Numa conversa com irmãos, concluímos que talvez papai tivesse esperado um pouco mais para fazer a ‘passagem’ caso alcançasse o estágio de plena lucidez de que mamãe desfruta neste momento. Ela está interagindo conosco como outrora, em seus melhores dias.

 

Na longa conversa de ontem, mamãe falava do seu “Cabeça Branca”, que hoje faria aniversário. Ah, era assim que ela se referia a ele em momentos de descontração num passado já meio distante. Essa forma, um pouco jocosa e muito carinhosa, era motivo de riso na família e costumava arrancar algumas gargalhadas do Velho.

 

Nosso Velhinho não era festeiro, mas com a melhora das finanças, as tardes de seu aniversário passaram a ser festivas. Ele sempre oferecia bolo de abacaxi e refrigerante para quem aparecesse.

  

Desta vez, decidi passar o ‘vinte de novembro’ na casa do papai, ao lado da mamãe. Se na tarde de hoje não vai ter bolo nem refrigerante, também não haverá tristeza, porque o aniversariante não permitiria.

 

FILIPE

 

 

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A CAPTURA

por feldades, em 05.11.23

PHOTO-2023-10-29-15-34-45 (1).jpg

A imagem é soberba e sobre ela nada precisaria ser dito ou escrito. No entanto, tentarei tecer algumas linhas – não com o rigor daquelas tecidas pela amiga aí da foto, é claro.

 

Tudo isso me fez lembrar Gilberto Gil e seu belíssimo poema intitulado “Oriente”, no qual ele diz que a “aranha vive do que tece”. Da Elis Regina, outro ícone da MPB e em singular interpretação dessa música, ouve-se que a “aranha duvido que tece”. Não sei o que moveu a Elis, mas para mim essa é mais uma prova de sua genialidade. Provavelmente ela tenha ouvido a música uma única vez e já foi para o estúdio gravá-la. Para alguém que não fosse a Pimentinha, mesmo que ensaiasse por vários dias, jamais brilharia.

  

Ah, aranhas... Ainda há quem as repila, mas aprendi admirar essas tecelãs silenciosas. Seu trabalho é noturno e engenhoso, e a matéria-prima de seu engenho é uma tênue fibra que brota de seu abdome pela qual, numa espécie de bungee jump, a artesã gangorreia enquanto tece.

 

As aranhas sempre me fazem lembrar um camelô que arma sua barraca num ponto privilegiado da cidade. Ali, pacientemente é esperado o “cliente”, que não tarda a aparecer. E neste momento, estou a apenas três metros da “minha aranha”. Como sua tenda fica discretamente num canto da varanda, firmamos um “pacto de paz e de não agressão”.

 

Todas as manhãs, contudo, eu a observo furtivamente e noto que sua casa está bem arrumadinha. Caprichosa, durante a noite ela faz faxina e retoca a teia, deixando a sua rede refeita e limpa. Assim ela pode esperar sossegadamente pelo almoço e o jantar, que costumam vir com fartura.

 

As aranhas tecelãs têm outras utilidades além de reduzir o número de insetos indesejados e inspirar ‘cronistas marginais’.  Até os beija-flores precisam delas, porque essa teia é a argamassa para se fazerem ninhos seguros e resistentes. Já vi colibri visitando a ‘dona aranha’ e arrancando parte de sua ‘barraca’ sem que ela pudesse defender seu patrimônio.

 

Pior sorte teve a tanajura cuja imagem abre esta crônica. Não sei o que aconteceu ali, mas é fato que o aracnídeo, por ser “exigente à mesa”, não faz de toda presa uma refeição. Ontem mesmo encontrei uma pequena barata ferida e decidi doá-la à minha amiga. Com um papel, apanhei a moribunda e a lancei contra a teia, que a reteve. A ‘dona do barraco’ despertou de seu sono, que parecia profundo, e se aproximou desconfiada do provável petisco. Com as patas dianteiras, que ficam a “quilômetros” da boca, ela começou a examinar cuidadosamente cada detalhe da agônica baratinha, que esperneava aterrorizada diante de sua algoz. Saí de perto, deixando-as em paz (ou em guerra) e fui cuidar de meus afazeres. Quando voltei, não havia mais barata na teia e a aranha já estava recolhida aos seus aposentos. Não sei se houve acordo entre elas, mas também não acredito que a aranha tenha sido indulgente com sua “visita”.

 

Se a tanajura ou a barata escaparam, acho difícil. O certo é que neste momento a aranha parece feliz e realizada, descansando em seu casulo. Até que reapareça o intruso beija-flor!

 

FILIPE

 

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