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A GAMELEIRA

por feldades, em 10.06.16

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Eu a descobri garbosa e poucos sabem de sua existência ou por ela não se importam. Cresceu silenciosa, como crescem as árvores, e sua copa já alcança as alturas – uma enormidade. Lembra uma catedral gótica, quando observada a partir de seu tronco repleto de nervuras. Antes, disputava fiapos de sol com a vizinhança galhuda e folhosa; hoje, reina soberba por sobre a ramagem. Balançando ao vento, seus galhos, feito longos e encurvados braços, parecem desdenhar de mim e dos arbustos – uma insignificância rasteira cá embaixo. Brotando de sua base, sinuosas e robustas raízes se estendem pelo solo como serpentes em fuga.

 

Quando criança, tinha medo das gameleiras, pois diziam serem elas mal-assombradas. Havia uma dessas, um pouco distante de nossa casa, enorme, gigantesca! Crescera em meio a um rochedo com reentrâncias cavernosas, onde urubus nidificam. Morreu prematuramente, ainda uma ‘jovem’ centenária, e dela restou o caule desprovido de galhos, semelhante a um gigantesco braço nu erguido em permanente protesto.  Seu tronco repleto de catanas, como convém às gameleiras, é de difícil acesso.  Medrava ao passar perto daquela árvore, onde havia um caminho estreito e margeado por uma espessa vegetação. Os antigos – sempre eles! – juravam haver ‘coisas do outro mundo’ naquelas bandas. Passando por lá à noite, só não corria de olhos fechados pela óbvia razão de que eu erraria o caminho e adentraria o matagal.

 

A fama da defunta gameleira, como a de outras tantas, não é apenas de assombração.  Muita gente se beneficiou delas, pois as ‘velhas benzedeiras’ de antanho tinham o costume de ‘pregar tosse coqueluche’ no seu tronco. Diziam-se que, à meia-noite e em determinadas ocasiões, as curandeiras acorriam àquele tronco munidas de martelo, prego e muita fé. A cada batida, uma prece para a moléstia ficar cravada para sempre no lenho gameleiro.

 

Mas os camponeses não se serviam apenas das propriedades miraculosas da gameleira a fim de pôr fim a suas enfermidades. O termo ’gameleira’ deriva de ‘gamela’, um recipiente de madeira que tinha múltiplas funções na casa dos caboclos. Havia gamelas para guardar ou lavar alimentos e gamelas usadas como penicos. Meus ancestrais usaram desses utensílios, que eram feitos a partir das tais catanas da gameleira. O gameleiro – artesão fazedor de gamelas – cortava com machado aquela protuberância, preservando a árvore, e a esculpia de forma a torná-la uma espécie de tigela. Na minha casa havia uma dessas gamelas que mamãe usava para alguma coisa na cozinha.

 

Naquelas redondezas, muitas gameleiras foram dizimadas por sitiantes ambiciosos ou temerosos de ‘almas-penadas’. Não se usam mais gamelas e o que dá lucro é capim, que engorda o gado e o bolso. Por isso, limpam os pastos de árvore ‘agourenta’ para produção de forragem.

 

Protegida de superstições e das mundanas ambições, cresce formosa a minha rica gameleira. Sabedora da iniquidade humana, resolveu fixar-se num despenhadeiro inóspito, em terreno de pouca valia, onde apenas tatus e gambás se amoitam. Mas não somente tatus e gambás, porque também eu, ainda que em pensamento, escondo-me naquelas brenhas para me curar do fastio quando a vida me enfada.

 

FILIPE

 

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10 comentários

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De Adrisia Lima a 10.06.2016 às 12:53

Lindo, lindo, parabéns.
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De everton3729@hotmail.com a 10.06.2016 às 13:01

Caso Espinosa esteja certo em sua filosofia (que ensina que tudo no universo é apenas uma substância), quando sairmos das tramas desta vida e formos para o outro plano, as gameleiras poderão nos contar as barbáries da raça humana.
Gostei do trecho "Sabedora da iniquidade humana".
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De Anónimo a 10.06.2016 às 18:29

Adorei!
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De Carlos Lopes a 11.06.2016 às 00:11

Bela foto e belo texto !

Me perdoe a ignorância, mas agora que estou sabendo que esta árvore é uma gameleira...

Interessante que sempre me senti atraído por elas, me lembro quando criança ficava contemplando essa exótica árvore, me sentia como uma formiguinha e imaginava mil coisas; se soubesse desse lado "sombrio", seriam mais importantes pra mim.
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De aureliano a 11.06.2016 às 21:02

Passei, várias vezes, quase sem respirar, de olhos esbugalhados para as bandas da tal gameleira, torcendo para que ninguém aparecesse por ali. Aliás, Filipe, além de dizerem que aquela gameleira era mal-assombrada, nomeavam algumas pessoas da região, um tanto quanto andarilhas, que pernoitavam ali. Tinha um medo terrível de passar naquele trecho do caminho!

Belíssima crônica! Você faz os pensamentos e o coração tomarem "forma de viagem" nestes relatos, além de nos ajudar a contemplar, com olhos divinizados, as belezas da Criação. Mais uma vez: Valeu!
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De frei Gabriel a 12.06.2016 às 03:01

Ah, Filipe, como eu já passei medão ao ter que caminhar na escuridão da noite por estreitos trilhos, voltando de novena de Natal, lá pelas 10 da noite, lá pelas bandas do Recreio, quando seminarista. Lá na frente, estufando sua fronde em meio às ondulações das pastagens, levantava-se a colossal e ameaçadora figura, prenhe de assombrações e maus espíritos amedrontadores, aguardando incautos noctívagos para os devorar por dentro com imaginações as mais escabrosas e aterrorizantes. Uma, que ficava entre o Zé Casqueirinho e nossa casa na S. Montanha entrelaçava seus macabros braços a uma companheira que lhe dava altura, e aqueles agarros vegetais produziam gemidos que faziam doer a alma de pena e de susto. Essas bobagens que se nos incutiam quando crianças nos trouxeram muitos medaços, mas também deixaram na memória interessantes lembranças de lugares, de contos, de pessoas, de um mundo fantasioso, e também saudoso. Valeu mano pela bela construção. Esse negócio de catanas estou aprendendo agora, e sobretudo nunca ouvira falar que a palavra gameleira liga-se a gamela. Vivendo e aprendendo, ou melhor lendo e aprendendo. Parabéns!
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De Anónimo a 12.06.2016 às 11:32

Felipe, você me fez voltar aos 7 anos de idade, quando, eu, a Maria , e a Maura, tivemos a terrível "tosse coqueluche", apanhada na escola. Nesse tempo, nasceu minha irmãzinha Cinira, que não resistindo a malvada coqueluche, que não há suportou,vindo a morrer com pouco mais de um mês de vida. Quanto a nós outros, fomos levados a uma antiga gameleira, pela nossa vizinha Maria Martins,que pregou três pregos na tal gameleira, com o fim de livrarmos de tal incômodo.
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De Anónimo a 12.06.2016 às 13:20

Este é o senhor José Lopes, meu querido pai.
Uma prova de que não inventei nada: a gameleira é respeitável.
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De CECILIA a 13.06.2016 às 19:33


Muito boa "' A gameleira". Você leu o meu livro que dei para o seu pai?Árvore dos Dos Desejos" A história se passa de uma gameleira.

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S
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De feldades a 18.06.2016 às 02:14

Dona Cecília, não li seu livro, mas lerei.
Abraços!

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