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O "LOUVA-DEUS"

por feldades, em 15.02.26

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A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.

 

Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo.

Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz.

Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal.  E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa.

Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um celular emprestado. “Para que o celular?” “Pra chamar a polícia!” “Mas o que está acontecendo? O seu pai não está em casa?”  “Ele não é meu pai e a minha mãe quer chamar a polícia pra ele.”

Era por volta do meio-dia quando aquelas crianças me chamaram ao portão. Por ser assim tão cedo, tão dia, pensei ser algum exagero delas, ou da mãe, e não dei curso às minhas preocupações. A luz do sol parece afastar certos perigos, que se supõem afeitos à escuridão. Com esse entendimento, eu disse apenas que os pais deveriam se acertar e, não havendo acerto, que a mãe fosse à delegacia de polícia para registrar queixa. Por isso, não emprestei o celular nem chamei a polícia, mas deveria ter feito uma coisa ou outra.

Há um ditado idiota que diz: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Discordo cabalmente. Mete-se a colher, o garfo e a faca! Foi pensando nesses “talheres”, que dias depois procurei uma advogada para notificar extrajudicialmente o sujeito. A advogada foi muito simpática, mas preferiu “não se meter” e me orientou a fazer denúncia anônima no site do Ministério da Justiça. Procurei outra advogada, que também se esquivou, alegando razões semelhantes às da colega. “A cidade é pequena... todo mundo se conhece... fica difícil... você sabe como é, né?...” Pensei: “Puxa vida... mas nem pagando?!”

Todo aquele redemoinho de más recordações que me assaltaram durou uma fração de minuto, e eu tinha de fazer alguma coisa. Então resolvi gritar, mas gritar alto, cada vez mais alto. Voltei à varanda e berrei a plenos bofes: “O QUE FOI, VIZINHA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA! PODE FICAR TRANQUILA, PORQUE A AMBULÂNCIA ESTÁ VINDO!”.

A minha voz tonitruou por vales e montes, alarmou a vizinhança, mas me trouxe de volta o silêncio noturno. Não sei por quê, mas naquela casa está reinando uma inquietante quietude.

 

Por que louva-deus? Porque aquele desinfeliz pontua todas as suas frases com um “Glória a Deus”, e não há glória nos seus atos nem parece haver Deus na sua vida. Para mim ele é um ‘louva-deus’, mas não o inocente inseto.

Nota: estou de mudança para  feldades.blogspot.com 

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MEMORIAL DE VIAGEM – SÉTIMA PARTE

por feldades, em 08.02.26

15) Um pouco cansado, deixei a pia e saí para tomar um ar. Nisso a tia voltou a me interpelar sobre a acompanhante, que já deveria ter chegado e ainda não apareceu. Eu disse pela quarta ou quinta vez que a moça não viria, e quem ficaria de acompanhante naquela noite seria eu. Mas a tia não se deixou vencer. “Meu Deus, eu estou pagando para ela vir todos os dias, e agora não vem?... Então vou descontar os dias que ela faltar...” Nesse momento eu fiquei bravo, mas tentei mitigar minha brabeza, apenas dizendo que a moça precisa descansar. E que todas as vezes que eu estivesse ali, ela não precisaria vir. A tia decidiu ser mais direta e atacou: “Pois ela teria de vir, sim, ao menos pra catar os cocôs dos gatos aqui no quintal!” “Ah, tia... então essa é a sua preocupação?! Pois está resolvido. Vou catar agora!” Ao ouvir isso, aquela senhora entrou em parafuso, não sabendo se comemorava ou embrabecia. “Ah, não acredito que você vai fazer isso!...” “Vou, sim. E me fale como devo fazer”. Ela me deu as instruções, apontando para uma vassoura e uma pazinha, que eram as ferramentas exclusivas dessa obra. Então peguei a vassoura e a pá, recolhi as fezes da gataiada e joguei dentro de uma sacola que ficava num tambor na varanda. Nessa hora a coisa azedou pra mim. “Você jogou ali dentro?! Ah, meu Deus, não era pra pôr ali, não. Aquilo ali é reciclagem. Ah, meu Deus!!!”, lastimava a pobre mulher. “Calma, tia. Eu pego de volta.” “Não tem jeito. Vocês não poderiam dispensar a funcionária. Ela que sabe fazer isso. Ah, meu Deus!...”

Abri o tambor, virei, espalhei tudo no chão e fui recolhendo cuidadosamente o material reciclável para pôr de volta, enquanto deixava ao lado os excrementos. Ao final, deixei tudo como estava, recolhi mais uma vez a titica dos gatos e a joguei além do alambrado.

De novo a tia: “Olha o que você fez!... Sujou toda a reciclagem!” “Não sujei nada, tia. O cocô está sequinho. Se eu pegasse sem luvas, a mão continuaria limpinha”, eu disse num quase sorriso – mais de aflição que contentamento.  A tia até parecia achar graça no que ouviu, mas não quis rir e emendou: “Onde jogou o cocô?” Apontei orgulhoso para os lados além da cerca. Ela nublou-se novamente: “Ali é o quintal do vizinho! Ah, meu Deus... Que falta faz a minha funcionária!...” “Não, tia, pode deixar que eu dou um jeito.” Passei para o lado do vizinho, peguei todos aqueles cocôs, que a essa altura já deveriam estar bastante “cansados” de tanta mudança, e os joguei pra bem longe, lá num matagal. Minha tia me olhou com uma pontinha de desconfiança, mas não quis perguntar mais nada e entrou.  

Aqui chego ao fim dessa labuta, mas tem mais.

(continua)

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MEMORIAL DE VIAGEM -- SEXTA PARTE

por feldades, em 01.02.26

14) A pia da cozinha estava entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção que me paralisava.   De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade de cloro e me pediu pra esperar aquilo fazer efeito. Aguardei por um tempo e a pia foi esvaziando, mas numa vagarosidade...

Perguntei à tia se ela tinha arame. Tinha, e um bom arame. De aço, forte e comprido. Pequei um pedaço de pano e amarrei na ponta daquele arame e chuchei no encanamento. Inicialmente, da pia para baixo, e soquei, fui socando, mas nada da coisa desentupir. Depois, resolvi fazer o percurso inverso. Do lado de fora, abri a tubulação de forma que eu pudesse enfiar aquele arame até alcançar a pia. Foi uma luta. Já escurecia e as lojas iam fechar. Caso eu precisasse de comprar algo, só no dia seguinte. E fui socando e observando aflitivamente. Eu não estava tendo êxito, mas insisti. De súbito, um jorro veio de encontro a mim, molhando minhas mãos e reacendendo meus ânimos. Retirei o arame e a água fluiu “sorridente”, esvaziando a pia.

Entusiasmado agora, fui lá, abri a torneira e lavei bem as mãos por duas razões: uma porque estavam sujas, e outra porque eu precisava testar o funcionamento da pia. Estava tudo perfeito. No entanto, uma faísca de preocupação apagou minha alegria quando ouvi a tia dizer:  “Ô diacho, está vazando água debaixo da pia...” E estava mesmo! Havia um vazamento misterioso que, com o tempo, poderia fazer uma molhaceira danada – não apenas embaixo da pia, mas também nas adjacências. Pensei no pior: o arame deve ter perfurado a tubulação e eu não ia conseguir consertar aquilo, principalmente à noite.

Mas a ‘minha salvação’ veio da própria tia Geni, quando ela me disse: “Ah, eu pus cloro, que é terrível e deve ter provocado esse vazamento.” Dando uma de migué, fui logo concordando. “Ih, tia, é verdade! Cloro é muito corrosivo. Agora precisamos esperar pra ver como resolver isso. Se amanhã o vazamento continuar, talvez tenha de chamar um pedreiro para consertar, mas vou tentar fazer algo sem que precise dele.” Dito isso, peguei uma toalha velha, pus no piso embaixo da cuba a fim de absorver a água que marejasse e a deixei lá. No dia seguinte eu teria de buscar uma solução.

 

Continua...

 

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