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NA SORVETERIA

por feldades, em 24.03.24

foto sorveteria.jpeg

Noutros tempos eu gostava de me amoitar num cantinho de boteco para ler, escrever ou simplesmente observar as pessoas que entram e saem – e também aquelas que nunca saem. Eu me divertia vendo um ébrio encostado no balcão com um copo de cachaça pela metade, mirando o líquido numa contemplação apaixonada e sem fim. O homem pega o copo, dá uma balançada na pinga, mas desiste de beber, deixando novamente o copo no balcão. Olha meio desconfiado para o lado, dá dois ou três passos em direção à porta, mas volta para seu cantinho e fica novamente namorando a pinguinha, que parece ser boa.

   

Antigamente a cena com o manguacinha no boteco era mais pitoresca. Naquele tempo, o sujeito tinha a liberdade de acender o cigarro, mas para isso teria que usar uns três palitos de fósforo: um quebrava na primeira riscada; o outro palito caía e ele, por razões óbvias, não conseguia pegá-lo; com sorte, era bem-sucedido na terceira tentativa. E os copos... ah, preciso falar disso. A cachaça foi feita pra se servir no copo americano. Pinga, qualquer que seja ela – premiada, de litro ou garrafão, até mesmo do barril – tem que ser tomada em copo americano. Doutra forma, quem é bom cachaceiro jamais vai cumprir o “sagrado” ritual de beber um gole e dar aquela baita cuspida em seguida.

 

Numa tarde quente e úmida, eu estava numa cidadezinha do interior do Paraná quando resolvi dar uma escapadinha para um boteco bastante fuleiro, onde havia apenas três ou quatro mesinhas e nenhum cliente, que é do jeito que eu mais gosto. Pedi uma cerveja, fui para um canto e comecei a bebericar enquanto retomei a leitura de um livro. Comigo estava Dom Casmurro, que, na minha opinião, é a melhor obra de Machado de Assis. Enquanto o botequeiro, sem ter o que fazer, cochilava do outro lado do balcão, eu submergia na história de Bentinho e Capitu. Subitamente, chega um cliente e desperta o homem, dizendo quase num grito: “Seu Manduca, me dá uma cerveja!”.  Não poderia ser menor o meu susto, não por ele rasgar violentamente aquele benfazejo silêncio vespertino, mas porque naquele exato momento eu lia no romance a história de um personagem que, coincidentemente, tinha o nome de Manduca. Como pode?... Manduca ali e Manduca aqui?! Sim, o homem tinha esse apelido, que provavelmente tenha saído das páginas de Machado. Vai saber...

 

Agora os tempos são outros. Já não frequento boteco e muito raramente vou a barzinho. Meus anos foram passando, antes devagarinho e agora bem mais apressadinhos. Com a idade, me veio também algum juízo, de forma que meus espaços de lazer são mais escassos e bem selecionados – como uma sorveteria, por exemplo. É dela que eu gostaria de falar nesta crônica, mas fui atraído pelo boteco.

 

Bom... semana sim, semana não, dou-me ao luxo de ir a uma sorveteria.  Ali, leio e como picolés. Sim, eu mordo e mastigo picolés – não os chupo. Devoro sempre três: de abacaxi, limão, milho verde ou coco queimado. Enquanto vou sorvendo aquela delícia gelada, vou mergulhando nas páginas de um livro. Só que outro dia eu esqueci de levar esse companheiro e resolvi fazer umas continhas. Mas... atenção, matemáticos! Na demonstração da fórmula na foto que abre este texto, não há rigor algébrico. No entanto, fiquei satisfeito com o resultado. E com os picolés.

 

FILIPE

 

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ELA SE FOI VESTIDA DE BRANCO

por feldades, em 09.03.24

linda.jpeg

Vivi com minha mãe os seus últimos momentos. Nunca, jamais pude imaginar que seria eu a pessoa a estar com ela em sua hora derradeira. Uma profusão de pensamentos me tonteava naquele começo de noite do dia 29 de fevereiro. Mamãe inerte, respirava silenciosamente com o oxigênio no fluxo máximo.

 

Eu tinha à disposição uma poltrona confortável, mas preferi uma cadeira de plástico, porque eu sabia que naquela noite eu não poderia cochilar. E numa cadeira menos confortável, provavelmente eu velaria o sono de minha mãe sem que dormitasse. Naquelas horas aflitas, eu me dividia entre a mamãe e o celular, de cuja telinha brotava um jorro interminável de mensagens, muitas não respondidas. Eram irmãos, parentes e amigos que queriam saber como ela estava. Eu não imaginava que aqueles seriam os instantes finais de minha mãe. Naqueles minutos, que depois eu saberia serem os últimos, enquanto eu observava a respiração e a temperatura da minha mãe, a minha irmã mais velha costurava o ‘vestido branco’ que mamãe, em palavras cifradas, encomendara um ano antes. As máquinas tinham pressa e trabalhavam freneticamente: no hospital, a de oxigênio soprando no limite máximo; na casa da minha irmã, a de costura na velocidade de um raio. E o vestido ficou pronto no momento em que mamãe partia.

 

Na tarde do dia anterior, mamãe estava em casa e sua crise respiratória agudizava. Havia um cilindro de oxigênio prestes a se esvaziar. Procurado o fornecedor, primeiramente por minha irmã, esta não teve seu pedido atendido; depois fui eu a ligar para a empresa e experimentei a mesma frieza do funcionário, que, por razões absurdamente burocráticas, dificultava a entrega dos cilindros. A pressão no manômetro diminuía a olhos vistos e nós ficamos apavorados. Por fim, acabou o conteúdo e mamãe ficou “como um peixe fora d’água”. Desfalecida, sua saturação caiu a níveis absurdamente incompatíveis com a vida.

 

Felizmente, o posto de saúde ofereceu um cilindro com a terça parte do conteúdo, mas suficiente para o socorro.  Mamãe já se recobrava quando chegou o doutor a pedido da mana. De longe, o médico já adiantou que o quadro era grave e que a enferma deveria seguir imediatamente para o atendimento intensivo. E assim foi feito.

 

A ambulância estacionou no terreiro de casa naquela tarde de 28 de fevereiro, mamãe seguiu para o hospital e ficou até altas horas numa sala de emergência, porque não havia leitos vagos. Finalmente, devido a uma transferência, minha mãe conseguiu subir para a enfermaria, sendo acomodada num dos leitos do quarto 205. Há mais de um dia sem se alimentar e sem beber água, porque não tinha forças para engolir, mamãe tinha sede. Em casa, seus lábios eram molhados com um algodão embebido e nesse momento ela erguia as mãos, tentando agarrar uma mamadeira, que lhe era invisível. Na enfermaria, mamãe voltou a pedir água, o risco de engasgo era real, mas decidi arriscar.  Peguei um copo de plástico com uma pequena quantidade e levei até à sua boca. Ela sorveu sofregamente, amarrotando o copo e sem engasgar. Pediu mais, eu dei. Ela adormeceu feliz, porque matou a sede. Na manhã seguinte, às sete horas, eu disse: “Mãe, vamos tomar os comprimidos?...” Ela abriu os olhinhos e repetiu: “Comprimido?!” Dito isso já foi abrindo a boca como um filhote de passarinho. Eu pus um comprimido e dei um pouco de água. Ela engoliu e abriu a boca novamente. Pus o segundo comprimido e dei mais um pouco de água. Ela fez um movimento de deglutição, mas não fiquei certo de que tinha engolido, porque vi algo parecido com um comprimido na sua boca. E perguntei: “Engoliu?” Ela disse: “Pronto!” Aí percebi que o “comprimidinho branco” era um dentinho solitário que sempre me confundiu quando eu lhe dava os medicamentos.

 

Terminei meu turno e deixei minha mãe aos cuidados de uma amiga da família. Antes, recomendei que mamãe devesse tomar alimentos oralmente, sem introdução de sonda e expliquei que ela estava deglutindo. Saí para descansar, porque eu voltaria à noite. No meio do dia fiquei sabendo que mamãe tinha piorado, e que estava sondada e prostrada. Um cardiologista havia sinalizado para o pior, mas eu tinha esperança. Quando cheguei ao hospital no começo daquela que seria a última noite, deparei com o quadro descrito no primeiro parágrafo.

 

Mamãe estava mal e eu dizia à família que ela não retornaria com vida. Sentado naquela cadeira de plástico, eu me inclinava a cada minuto para ver se ela estava bem. Não dava para saber, porque seu quadro era de extrema prostração. Às nove da noite, as demais pacientes e acompanhantes pediram para apagar as luzes, e eu não pude mais ver com nitidez minha mãe.

 

Tive fome. Eu tinha na mochila um lanche que seria para a noite anterior. Mas aquela noite, na qual mamãe se internou, foi bastante agitada. Ela estava impaciente e eu teria de segurar sua mão por duas razões: afagá-la e impedir que removesse o acesso. De repente, percebi na penumbra algo estranho. O acesso soltara e o soro juntamente com o sangue havia molhado três lençóis. Foi um horror! A enfermeira veio correndo, trocou tudo e, a custo, estancou o sangue. Pensei: mamãe, que está desidratada e sem se alimentar, agora sofreu uma perda substancial de sangue e, além disso, ficou sem o soro. Isso tudo na noite anterior ao ‘triste desfecho’.

 

Volto para a noite seguinte, que seria a última. Passava das nove da noite, tive fome e comecei a comer o lanche. O lusco-fusco não me permitia observar a minha mãe, mas eu espiava assim mesmo e via que ela dormia tranquilamente. Terminado o lanche, fiz a checagem de sempre: apalpei suas mãos, seu pescoço, tentei ver sua respiração, e me pareceu que algo não estava normal. Fui ao postinho e procurei uma enfermeira: olha, acho que mamãe parou de respirar. A enfermeira chegou, checou, me pediu para pegar o estetoscópio com a colega dela, auscultou e, meio assustada, já ia saindo quando a interpelei: o que acha? Ela respondeu: é melhor chamar a médica para dar certeza, mas acho que ela se foi.

 

Uma hora depois a médica veio, deu o veredito, me abraçou emocionada e saiu. Um minuto depois chegaram duas enfermeiras, que me abraçaram chorosas, me disseram palavras carinhosas sobre minha mãe e me pediram para sair. Elas iam trocar a mamãe e remover seu corpinho.

 

Eu saí dali meio sem ter para onde ir e resolvi me sentar no sofá numa área de descanso. Ali, fui rememorando a vida de minha mãe desde a sua juventude. A natureza indócil, difícil, sendo dobrada pouco a pouco com a idade; a vida de sofrimento com a epilepsia: muitas quedas, inúmeras quedas; a vida de oração: muitas rezas; a parcimônia alimentar: comia pouco, só pedia água e nunca pediu comida; seu rico patrimônio: as sacolinhas de meias, blusas, toucas, todas dentro das gavetas de uma cômoda; as inúmeras internações: algumas por queimadura; a gratidão: mamãe sempre agradecendo e abençoando. Paro por aqui, mas prossigo adiante.

 

Enquanto eu estava naquelas ruminações, tentando escapar da última cena que seria a remoção, um barulho lúgubre, muito conhecido de quem vara noites no hospital, me trouxe à realidade. Um porta-cadáver, que é uma espécie de maca de inox com rodas de aço, vinha pelo corredor e na minha direção. Eu quis sair dali, mas não havia tempo. Foi neste momento que me dei conta da realidade. Aquelas enfermeiras do quarto 205 vinham conduzindo o carrinho, e nele havia um lençol branco cobrindo o corpinho inchado de alguém com pequena estatura.

 

Ainda naquela noite, procurei uma funerária e escolhi uma urna. E com o agente funerário, deixei uma pequena sacolinha plástica contendo o ‘vestido branco’ para minha mãe.

 

FILIPE

 

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