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AUSÊNCIA

por feldades, em 20.11.22

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Papai faria 92 anos neste 20 de novembro. Descobri cedo que ele gostava muito de seu aniversário. Mas descobri tarde que ele gostava de festejar o aniversário com bolo. Nos últimos anos, quando o irmão mais velho não lhe levava um bolo, papai mesmo dava um jeito. Mais de uma vez aconteceu de haver dois bolos no aniversário do papai: o dele e o do Mano Véio. Uma fartura!

 

Também tarde descobri que papai gostava muito de doces e de queijo. Antigamente a vida não permitia “luxos”, e na geladeira de meu pai não havia dessas iguarias. Mais antigamente ainda, na casa de meu pai nem geladeira havia. Nos últimos tempos, porém, papai tinha queijos e doces à farta numa espaçosa geladeira. Quando lhe batia vontade de comer um naco de queijo com goiabada, não importava se o almoço estava quase pronto ou se era noite alta. Papai ia à cozinha, abria a geladeira, pegava o que queria, sentava-se e se fartava como um rei.

 

Certa vez, papai me pediu para fazer um arroz doce. “Tô com muita vontade de comer arroz doce. Você faz pra nós?...” Claro, pai!”, respondi. Pus arroz numa panela pra cozinhar e o leite pra ferver. Papai ficava por perto, observando tudo. E, sempre que achava necessário, dava uma sugestão: “Porque você não faz assim... Deixe cozinhar mais um pouco... Ponha mais leite...” Caramelei um pouco de açúcar para dar cor ao doce e, quando fui acrescentar açúcar cristal, papai se aproximou e disse com severidade: “Não ponha mais açúcar, senão ninguém consegue comer o doce.” Obedeci. Deixei o arroz doce em fogo brando e esperei. Quando meu pai saiu, corri ao açucareiro, peguei rapidamente umas duas canecas de açúcar, despejei na panela e mexi freneticamente. Passados uns cinco minutos, o Velho estava de volta e já com um prato na mão, muito ansioso pra provar do meu arroz doce. Desliguei o fogo, destampei a panela e pus umas duas conchas cheias no prato dele. “Quer mais?”, perguntei. “Basta!”, ele respondeu. Com o prato fumegante, ele se sentou à mesa, entrelaçou as pernas como somente ele conseguia fazer, e foi mineiramente comendo pelas beiradas o doce quente. Com medo de levar pito pelo ‘doce tão doce’, fiquei de olho nele. Mas não houve bronca. Terminada a “tarefa”, ele se levantou e disse aos que estavam por ali: “O doce ficou no ponto. Se eu não estivesse aqui, ninguém ia conseguir comer, porque o Filipe queria pôr mais açúcar!”. Satisfeito, apenas sorri.

 

Da última vez que visitei o papai, havia uma panela de arroz doce no fogão, que ele mesmo fez. Eu quis provar, mas ele me advertiu: “Esse doce fica melhor com queijo. Provei e senti a alta concentração de açúcar. Gostei e repeti. O que sobrou, pus num pote e guardei na geladeira. Pensei: ele não vai querer mais, porque esse doce está muito doce. Vai sobrar para mim. Que nada! Mais tarde, quando voltei pra procurar o doce, um desconfiado ‘velhinho’ me disse: “Se tá procurando doce, não vai achar. Tinha um resto no pote aí, mas eu já lambi tudo”.

 

É... Este é o nosso primeiro ‘20 de novembro’ sem abraço nem bolo nem arroz doce nem queijo. E sem telefonemas!

 

FILIPE

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12 comentários

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De Aureliano a 20.11.2022 às 00:59

Que maravilha de texto! Que dor no coração pelas últimas palavras: " 20 de novembro sem arroz doce, sem bolo, sem queijo, sem telefonemas".
A expressão mais forte: "sem telefonemas!" Nem uma mensagem, nem uma foto atual, nem um "Deus abençoe, meu filho!"
Só resta a saudade. Só restam as boas lembranças que papai deixou em nosso coração. Resta-nos guardá-las no coração e meditar sobre elas. Agradecer sempre.
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De Frei Gabriel a 20.11.2022 às 01:12

Que primor, Mano!
Obrigado por essa singela homenagem a esse homem que para nós era somente "o Papai!" Mas essa palavrinha fala tudo sobre ele, para nós, seus filhos privilegiados, agora desconsolado! Desconsolados, não, porque com ele aprendemos a confiar nas promessas de Nosso Senhor: "hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!" Até o céu Papai! Feliz Aniversário!
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De José De Anchieta Moura Lima a 20.11.2022 às 01:30

Muitas histórias estarão por vir. Cada irmão realmente trazendo as boas recordações do nosso querido papai. Deus o acolha e possa na eternidade feliz continuar saboreando do doce Reino do Senhor da Vida! Amém!
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De Andréa Piffer a 21.11.2022 às 14:21

Que lindo! Triste sim a ausência, sei bem, mas você tem o dom de deixar alegre esse texto com as advertências de seu pai que me encantam sempre. Parabéns, professor, a você pelo texto e ao seu pai por esses 91 aniversários bem vividos.
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De Anónimo a 23.11.2022 às 21:51

Texto comovente!
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De Carolina Lasco a 16.12.2022 às 12:07

Comovente seu texto Felipe.

Como são lindas essas memórias quotidianas... Pena que muitas vezes não estamos tão atentos à elas não é?

Uma vez ouvi que as pessoas só morrem quando não lembramos mais delas. Não é o caso de seu querido pai. Nem do meu.

Lindo texto.
Obrigada
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De feldades a 19.12.2022 às 02:13

A Carol por aqui... Seja bem-vinda! Obrigado pela visita.

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