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O COZINHEIRO PORCO

por feldades, em 20.01.24

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Confesso que me esforcei, mas acho que não consegui fazer direito. A minha cozinha estava toda enfumaçada, com picumãs descendo sobre minha cabeça e as paredes bem encardidas. Depois de tanto procrastinar, meti a mão na tinta e dei uma boa caprichada. Mas o fogão continua fumê, esperando por um tio que prometeu usar até uma cavadeira para, segundo ele, remover a crosta de carvão. Maldade dele, porque o meu fogão não é mais fumarento e nem está tão sujo assim.

 

O meu objetivo aqui nem seria falar do fogão, que está feliz desse jeito meio sujão, mas o assunto seria as paredes, que foram pintadas após anos me implorando por um banho de tinta branca. Sobre o fogão, acho melhor deixá-lo assim mesmo, porque descobri que ‘cozinheiro bom é cozinheiro porco’ e, dessa forma, a cozinha pode ficar ‘mais ou menos, que já tá bom demais.

 

Você que me lê observe uma coisa. Se um dia for comer na casa de um amigo ou num restaurante e achar a comida deliciosa, é melhor não bisbilhotar a cozinha, porque, com raríssimas exceções, o cozinheiro é um porcão. Há um ditado com alguma lógica, mas pra lá de preconceituoso, que diz: “Quer boa comida, siga os gordos!”. Se é verdade que apenas os gordinhos conhecem o caminho da ‘boa mesa’, não posso afirmar, mas posso afiançar que alguns “porquinhos” são bons quituteiros – o que não exclui a hipótese de que haja “porcões” fazendo comidas horríveis por aí.

 

Contudo, a recíproca para essa minha tese não é verdadeira. Se “porquinhos” fazem comida boa, não significa que toda comida boa seja exclusividade de “porquinhos”. Pois sabemos por experiência e vivência que há muita gente limpinha, sobretudo mulheres, fazendo comida maravilhosa por aqui, por aí, por lá e acolá.

 

Quando falo de ‘cozinheiro porco’, eu me refiro apenas e tão somente à lida dele com pratos e panelas e também da falta de zelo com os ingredientes que está usando. Nem ouso falar daqueles que deixam a cozinha para ir ao banheiro e voltam de lá com as “mãos sequinhas”, se é que me entendem.

 

O ‘cozinheiro porco’ costuma usar muitos panos de prato, que pega limpinhos na gaveta, e os deixa espalhados pelas pias e mesas. Volta e meia ele pega um e põe no ombro e este faz “milagres” na sua mão. Com esse pano ele pega panelas quentes, enxuga conchas e escumadeiras, passa sobre a barra do fogão e, de vez em quando, remove o suor da testa.

 

A cozinha, todo sabemos, é a arena do cozinheiro, e ali ele é um gladiador bem nutrido e bem armado, que, com boas facas, resolve qualquer parada, desde a desossa de um pernil até a expulsão de um intruso.

 

E, assim, encerro a crônica que teria como mote a pintura da minha cozinha, mas me ative ao fogão e seu cozinheiro, que talvez seja eu mesmo.

 

FILIPE

 

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MUÇURANA

por feldades, em 06.01.24

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Numa tarde úmida e quente eu andava com meus cães pela redondeza quando, a certa altura, avistei uma pequena criatura atravessando a rua apressadamente. Era uma cobrinha que, abrasada pelo asfalto fumegante, buscava asilo junto ao matagal que margeia a rua. Os cães, curiosamente, não despertaram interesse por aquele réptil, mas eu, sim, e fiz a foto que abre esta crônica.

 

Ao retornar do passeio, pesquisei na internet e descobri que aquela “menina” é a ‘muçurana’ – uma cobra do bem que, além de não ser peçonhenta, devora todas as suas “primas”, venenosas ou não, exceto a temível coral-verdadeira.

 

O dia seguinte começou com um mormaço. Eu já havia encerrado o chimarrão, terminado as leituras e preces matinais e retomava meu trabalho com sucatas de madeira – mania que adquiri nesta minha incipiente velhice.

 

Nota: A descrição a seguir não se recomenda a almas mais sensíveis, porque há nela cenas de desmedida violência.

 

E naquela manhã plácida e morna, enquanto eu media, riscava e cortava pedaços de tábua, uma cobra passava a poucos palmos de meus pés. Ela deslizava lentamente sobre o gramado, depois alcançou uma área de ladrilho e seguia seu curso. Olhei do lado, procurando um pau para matá-la, mas não encontrei nada adequado. Como ela parecia bastante tranquila, pude me afastar dali para procurar uma “arma” mais eficaz e achei um rodo velho, que me foi de boa serventia. Quebrei aquele rodo, deixando uma parte para servir de gancho e fui à luta com o bicho.

 

Aproximei-me sorrateiro e dei uma pancada, acertando-a de raspão, fazendo com que ela se apressasse. Bati outra vez, e desta vez rompi seu abdome, mas ela não desistiu da fuga, arrastando as vísceras em seu trajeto sinuoso. Eu não tinha alternativa porque aquela era uma cobra-coral e possivelmente peçonhenta. A experiência me ensinou que, mesmo confiando no meu Anjo da Guarda, devo ser bastante cauteloso com as serpentes. A prova disso é meu pai, ele um homem de muitas rezas, que certa vez teve de ir ao hospital por ter sido “ofendido” por uma jararaca.

 

Como apenas especialistas são capazes de distinguir uma falsa-coral de uma coral-verdadeira, eu,  não sendo especialista em nada, teria que dar cabo daquela desinfeliz. E assim, bato daqui, ela foge para ali; puxo pra cá, ela foge pra lá e, de bordoada em bordoada, continuei a luta. Mas a poucos centímetros à frente dessa arena, há uma casinha com um motor e foi ali que ela entrou e se enroscou. Abri a portinhola e vi uma pequena parte de seu corpo embaixo do motor. Dei uma cutucada e ela se movimentou, levantando a cabeça a uns bons centímetros do solo. Agora ficou fácil pra mim. Com o gancho do que restara do rodo, consegui puxá-la para um lugar seguro e dei fim à sua agonia.

 

Confesso minha tristeza por tudo aquilo que fiz. Sempre que posso, evito matar bichinhos. Até as moscas, que tanto me perturbam, tento afugentar pacificamente, e só uso a raquete elétrica quando sou desafiado. Mas com as corais não se brinca porque elas são perigosíssimas e têm poucos predadores, talvez apenas o gambá e a seriema. Como os gambás são implacavelmente mortos por gente ignorante e as seriemas costumam virar guisado por caçadores inescrupulosos, as cobras-corais estão aumentando.

 

Numa noite dessas, depois da triste saga da coral, encontrei uma sua ‘parenta’ (talvez muçurana) à porta da cozinha. Agora deu muito certo para essa, que escapou do ‘cabo do rodo’ assim que notou a minha presença. Deu certo para mim também, que, embora preocupado, fui dormir feliz.

 

FILIPE

 

 

 

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