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O QUARTO ENCONTRO

por feldades, em 20.07.25

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Oficialmente esse foi o ‘Quarto Encontro dos Moura Lima’, mas poderia ser considerado o ‘quinto encontro’ porque, no dia seguinte ao sepultamento de nosso pai, nós nos reunimos, pela primeira vez, a fim de encaminhar a solução de algumas pendências em decorrência de sua partida.

Desde que decidimos programar esse encontro anual, resolvemos fazê-lo na varanda do papai, que se tornou um espaço sagrado para todos nós. Era ali que o Velho, nos seus últimos anos, passava as horas fazendo palavras cruzadas, jogando cartas, teclando no seu notebook. E era também ali que ele recebia os amigos para uma boa prosa e um cafezinho esperto.

Desde então e a cada inverno, nós, essas “aves migratórias” que se encontram espalhadas de norte a sul do país, peregrinamos para o ‘Rancho da Bela’ para mais um evento. O encontro é lindo, animado, mas não pense o solitário leitor que o planejamento é fácil, porque não é. No grupo do zap sai faísca de tudo quanto é jeito. Há sempre um Moura Lima ranhetando com uma coisinha ou reclamando de outra: “A viagem é longa e penosa; as pernas incham e doem; as varizes incomodam; o estômago embrulha...” É um entojamento sem fim. Fato é que estamos envelhecendo e alguns já estão bem envelhecidos. Os irmãos mais jovens é que devem se pacientar conosco, os idosinhos.

A coisa lá acontece mais ou menos assim. No sábado, logo cedo, há uma gentarada espalhada por todos os cantos e recantos da casa. Além dos irmãos, há sobrinhos, tios e toda a cunhadagem. Chegada a hora da reunião, o irmão mais velho bate palmas e diz tonitruante: “Vamos lá, gente. Precisamos começar a nossa reunião. Daqui a pouco o almoço fica pronto e já estou com fome!” Nisso, os Moura Lima vão entrando na varanda enquanto outros vão “vazando” dali. Tudo parece pronto pra começar.  São onze irmãos, mas falta um e a reunião não pode começar sem ele. Então a procura começa pelos cômodos da casa, depois no terreiro, na casa vizinha e nada de achar o ‘Moura Lima desgarrado’. De repente, ouve-se a descarga de uma privada e do banheiro surge o “foragido”, que chega assustado e toma assento numa das cadeiras em semicírculo. Ato contínuo, fecham-se as portas que dão acesso à varanda e uma oração abre os “trabalhos”. É um ato bastante solene, mas já foi muito mais. Tanto foi, que um Moura Lima maldoso apelidou aquela sessão de “conclave”.

Dessa vez foi bem diferente e até divertido. Sabe por quê? Porque um tiozinho ficou perdido no meio dos Moura Lima. Ele não se deu conta do que aconteceria e permaneceu sentadinho ali, na varanda. Todos o olhavam e ele, meio sem entender o que estava acontecendo, ficou de “queixo baixo”. A sessão foi iniciada e o tio ali, muquiado. De vez em quando ele me lançava um olhar espantado, parecendo implorar para que eu facilitasse a sua saída. Matreiro, eu o ignorava com indisfarçável gozo. A reunião prosseguiu sem que alguém o incomodasse, e ele se aquietou. Finalmente, sentindo-se acolhido, o tio “levantou o queixo” e deu um belíssimo depoimento, valorizando o nosso encontro. Eu fiquei extasiado com a presença e com as palavras do tio Simeão.

FILIPE   

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MATEMÁTICA E CIDADANIA

por feldades, em 06.07.25

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“Odeio matemática!”

Não, eu não odeio matemática. Pelo contrário, sou para ela afeto, respeito e admiração. Sem a matemática eu seria um jovem-velho aborrecido com a vida e com as pessoas. A matemática me ajuda a ser feliz.

Mas essa minha verdade está longe de ser uma verdade universal. O que ouço sobre a ‘Rainha das Ciências’ não é nada lisonjeiro. Por vezes ela é temida, muitas vezes evitada e até mesmo odiada.  

A foto que abre esta crônica foi um flagrante da última aula que dei a um sobrinho. Ele também diz não gostar de matemática, mas desconfio de que a matemática goste tanto dele quanto de mim, de você e até daquele seu vizinho chato.

A ‘matemática básica’ é aquela que usamos no dia a dia, que é uma ‘coisa muito fofa’ e está ao alcance de todos. Qualquer pessoa que foi decentemente alfabetizada consegue aprender matemática elementar. Caso isso não aconteça, tenho duas explicações não necessariamente excludentes: desinteresse do aluno, despreparo do professor ou ambos.

Na lousa acima está um simples exercício de porcentagem que fora passado ao meu sobrinho. Na apostila dele a sugestão é de que o cálculo seja feito por multiplicação de frações. Ora, fração já costuma assustar a metade da humanidade... Agora, misturar porcentagem com frações não me parece uma boa estratégia para alcançar a paz com os números. Se você não tem familiaridade com as frações, deixe-as de lado por enquanto, porque há percursos sem necessidade de tropeçar nelas.

Os antigos lavradores que conheci na minha infância faziam cálculos bastante complexos envolvendo porcentagem e até juros, tudo isso “de cabeça”. Aqueles caboclos de antanho, que nunca pisaram numa sala de aula, vendiam e compravam, pagavam e recebiam (à vista “com desconto” ou a prazo com juros) sem calculadora nem sequer lápis e papel. Alguns até sabiam medir terras. Usando estaca graduada e cordas, eles calculavam áreas de sítios e até de pequenas fazendas. Incrível, não?...

Uma observação: as aspas acima sinalizam que ‘desconto para pagamento à vista’ é uma falácia.

Há que se universalizar o ensino da ‘matemática básica’, porque essa é acessível a todos nós. Já a matemática avançada requer talento matemático, que pouca gente tem. Eu, particularmente, fiz graduação na área e nunca fui matemático. Sabe por quê? Porque eu não sou bom em exatas. Com aquela “senhora” eu até tenho uma boa convivência, mas às vezes, como em toda relação, há um ‘problema para ser resolvido’. Aí eu fico preocupado, nervoso e passo muito tempo tentando ao menos entender o assunto. Enfim, resolvido ou não aquele “problema”, voltamos pacificados à agridoce rotina.

Encerro com uma pequena observação. Quem não domina rudimentos da matemática será dominado por uma ampla ‘fração’ de comerciantes, chefes, patrões e políticos – alguns deles muito cruéis. Cuidado, porque ‘matemática é cidadania’!

FILIPE

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