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MÁRIO

por feldades, em 31.08.25

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Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico.

Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria.

Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizonte, ele expressou um misto de preocupação e cansaço. 

“Está tudo bem com o senhor?”, perguntei. “Um pouco cansado de fazer isso”, ele respondeu, já voltando a varrer. E continuou: “Nada para limpo aqui. Com tantas lixeiras por aí e o pessoal faz questão de jogar lixo no chão”. E assim começou um pequeno bate-papo com o homem que, pela imagem, dá para perceber ser ele de vida bastante sofrida.

O Mário é gari há trinta anos. Antes desse emprego, foi funcionário numa usina de açúcar por uns dez anos. Perguntei se já está aposentado. Não está. “Apenas no ano que vem, se tudo der certo”, ele disse pouco confiante. “A saúde não ajuda mais. Até pouco tempo atrás eu estava afastado, estive internado”, reclamou.

Não perguntei que mal lhe aflige a saúde, mas quis saber se mora longe. Ele apontou para uns lados e disse ser logo ali, “subindo aquele morro”. “Mas a sua casa é própria, você não paga aluguel...” “Eu tinha uma casa onde criei meus filhos, mas não pude continuar morando nela. Achei melhor sair.” Ele falou de uns porquês que o fizeram mudar de endereço para ter de pagar aluguel e completou: “Antes a vida era sofrida; agora está mais suave”.

Indiscreto, perguntei se a esposa mora com ele. “Infelizmente a minha mulher faleceu há onze anos. A gente vivia muito bem, eu gostava dela e sinto muita falta. A vida é assim, fazer o quê...”, lamentou.

Ofereci um lanche ao Mário. “Rapaz, até que eu já estou com fome, mas não se preocupe”, disse ele dando uma leve batidinha na barriga. “Vamos à lanchonete”, eu propus. Aceito o convite, ele se apressou em terminar a varrição daquele espaço e me acompanhou. Noutra indiscrição minha, propus que fosse ao banheiro e lavasse as mãos para comer. Obediente, ele foi lá e voltou abanando as mãos ainda molhadas. Perguntei o que queria. “Qualquer coisa...” A moça interveio, dizendo que o almoço estava prontinho: “Hoje tem frango com macarrão, seu Mário!”. Ofereci o almoço. Ele coçou a cabeça pensativo e disse: “Ah, se não for caro pra você, pode ser...”  “O que o senhor quer beber?” “Não precisa, basta a comida”. “Moça, veja o que ele gosta de beber e acrescente.  Vou pagar e preciso subir, porque o ônibus deve estar chegando”.

A moça me passou o valor, paguei e nos despedimos.

O Mário é o trabalhador braçal socialmente invisível e desprezado. Vi no Mário aquele gari recentemente assassinado na capital mineira enquanto trabalhava. O Mário representa todos os garis do mundo. Viva o Mário!

FILIPE

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QUARENTA ANOS DE PADRE

por feldades, em 18.08.25

foto do chieta.jpeg

Esse é meu irmão José de Anchieta, que completou exatos quarenta anos de presbiterato no último dia quatro. Eu deveria ter escrito algo naquele dia, mas acabei optando por minhas costumeiras desimportâncias. Ademais, esse mano costuma comemorar aniversário por vários dias, chegando a mês de festejos! Então penso estar valendo o escrito aqui.

Da irmandade, talvez eu seja aquele que tenha acompanhado mais de perto a trajetória desse irmão nos tempos de seminário. Isso porque morei por uns tempos em Juiz de Fora e lhe fazia frequentes visitas. Pelo menos de uma coisa me orgulho na exclusividade: fui o único da família que assistiu às três cerimônias de sagração desse clérigo: os Primeiros Votos, na capela do Seminário Santo Antônio; o Diaconato, numa igreja do bairro Santa Cruz, também em Juiz de Fora; e a Ordenação Presbiteral, essa acompanhada por todos os familiares, na igreja matriz de Guiricema – todos esses eventos no estado das Minas Gerais.

Ninguém sabe de um segredo, que talvez continue secreto pelo fato de esse blog ser uma ‘entidade semioculta’ (poucos o acessam). Na cerimônia dos Primeiros Votos do meu irmão, eu fiquei lá atrás da multidão que se aglomerava na pequena capela. Eu não conhecia ninguém ali, embora alguns me identificassem como ‘o irmão do Anchieta’, seja pela pequena semelhança física, seja por que ele já havia me apresentado. Mas eu me sentia aconchegado e até protegido pelo anonimato, e sorvi cada momento daquela celebração, tomado de enlevo e banhado de lágrimas. Ali pude ver meu irmão, enfim, sendo “coroado” após longos anos de estudos e privações. Sobre os estudos, apenas ele pode falar, mas das privações acredito que todos nós, irmãos, podemos dar algum testemunho. O fato é que a vida de seminarista do ‘Mano Véio’ não foi nada fácil.

Chorei também na cerimônia de Diaconato, mas chorei menos – seja por que as coisas já estivessem encaminhadas para o próximo degrau, ou talvez por outro motivo. Naquela tarde, eu me lembro bem, eu sentia um mal-estar físico, não era nada emocional, o que dificultou a absorção e contemplação de algo tão belo e tão raro.

Já na cerimônia de Presbiterato eu não chorei, embora tenha ficado muito emocionado por ver meu irmão realizar o grande sonho de infância. Uma vocação que lhe nasceu nos seus primeiros anos e com ele cresceu, floresceu e frutificou. Naquele dia, eu me lembro, eu estava às voltas com questões bastante comezinhas. Infelizmente, são essas humanas preocupações que nos desviam do inefável.  

Após longos quarenta anos, a vida sacerdotal desse mano continua exuberante qual árvore frondosa, que dá sombra, abriga e produz frutos abundantemente.

Parabéns, Padre Anchieta. Muita coisa tenho para escrever sobre sua caminhada desde o dia em que saiu de casa para esse nobre compromisso, mas deixo para outro momento. Quem sabe um dia volto a rememorar aqui...

FILIPE

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O BANANINHA

por feldades, em 03.08.25

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Nunca pensei que um dia eu pudesse agradecer, pelos “grandes serviços prestados”, esses dois notáveis caricaturados acima. Um pouco mais à frente tento explicar o porquê desse meu estranho contentamento com tais ‘roedores’.

Um deles, o deputado bozó, também conhecido como ‘Bananinha’ pelos que lhe são íntimos, fugiu para os ‘estados unidos’ (aqui sempre com minúsculas) a fim de preparar um golpe. Mas o golpe parece que não vai acontecer – não por falta de esforço (justiça lhe seja feita, ele é muito esforçado), mas por incompetência mesmo. Sim, o ofício da maldade exige, além de empenho, bastante inteligência, e essa parece ser escassa naquela cabeçorra.

Primeiramente, eu agradeceria ao ‘Donald’ pelos “bons serviços”, que, taxando de forma vil os produtos brasileiros, acaba dando uma preciosa contribuição ao meio ambiente. Isso porque, se a carne bovina perder mercado, a pecuária refluirá, reduzindo o desmatamento da Amazônia. Com menos gado, há menos soja e mais árvores – assim espero. Só que não há garantia disso, porque o ‘ogro laranja’ pode recuar e abraçar novamente os ‘parças’ boiadeiros.

Agora falo do Bozó Bananinha, que foi para os ‘estados unidos’ fazer futrica contra o Brasil. Veja se pode uma coisa dessas?... Pois esse “patriota” está conspirando contra os brasileiros e ainda tem apoio de brazucas! Eu não diria que o Dudu Bananinha é um ‘boçal’, porque esse termo é ofensivo ao povo escravizado. Melhor seria qualificá-lo de ‘imbecil’ mesmo, porque isso todo mundo entende e ninguém se ofende, nem o próprio. E vou tentar explicar esse porquê em apenas um parágrafo.

Pois não é que o Dudu Bananinha conseguiu a façanha de cindir o seu próprio grupo político?... Tentando promover um colapso nas instituições brasileiras a fim de livrar o genitor da cadeia, a besta praticamente quebrou o agronegócio, onde estão seus principais financiadores de campanha. Como se não bastasse o tarifaço de Trump, o “esperto” ainda disse numa de suas laives o seguinte: “Se Deus quiser, em breve, um porta-aviões chegará ao Brasil e ficará ancorado no lago Paranoá, em Brasília!”. Opa! Um parágrafo é pouco e vou gastar outro com o ‘bananinha’.

Vamos pensar num porta-aviões americano aqui, no Brasil. Esse trambolho de guerra serve para que mesmo? Para lançar mísseis e fazer decolar aviões de guerra. Mísseis e caças servem pra atacar quem? Por óbvio, instalações militares do inimigo que, nesse caso, os quartéis brasileiros seriam bombardeados. Bom, então o ‘bananinha’ está articulando para que os americanos invadam o Brasil e ataquem as forças armadas brasileiras?! Que coisa, hein?! Quem diria isso de um deputado federal brasileiro, “cristão”, “temente a Deus” e muito patriota!  Ainda não acabou, e preciso de outro parágrafo para encerrar o assunto ‘bananinha’.

O Dudu Bananinha quer que o porta-aviões seja ancorado no lago Paranoá, em Brasília! Mas como isso seria possível? Uma embarcação dessas tem aproximadamente ‘cem mil toneladas’ e só navega em grandes mares. É impossível levar um porta-aviões até Brasília, até porque o percurso em terra chega a quase ‘mil quilômetros’!

Só mesmo o “genial bozó bananinha” pra dizer e querer fazer tanta bestagem.

FILIPE

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