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12) Assim que terminamos de almoçar, a tia se levantou e foi à pia pra lavar a louça. Enquanto ela lidava com pratos e talheres, peguei a comida sobrante e fui transferindo para uns potinhos de plástico que comprei no mercado logo em frente. Nesse momento, ela parou de lavar e me olhou cabreira. Perguntou se eu tinha comprado em São Paulo, e emendou dizendo que gosta de deixar a comida dentro das panelas, porque fica mais fácil pra requentar. Então a convenci de que os potinhos são mais práticos pois ocupam menos espaço na geladeira. Ela acedeu.
Embora de bucho cheio, decidi tomar banho, trocar de roupa e dar uma cochilada. Enquanto eu me organizava, ela correu ao quarto e preparou minha cama, aquela que a vovó usou até ser internada. Como da outra vez que dormi ali, a tia quis me tranquilizar, dizendo que a vovó não morreu naquela cama. “Ela morreu no hospital!”, enfatizou. E, como de outras vezes, falou das idas e vindas pra acompanhar a mãe nos seus estertores. “Ninguém foi ao hospital. Somente eu ficava lá, depois corria pra casa, tomava banho, trocava de roupa e voltava pra ficar com a mamãe”, disse queixosa.
A roupa de cama bastante especial, com lençol e edredom limpos e perfumados, dava conta de que a visita lhe era de grande agrado. Já de banho tomado e trocado, deitei-me um pouco, mas não consegui dormir. Minha mente não parava devido aos compromissos que eu teria naquele curto passeio. Precisava fazer umas visitas e a tia tinha algumas demandas também. A pia da cozinha entupida, a torneira do banheiro emperrada e a porta do quartinho, onde já teve um fogão a lenha, estava pendurada na dobradiça por apenas um parafuso. E o telhado, com algumas telhas quebradas e outras afastadas pelos gatos traquinas, teria que ser consertado antes da chuva, que não tardaria.
13) Desisti da sesta e me levantei. Voltei ao mercadinho e comprei umas bananas, tomates, pimentões, jilós, cebolas, e peito de frango... Acho que foi só isso. Cheguei com as compras e a tia se incomodou, querendo me pagar. Mas a coitada não tinha dinheiro e não sabia como fazer pra continuar com o gesto de “vou pagar e me fale quanto custou...”.
Eu sabia que ela andava meio descapitalizada, e ainda que ela tivesse dinheiro sobrando, jamais eu permitiria que ela pagasse aquela despesa. Acomodei as coisas na geladeira e comi algumas bananas. Banana-prata!, que é a banana preferida dela e de quase todo mundo da classe média – descobri isso recentemente. “Quanta banana você comprou! Não precisava...” Precisava, sim. Descobri que ela gosta, come várias por dia, mas em fim de mês, com a grana curta, poucas bananas restavam na fruteira.
Conversa vai, conversa vem, a tia tocou num assunto que tem lhe tirado o sono ultimamente. “Meu Deus, eu não sei quanto tempo vou viver, mas se sobrar alguma coisa do que tenho, queria dar um pouquinho pra cada sobrinho, e não apenas pra uma ou duas pessoas.” “Uai, tia. Não estou entendendo...” “É que me levaram ao banco e me deram um monte de papel pra assinar. Eu assinei... Agora fiquei sem nada!” “Tia, a senhora não doou nada pra ninguém. Tudo continua sendo da senhora!”
Ela me ouviu, mas não se convenceu. Então eu disse que ela não perdeu nada, que poderá doar tudo em testamento para quem ela quiser. Eu disse que o documento no banco é uma procuração para que, caso ela fique doente e sem condições de movimentar a conta, um sobrinho possa sacar o dinheiro e pagar as despesas da casa.
Expliquei que isso acontece para quem está sozinho, como ela. Mais uma vez a tia me ouviu atentamente e agora parece que entendeu. Aparentemente ela ficou tranquila, mas as coisas não estavam resolvidas. Ainda!
(continua...)
FILIPE

Todos os dias eu me levanto bem cedo, abro o celular, dou uma espiada nas mensagens e costumo dar uma olhadinha rápida no noticiário também. Ultimamente tenho evitado as notícias e me atenho mais a podcasts de literatura e pequenas estórias agridoces. Também ouço muita música, mas música popular brasileira!
O dia de hoje não seria diferente. Após a checagem de praxe, deixo o celular, faço a toalete e saio para cumprimentar meus cãezinhos, um por um. Em seguida, começo as minhas preces. Enquanto rezo, vou caminhando pelo quintal num exercício físico e espiritual que costuma passar dos três quartos de horas. Esse é um momento muito especial em que fico tomado de enlevo, numa quase epifania.
A noite foi serena, o sono tranquilo porque embalado por grossos pingos de chuva que começaram ao entardecer e se estenderam noite adentro até a madrugada. Ao amanhecer, o tempo estava firme e pude caminhar a pés enxutos. O noticiário que estava no celular quando me levantei era anódino, nada de anormal piscava na tela.
Terminada minha “tarefa”, e ainda sob aquele arrebatamento que só as almas monásticas conhecem, pus água na chaleira para o chimarrão, bebida que sorvo pausadamente enquanto folheio um livro. Enquanto a chaleira chiava, peguei novamente o telemóvel. Naquele momento, assombrado pela imagem dantesca que abre esta crônica, fui arrancado de meu arrebatamento para tomar pé da realidade. Logo abaixo da fotografia, lia-se “Trump invade a Venezuela”. Incrédulo, dei uma deslizada na tela e não havia dúvidas: Trump assaltou a Venezuela! O coração descompassou e quase chorei de tristeza. Não, eu não choraria pelo Maduro, o opressor de seu povo e algoz da Guiana. Mas choraria pelos venezuelanos – um povo sofrido que vê seus barcos e navios atacados e sequestrados, além dos marinheiros assassinados pelos ianques no litoral de seu país.
Todavia, meu desalento sequer pode ser comparado ao daquele povo. Imagine o desespero de quem, sobrevivendo ao bombardeio, teve a casa destruída, e sob os escombros muitos corpos – alguns em agonia.
Os Estados Unidos violentaram a Venezuela com a fúria de um predador e não há força que os detenha. Os norte-americanos, se quiserem, dominam militarmente toda a América e grande parte da Europa e Ásia – exceto as potências nucleares, porque ali “o buraco é mais fundo”.
Penso que neste século deverá haver a formação de três grandes blocos geopolíticos: a Ásia dominada pela China, a Europa curvada à Rússia e a América subjugada pelos Estados Unidos. Quem viver verá, e sofrerá. Descreio na civilização seja ela cristã ou pagã.
“Se não há Deus, tudo se permite”, disse Dostoievski. ‘Se não houvesse justiça divina, estaríamos sob o reinado de Satã’, digo eu.
FILIPE
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