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A GUERRA E OS BOÇAIS

por feldades, em 22.10.23

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Nos anos oitenta, quando eu terminava o segundo grau (hoje ensino médio), havia um colega de sala que costumava usar um apetrecho com a suástica. Como eu já não tinha proximidade com aquele rapaz, o seu gesto acabou piorando as coisas, gerando certa antipatia em nós. Fato é que eu não entendia por que aquele moço, moreno e de traços nordestinos, pudesse ostentar um símbolo nazista – algo no mínimo contraditório. Bocudo que sempre fui, talvez eu tenha mofado dele sobre essa bestagem, embora eu não me lembre de ter feito isso. Certo dia, porém, um professor perguntou a ele o porquê daquela insígnia e teve como resposta que seria um gesto em prol da causa palestina. Como eu não sabia nada sobre o movimento palestino, aquela informação, que me chegou de forma enviesada, foi de pouca serventia e não melhorou a imagem que eu tinha do jovem rebelde.

 

Aqui, abro parênteses para a causa judaica. Parte de meus estudos foi realizada durante a ditadura militar e, não se sabe por quê, naquele tempo os professores de história não citavam o nazismo. Todavia, foi de um professor de artes, que dava aula nas noites de sábado, de quem ouvi pela primeira vez relatos sobre os campos de concentração nazistas. Aquela aula de história dada por um professor de educação artística deve ter sido a mais proveitosa de todas as que tive naquele ano de 1981. A partir de então, meu interesse sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto foi despertado, mas a questão palestina ficou à margem de minhas leituras.

 

Embora eu não seja ativo nas redes sociais, fiquei sabendo que há nelas uma batalha insana entre defensores do Hamas e partidários das forças israelenses. Pelos ânimos tão acirrados, tem-se a impressão de que todos conhecem a história do povo hebreu e a saga de seus “primos” palestinos, tornando-se também especialistas em Oriente Médio e, mais particularmente, na Faixa de Gaza. Contudo, desconfio que pouquíssimos consigam sequer localizar no globo terrestre o mapa da região conflagrada.

 

De minha parte, penso ser impossível, assim de afogadilho, tomar partido de um ou outro grupo, porque as coisas são muito complexas. Os judeus, um povo que foi milenarmente perseguido, obteve a demarcação de um território para si logo após o fim da Segunda Guerra – e isso me parece justo. O problema é que esse território estava sendo ocupado há séculos pelos palestinos, que foram expulsos em benefício dos “novos inquilinos” – e isso me parece injusto.

 

Não podemos aceitar passivamente o terrorismo, seja de guerrilheiros muçulmanos ou de forças regulares israelenses, porque, se no Oriente Médio impera o terror, nas redes sociais e nas rodas botequeiras tem-se o horror. E dessa forma, as relações humanas vão sendo vorazmente destruídas pelas labaredas ideológicas de lá e pelas boçalidades de cá.

 

FILIPE

 

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3 comentários

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zé onofre a 23.10.2023

Boa noite, Filipe

Achei o seu texto que muito equilibrado. Não sou crítico literário, nem politólogo.
Tenho as minhas opiniões, mas sei que valem o que valem.".
Escreve a certa altura "Os judeus, um povo que foi milenarmente perseguido,".
Sobre esta frase há controvérsias.
Houve na Palestina um Reino de Israel, que a certa altura da sua história, segundo a Bíblia, se dividiu em Reino de Israel, e reino de Judá, cuja religião era a Lei Mosaica, o Judaísmo.
Nem todas as pessoas aí residentes seriam de religião Judaica, os reinos sido erigidos em territórios de povos que tinham a sua própria religião.
Vários acontecimentos históricos levaram a que estes reinos fossem ocupados pelos Romanos. Como é natural houve resistência ao Império. Alguns optaram por se dispersarem, chegando muitos a viverem em Roma praticando a sua religião..
Na sua Terra eram perseguidos pelos Romanos que respondiam com violência aos actos de insurgência. No Império conviviam as mais diversas religiões..
Tendo sido reduzidos à Província Romana da Síria Palestina, Israel findara.
Com a Cristianização do Império Romano as outras religiões começaram a ser perseguidas.
Com a ascensão do Catolicismo, todas os ramos não católicos e as outras religiões foram perseguidos e privadas da liberdade de Culto.
Durante a Idade Média e Moderna os Crentes Mosaicos foram sujeitos a humilhações, violências, remetidos para bairros próprios - as Judiarias.
A dada altura foram obrigados a converterem-se ao Catolicismo - Os Cristãos Novos - ou a expatriarem-se vendo, contudo todos os seus bens serem expropriados a favor dos reinos onde viviam.
Apesar desta perseguição as pessoas de religião Judaica consideravam-se como sua Pátria o reino de onde haviam sido expulsos.
É isto que testemunha o Pe. António Vieira, quando enviado especial de D. João IV aos Países Baixos para negociar a saída dos Holandeses do Nordeste Brasileiro. Entre os seus contactos estavam os Homens-de-nação, assim se referia aos praticantes do Judaísmo, que lhe confessavam a vontade de voltar à Pátria - Portugal - e comprometiam-se mesmo a criar "companhias" como as das "Índia" inglesa e holandesas, e a financiarem também a esquadra de guerra que garantiria as suas rotas. Ora estes queriam regressar à sua Pátria - Portugal - e nunca referiam a antiga Israel como sua, ou futura, Pátria.
A Alemanha Hitleriana agravou de tal modo a vida destes Crentes - Solução Final/Holocausto - que terminada a 2ª Guerra os Vencedores da Guerra não sabiam o que fazer com estas pessoas, que eram alemãs, holandesas, polacas, húngaras, russas, ...
Nos fins do Séc. XIX tinha-se formado o movimento Sionista, que apelava às pessoas da religião Judaica a irem para a Palestina. Desde o final da 1ª guerra a Palestina passou a protectorado Britânico - que simpatizava com o Sionismo.
Muitos crentes Judaicos começaram cada vez mais incentivados a emigrar para a Palestina.
A Grã-Bretanha depositou no colo da recentemente criada ONU este imbróglio.
Depois de surgirem várias propostas de Terras para os acolherem a Assembleia Geral das Nações Unidas decidiram, em 1947, dividir a Palestina em Dois Estados Independentes.
Quando esta decisão foi tomada apenas 20% da População residente na Palestina era de religião Judaica. Porém, nessa Palestina, conviviam sem conflito as religiões Muçulmana, Cristã dos vários ramos, Judaica e outras, ou mesmo ateus.
Quando esta decisão é tomada os Palestinos não a aceitaram porque iriam ser privados de uma parte substancial da sua Terra. E tal como os Israelitas do tempo dos Césares, os Palestinos se insurgiram contra a ocupação da sua Terra.
No final deste primeiro levantamento Palestiniano 700 000 Palestinianos foram obrigados a deixarem a Palestina e a viverem em Campos de Refugiados onde, ainda hoje vivem.
Deste longo arrazoado tiro duas conclusões que ajudam a compreender a situação da Palestina.
- Foram os europeus que com a perseguição à religião Judaica criaram um mítico "Povo Judeu".
- Foram os vencedores da 2ª Guerra que despejaram no regaço do Povo Palestino os seus cidadãos crentes do Judaísmo.
- Os Palestinos expulsos e a viverem em campos de refugiados, ou em território ocupado por Israel, nunca perderam a sua identidade como Povo.

Desculpe um tão longo texto,
Zé Onofre

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feldades a 24.10.2023

Zé Onofre, obrigado pela aula. Fique sempre à vontade para comentar.
E eu ficarei mais atento aos seus escritos, porque com você não há quem não aprenda.
Um abraço fraterno.
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Frei Gabriel a 26.10.2023

Duas aulas:
- a postagem, sobre a necessidade de se aprofundar numa questão antes de se emitir juízos
- o comentário que ajuda a entender as raízes do conflito judeu-palestino.
Grato!

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