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A comida deve estar boa, né tia?... Também... Eu que fiz!
Essa foi a primeira vez que me arrisquei numa bacalhoada e sem seguir receita alguma, apenas confiando no meu tirocínio. E deu certo! Tanto é que a tia comeu, gostou e, meio às escondidas, premiou um de seus muitos gatinhos com um petisco.
Era manhã de Domingo de Ramos. A tia Geni estava com vontade de comer o bacalhau que comprara, na expectativa de que eu fizesse. Tremi de preocupação. Costumo cozinhar, mas nunca fiz nada além do básico. Olhei aquele peixe, que me pareceu agradável, dei uma escapada até a mercearia, comprei uns pimentões, batatas, tomates e alho. Chegando, comecei a fervura do bacalhau para o dessalgue enquanto os demais ingredientes eram preparados à parte. Enquanto uma panela de pressão chiava a fogo brando com o feijão, noutras panelas eu fritava alho e demais temperos para o que viria ser o nosso almoço. “O arroz tem de ser feito com água fervente!”, recomendava a exigente dona da casa. Após duas fervuras, drenei e desossei o bacalhau e o misturei àquele cozido de batatas, tomates e pimentões... Mas esqueci da cebola!
Não demorou mais do que uns três quartos de hora e o almoço já estava pronto. A tia pegou um prato e começou a se servir. Receoso do resultado, fiquei observando-a à meia-distância: vai saber se o arroz não ficou grudento?... Se o peixe ficou salgado... ou sem sal?... Se o feijão ficou cru ou cozido demais?... Olhei para a tia e para seu prato. Pelo que eu via, ela estava animada, mas poderia se frustrar. No entanto, para minha suprema alegria, minutos depois aquele prato estava limpinho – gente, ela comeu tudoooo! Terminada a refeição, a tia foi para mim só elogios. Disse que eu sou um bom cozinheiro, que eu poderia ser ‘garçom’ ou abrir um restaurante etc.
A minha alegria de estar com a tia Geni foi bem além desse ‘momento gastronômico’. Embora eu estivesse ali com uma senhora já um pouco alquebrada e enferma, pude rememorar uns tempos antigos de quando morei com ela na minha adolescência. Naquele tempo, a tia pouco conversava comigo. Apenas dizia alguma coisa, que era imediatamente repetida pela minha avó; ou o contrário: a vovó dizia e a tia repetia. Essa prosa não ia muito além de conselhos, muitos conselhos. Um deles, o mais frequente, era sobre economia. É preciso guardar dinheiro para que consiga alguma coisa na vida. “Sebastião sempre economizou!”, dizia vovó sobre o falecido esposo; a tia reforçava: “Papai nunca gastou dinheiro à toa.”
Dessa vez, no entanto, não houve sermões nem conselhos. A tia me falou de assuntos nunca dantes dito. Falou de suas tristezas atuais e frustrações antigas. Discorreu sobre a sua juventude, a relação com os irmãos mais velhos e das pequenas traquinagens desses. Também falou de seus encantos na mocidade, da opção de ficar solteira e o consequente desencanto de pretendentes. E citou nomes!
O dia avançou. Já era começo de tarde quando o táxi chegou e tive que me despedir, deixando a tia em pranto. Consternado, prometi, sem muita convicção e sem convencer, que voltaria em breve e que estaria mais presente na vida dela a partir de agora. Assim quero e espero.
Obrigado, tia. Até a próxima.
FILIPE

Já se completam três anos neste 13 de abril, mas parece que foi ontem. Aliás, parece que nem houve partida. Fica a impressão de que o Velho está ainda lá na sua casinha, que ele mesmo construiu, esperando a chegada de algum filho. Aquela casa foi a única que o papai, pedreiro por tantos anos, fez para si. Muitas outras foram feitas ou reformadas, mas como laborioso ganha-pão. Ao longo da vida, papai sempre morou em casas bem precárias. Essa, no entanto, embora muito simples, foi meticulosamente planejada por ele e dela muito se orgulhava. Foi ali que meus pais passaram seus últimos anos numa vida sem luxo, mas confortável.
Três anos atrás, em fins de março, cheguei para mais uma visita. Papai havia me pedido que adiasse aquela viagem para julho, por ser muito “sacrificada”, segundo disse, mas mantive a programação e cheguei um dia antes de registrar a imagem que abre a crônica. O Velhinho estava bem e me recebeu todo alegroso; a frágil mãezinha me abençoou com a ternura de sempre. Apesar das recorrentes “crises de ansiedade”, que soubemos tardiamente não ser ansiedade, papai estava bem-disposto. Conversamos, jogamos baralho e ouvimos músicas antigas.
No segundo ou terceiro dia da minha chegada, mamãe teve de ser internada; poucos dias depois, foi a vez do papai. Ver internados simultaneamente o pai e a mãe é por demais doloroso. No hospital, papai estava relativamente bem, apenas tomando soro e alguns medicamentos; já mamãe dava sinais de terminalidade. Eu pressentia perder a minha mãe e apostava na recuperação do meu pai, mas deu-se o contrário. Papai, que passara por uma crise respiratória aguda, foi levado à UTI e de lá não mais voltou. Mamãe foi melhorando devagarinho, recobrou os sentidos e voltou para casa, mesmo num quadro clínico ainda preocupante.
Deixando a mamãe para outra hora e voltando ao papai, quero rememorar minha última noite com ele naquela enfermaria. Preciso registrar algumas dessas vivências, porque esses retalhos de memória vão se esfiapando e se esfarelando até desaparecer – para mais tarde retornarem como fantasia ou delírio.
Naquele último dia, eu saí à tardinha de casa e fui para Visconde do Rio Branco no ônibus das dezoito horas – sendo essa a minha rotina diária. Eu sempre tinha pressa, porque a substituição do acompanhante, que era o Frei Gabriel, teria de ser às dezenove horas. Chegando à rodoviária, desci do ônibus e marchei apressadamente para o hospital. A meio-caminho havia uma quitanda onde eu já tinha comprado alguma coisa. Dessa vez eu quis levar frutas para o papai e vi umas bananas-prata muito bonitas, embora não me parecessem tão maduras ainda. Pensei: levo essas e amanhã já estarão no ponto. Comprei uma grande penca, que continha cerca de dúzia e meia.
Chegando ao hospital, o porteiro liberou, subi as intermináveis rampas e entrei na enfermaria. O frei me reservou sua marmita, que o hospital dava aos pacientes e acompanhantes. Eu quis declinar, mas ele insistiu. Papai já terminava a boia dele, raspando ruidosamente a vasilha de isopor. Pensei: ele está com fome ainda, então vou lhe dar essa marmitinha. Ele não quis. “Eu vou é comer uma banana dessas” – disse, já pegando uma na mesinha ao lado.
Terminada a refeição, conversamos um pouco. Papai trocou algumas mensagens com “suas amigas e amigos” da rede social e adormeceu. Mas aquela noite não foi de ‘sono leve e suave’. Ele teve um sono atormentado, com aquilo que se denomina ‘sonilóquio’, que é a ‘fala durante o sono’. Às vezes eu tentava interagir, pensando que precisasse de algo, mas ele não respondia. Estava dormindo profundamente.
Amanheceu, o Freizinho chegou para me render, mas papai não estava bem. Após voltar do banheiro, ele teve uma grande crise respiratória. Um médico chegou, avaliou e recomendou urgência de tratamento intensivo. Apanhamos às pressas os pertences de meu pai, ele me entregou o celular e o seguimos, agora conduzido numa cadeira de rodas. Chegando a uma espécie de sala de espera que dá acesso à UTI, a cadeira de rodas virou para a esquerda, e, sem que houvesse tempo de o Bom Velhinho nos acenar em despedida, a porta de vidro foi fechada.
Fechou-se ali uma porta de vidro, mas não apenas ela. Dias depois também se fecharia um livro com uma grande história. Só que esse livro seria fechado para sempre.
FILIPE
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