Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


ELA ESTARIA FAZENDO 85 ANOS

por feldades, em 24.05.24

WhatsApp Image 2024-05-23 at 06.51.42.jpeg

“Deus abençoe sua boa vontade! Deus lhe pague! Graças a Deus!”, esses foram os dizeres mais frequentes de minha mãe, que neste ‘vinte e três de maio’ completaria oitenta e cinco anos. Para alguns, tais frases talvez sejam desprovidas de sentido, podendo até lhes causar certo estranhamento, mas não para quem conviveu com ela.

 

Mamãe, ao longo da vida, passou por diversas fases. Sua personalidade, marcante, foi forjando a vida dos filhos e de quem mais esteve por perto. Posso falar disso, porque conheci mamãe desde os tempos em que ela era uma “meninota” de vinte e poucos anos.

 

De início, lá na juventude, mamãe foi uma mulher vaidosa, que se maquiava com pó de arroz e ruge. Também usava uma bolsinha de mão e sombrinha colorida de cabo bem-trabalhado, coisas do tempo de solteira. No entanto, batom, esmalte e brincos mamãe nunca usou e se irritava com alguém que lhe oferecesse. Isso ela aprendera com o pai, meu avô Aurélio, que, para ele, esses luxos seriam vícios de quem não é muito ligado às coisas de Deus.

 

Com o tempo, mamãe parou de usar o pó de arroz, mas tinha um quê com os cabelos, que deveriam estar sempre longos (nada de tesouras ali!). Houve um tempo em que ela mesma os trançava, embora as tranças não fossem assim tão bem-feitinhas. Para dar uma caprichada, mamãe costumava entrelaçar umas fitas coloridas nas madeixas, e papai parecia gostar do resultado.

 

O temperamento forte da mamãe deve ter sido transmitido aos filhos. Não sei de meus irmãos, mas herdei muita coisa dela; só não herdei a firme devoção aos santos e a fervorosa oração diária. Mas alguns traços da personalidade de ‘quase incivilidade’ e de ‘dificuldade nas relações’..., vou segredar aqui aos poucos que me leem: isso eu herdei da minha mãezinha!

 

Pronto. Confidências feitas, agora vamos à segunda parte, que é a mais interessante.

 

Mamãe, ao longo da vida, foi solitária, soturna e temperamental.  Era comum que se trancasse no quarto onde ela chorava a desventura de ser uma mulher doente e pobre. Meninos ainda, não entendíamos absolutamente nada do que estaria acontecendo com ela. Papai estava sempre atento àquilo, mas ele não podia ficar em casa, porque precisava trabalhar. E assim fomos convivendo com as dores de nossa mãe durante toda a infância e adolescência.

 

Quis Deus, porém, que mamãe experimentasse a fortuna da velhice e aqui as coisas mudaram radicalmente para melhor. Já octogenária, mamãe tornou-se uma pessoa extremamente amável, alegre, receptiva, um amorzinho! Era muito comum ouvir dela: “Boazinha de coração!”, seja para filha ou filho. Perguntado quem era ‘boazinha de coração’, ela respondia: “Você mesmo!!!”

   

Então foi aquela mulher, já anciã, que me fez ver que a doença não nos afasta da bondade. Os tempos mais felizes vividos por minha mãe poderão ter sido esses dois últimos anos. Viúva, acamada, usando oxigênio e se alimentando precariamente por uma mamadeira, mamãe foi cuidada como um nenê, mas se comportou como um ‘bebê feliz’. Ela era tão carinhosa, que bastava passar pelo quarto ou se sentar por alguns segundos ao seu lado  – eu disse ‘segundos’, não ‘minutos’, que ela já estendia a mão e dizia “Deus abençoe!”. Essa era a maneira tão peculiar com que mamãe nos agradecia, seja por um alimento, um pouco de água, um aperto de mão ou um olhar.

 

De todas as lições deixadas pela minha mãe, a mais eloquente é a ‘gratidão’.

 

FILIPE

Autoria e outros dados (tags, etc)

O CAVALO DE NOÉ

por feldades, em 11.05.24

WhatsApp Image 2024-05-10 at 19.50.38.jpeg

“Apenas a ignorância, e tão somente ela, pode nos fazer felizes”.

 

 

A frase acima é de minha lavra, e por isso mesmo de péssimo gosto. E como mau frasista que sou, por coerência, continuo escrevendo más crônicas.

 

Partindo da premissa de que apenas os ignorantes são felizes, então não sei o porquê de minha tristeza. Ultimamente estou numa melancolia de dar dó e por isso evito o noticiário, todo ele. Não tenho tomado conhecimento dos fatos de Brasília, do meu estado, do meu município e, muito menos, do mundo. Sei que a Rússia continua esganando a Ucrânia e Israel prossegue fustigando os palestinos. Como não posso deter a fúria assassina daqueles genocidas, prefiro não tomar pé dos acontecimentos.

 

O mesmo acontece com as notícias que vêm do sul. Sei que o Rio Grande está sob um dilúvio de proporções bíblicas e que o gaúcho vive seus piores dias. Aqui, sim, eu poderia fazer alguma coisa, e tenho tentado. A minha contribuição se faz com algumas preces, que são bem fraquinhas – e com uma irrisória contribuição financeira, que poderia ser mais significativa caso minha humana sobrevivência permitisse.

 

Ah, e o cavalo? Então, embora eu não tenha lido nada sobre aquelas cheias, sei do desespero dos gaúchos e deles me compadeço conforme já exposto acima. Do cavalo, eu soube de sua aflição por várias fontes. Diziam que ele estava por dias num telhado, sem água nem comida. Só não me contaram o que o animal fazia ali: se esperava por socorro ou pela morte. Felizmente, apesar dos protestos de “pessoas de bem”, uma equipe de salva-vidas resgatou o Caramelo – esse é o nome do animalzinho.

 

A Natureza não é aquela mãe ingênua e charmosa conforme os românticos acreditam. Ela é sábia, generosa, mas exigente e até vingativa. Não seria de bom-tom desafiá-la como temos feito. O desmatamento, a contaminação das águas e do solo, a emissão de gases de efeito estufa e outras traquinagens farão gemer esta geração e a próxima – isso se houver a próxima!

 

Ainda bem que o nosso bravo povo sulista não se separou do ‘brasilzão’ conforme querem alguns desalmados. É de todos conhecido o rompante separatista de certos gaúchos e catarinos desejosos de criar a ‘república do sul’, incluindo aí o Paraná. Para aqueles celerados, o norte e nordeste são obstáculo ao desenvolvimento econômico puxado pelo sul. Contudo, neste momento aflitivo a solidariedade aos sulistas veio de todos, particularmente da população agreste.

 

Quando vi a imagem triste do tristonho Caramelo, pensei que ele estivesse nessas ruminações aqui descritas. No entanto, acho que ele estava mesmo é esperando por Noé. Que, enfim, chegou!

 

FILIPE

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D