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A imagem que abre a crônica me transporta para um passado longínquo, já quase esquecido, quando meus pais moravam numa casinha simples, fincada na encosta de uma montanha das Gerais. Nesse pequeno recorte entrevê-se parte do cotidiano de minha mãe, que parecia pensativa, tentando lembrar algum nome ou fato. Talvez ela tenha sido interrompida em suas divagações enquanto escrevia, embora não me pareça contrafeita com isso. A pequena fotografia diz muito sobre a vida modestíssima que meus pais levavam. Mamãe está no seu quarto, tendo ao fundo a janela de tábuas rústicas; à esquerda vê-se o batente carcomido da porta; no canto, um esteio de madeira bruta revela serem as paredes feitas de pau-a-pique.
Meus pais se mudaram para essa casa em 1979 e lá permaneceram por duas décadas. Muitas são as histórias contadas pela irmandade tendo como cenário essa “choupana”, o riacho que margeava o terreiro, o pé de manga defronte à cozinha, o campinho mais à frente onde a meninada brincava de bola, o vizinho Palmerindo, a estrada que conduzia ao povoado da Santa... Nessa casa, papai e mamãe viveram momentos felizes junto aos miudinhos, particularmente quando recebiam alegremente os graudinhos – estes morando na “cidade grande”.
Lembro do abraço que mamãe me dava quando eu chegava. Esse era um abraço diferente, que como aquele eu nunca ganhei de ninguém. Era apertado e rápido, semelhante a um pequeno empurrão, só que infinitamente carinhoso. Aquela alegria era intensa, mas fugaz. Passado um tempinho, mamãe voltava a ficar bravinha, porque esse era o seu normal.
Na foto acima, mamãe estava escrevendo alguma coisa, mas acho que não seria carta. Sendo dos mais velhos, sou de um tempo em que ela gostava de se corresponder com uma prima que se mudara para uma terra distante. Mamãe apanhava uma folha de caderno e, pegando firme no lápis, desenhava cada letra, bordando devagarinho as palavras. Uma frase demandava minutos; uma página inteira levava dias. Se alguém se aproximasse, mamãe mal disfarçava o incômodo. Nervosa, dobrava aquele papel e o guardava, saindo dali para cuidar de outra coisa. Muitas cartas foram escritas e postadas; provavelmente outras ficaram “pra depois”, esquecidas e inconclusas.
Lembro com muita saudade das muitas vezes em que cheguei àquela casinha, sendo carinhosamente recebido pelos meus pais e os irmãos pequenos – todos esses uns maltrapilhos, e eu sem condições de lhes dar sequer um par de chinelos. E a imagem acima, com a mamãe ainda jovem, me traz essas lembranças de forma muito vívida e me faz revelar um pequeno segredo. Quando eu me despedia da mamãe, um nó na garganta me impedia de falar, mas ainda assim eu dizia: “Mãe, eu nem sei se vou achar passagem. Pode ser que não tenha ônibus pra mim, então eu volto pra ficar com a senhora, tá?...”. Enquanto eu “mentia”, ela passava uma das mãos nos olhos marejados e com a outra mão me segurava, tentando me fazer desistir.
Neste 23 de maio mamãe faria 86 aninhos. Não há festa, não há bolo nem parabéns aqui. Mas no céu, com certeza, ela está festejando o natalício com muita alegria ao lado do ‘amado Zezé’.
FILIPE

Sim, pode parecer estranho, mas ‘Bruxa’ é o verdadeiro nome de Paulo Eduardo Belizário – pelo menos para o seu círculo mais íntimo, do qual orgulhosamente faço parte.
Pois é... o Bruxa, companheiro de tantas festinhas, partiu inesperadamente no anoitecer de ontem. Estávamos preparando uns petiscos para comemorar o Dia das Mães com as mães da família, mas não deu. O Bruxa decidiu ir para outra “festa”, onde a alegria não termina.
Vai ficar um enorme vazio nos nossos encontros, porque o Bruxa era o mais divertido, o mais animado e ele era também uma pessoa que ‘conseguia nos irritar sem aborrecer’. Pode parecer estranho, eu também acho, mas muitas vezes o Bruxa me irritou com suas provocações. No entanto, eu nunca fiquei aborrecido com ele. “Mas como pode isso?”, você deve estar perguntando. Vou explicar.
Quem me conhece sabe que eu não gosto de reuniões. Qualquer encontro em que se agrupam três pessoas já fico incomodado e, podendo, arrumo um jeitinho de “sair à francesa”. Mas com esse grupo do qual o nosso amigo fazia parte é diferente. Todas as vezes que alguém convida para um almoço, churrasco ou até mesmo um simples café, eu compareço de bom grado. Gosto muito de me reunir com esse povo e não é de agora. Participo desses eventos há muitos anos. Seja aniversário, Natal, Ano-Novo ou um festejo sem “grife”, lá estou eu, comendo, bebericando, discutindo política, futebol, religião... essas coisas das quais não entendo bulhufas – nem eu nem você, né Bruxa?!
O que o Bruxa tinha de interessante pra me fazer seu admirador tão devotado? Parece difícil responder essa pergunta, porque o Bruxa criticava tudo o que me é caro. Falava mal da minha igreja, das minhas fontes de informação, da minha postura política, de tudo! Sim, ele sempre me criticou, me irritava, mas nunca me aborreceu. Sabe por quê? Porque ele dizia essas coisas diretamente pra mim. Ele não falava de mim; falava comigo. E falava essas coisas em tom de mofa, porque ele sempre foi um simpático bazofeiro. Não havia nas palavras do Bruxa nenhuma intenção de ferir alguém, e disso eu tenho certeza. O Bruxa tinha um jeito “meio infantil” de se relacionar com as pessoas, e isso às vezes incomodava alguns. Mas nele não havia maldade, porque a sua espontaneidade era genuína, de uma pureza quase angelical.
Ah, tem mais. O que eu mais admirava no Bruxa é a caridade! Nunca, jamais aconteceu de algum pedinte sair da casa dele sem um lanche ou um prato de comida. O Bruxa foi um homem boníssimo. Ele dava comida aos pobres, procurava advogados ou repartições públicas para aposentar pessoas deficientes e desassistidas, participava ativamente dos embates na Câmara Municipal contra projetos lesivos aos munícipes, e muito mais.
O Bruxa vai fazer muita falta pra nós, seus amigos e familiares, e pra muita gente que nem conheço. No entanto, reitero aqui aquela máxima: “Quem faz o bem, recebe o bem e continua fazendo o bem, mesmo que esteja no Além”. Obrigado, Bruxa. Continue cuidando da sua gente e de seus bichinhos.
FILIPE
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