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4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada. Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura!
Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar dormindo ainda, porque toma remédio forte.”
5) Desisti da minha amiga e desisti de voltar de táxi também. Pensei: ele cobrou quinze reais pra me trazer, serão outros quinze reais pra me levar, e tá ficando caro esse passeio... Com esses quinze reais economizados, eu tomo um bom café!
A casa da amiga fica no morro. Desci meio sem saber pra onde ia e perguntei a um senhor que pintava a fachada de uma casa que caminho me levaria à rodoviária. Ele me orientou. Mais à frente, perguntei a outra pessoa pra confirmar a informação anterior. Estava certinho.
Já estava perto das nove horas quando avistei uma padaria e parei ali para o desjejum, que normalmente é leite com chocolate e pão com manteiga. Entrando, cumprimentei a moça do balcão e perguntei onde fica o banheiro – eu tinha uma “emergência líquida” e queria escovar os dentes também. A moça me deu a chave e apontou para um quartinho, onde seria o tal banheiro, e pra lá fui alegremente.
6) A chave que a balconista me deu tinha um pedaço de madeira como chaveiro, mas isso não tem importância aqui. Abri a porta e vi que o banheiro estava limpo e até perfumado. Acima do vaso sanitário lia-se: “respeite esse banheiro porque senhoras usam também”. Respeitei o banheiro, é claro, mas eu tinha que lavar as mãos e precisava escovar os dentes. Cadê sabonete? Não tinha. Olhei em cima de um armário e vi muitos produtos de limpeza. Detergente? Não tinha também. Abri o armário, fucei lá e não achei sequer um sabão em pó – nada que eu pudesse usar para lavar as mãos. Então peguei um desinfetante e aproveitei pra desinfetar mãos, maçaneta, chave, chaveiro, tudo... Terminado esse serviço, procurei uma mesa e esperei meu café, que nunca é café, mas achocolatado – eu já disse isso. Pedi, além do chocolate, um pedaço de broa e dois bolinhos de chuva. Já longe do banheiro, mas não do desinfetante, que se me impregnara e me acompanharia por um bom tempo ainda, regalei-me com o desjejum. Aquela broa mineira, os bolinhos de chuva, até o achocolatado, que nem tinha tanto chocolate assim, estavam uma delícia! E o melhor: aquela fartura toda me custou apenas ‘seis reais e dez centavos!’ Repito: ‘seis reais e dez centavos!” Gostei muito e gastei pouco.
(continua...)
FILIPE
Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.
1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila.
Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um fígado humano.
2) Meu ônibus encosta, passo pelo funcionário e procuro a poltrona 13, que estava vazia, mas não disponível. No chão, duas bolsas enormes ocupavam o espaço onde eu descansaria os pés, impedindo-me de tomar assento. Olhei para os lados e não vi ninguém que pudesse tirá-las dali. Decidi eu mesmo removê-las e me aninhei no canto. Nisso chegou a dona das bolsas. Ela me olhou espantada e eu retribuí o olhar com ares não muito amorosos. Perguntei se ela não queria que eu pusesse uma das bolsas no bagageiro – numa tentativa de apaziguamento. “Minha bolsa não fecha!”, ela disse quase gritando. Deixei a mulher com suas bolsas que não fecham de lado e tentei cochilar, mas essa vizinha estava impossível. Ela começou a conversar com seus irmãos de igreja, depois abriu um áudio de ‘onze minutos’ (conforme o pastor mesmo disse) e, em volume bem alto, começou a pregação. Achei a coisa tão medonhamente inusitada, que gravei uma parte daquilo.
3) Espremido entre as bolsas da mulher, segui viagem sem ao menos poder me esticar mais confortavelmente. Por fim, a pregação do pastor acabou, as conversas com os irmãos de igreja também, mas a lanterna do celular e o mexe-mexe da vizinha nas suas bolsas me aturdiam. E assim, já bastante moído, cheguei a Visconde do Rio Branco, que ainda não seria meu destino final.
(continua...)
FILIPE
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