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A IRMÃ MAIS VELHA

por feldades, em 16.03.18

Escrever sobre a “Irmã mais velha” exige tempo, zelo, memória e o talento de um escritor que não sou. Ouso, contudo, pôr nesta página pequenos retalhos da vida dessa singular figura, que não teve uma infância ajardinada e multicolorida como toda criança deveria ter.

 

Muito cedo, ela teve de assumir compromissos domésticos – ao suceder à mãe impossibilitada pela enfermidade –, começando a fazer nossa comida, lavar as roupas, cuidar da casa e dos irmãozinhos. Por ser ainda tão pequenina, não conseguia alcançar as panelas sobre o fogão, também pequeno. Então, meu pai teve de improvisar, pondo um caixote de madeira para que nele subisse e pudesse manusear conchas e escumadeiras.

 

A nova cozinheira trouxe-nos conforto, oferecendo-nos refeições nas horas devidas, mas a menina custou a se organizar, atrapalhada que ficava com o serviço se avolumando cada vez mais. De manhã, quando papai se levantava para fazer o café, ainda havia vasilhas no fogão para serem lavadas. O pai ficava confuso, pois era “louça” para todo lado. Eu disse louça, mas eram panelas de ferro e pratos esmaltados. Naquele tempo, porcelana se achava apenas nas cristaleiras dos vizinhos abastados.

 

Mas papai foi orientando a filha, ensinando-a aos poucos. Na cozinha, havia uma mesa onde ficavam pratos, panelas e outros utensílios prontos para serem usados. Então papai sugeriu: “Filha, vou lhe passar um programa. Assim que uma panela for usada e você não puder lavá-la naquele momento, ponha-a debaixo da mesa, para que não atrapalhe o serviço. Quando puder, lave-a e a coloque junto às demais. Este deve ser seu ‘programa’ a partir de hoje”. O irmão mais velho, rapazinho muito trabalhador, mas sapeca à beça, provocava a irmã: “Olha o ‘programa’ debaixo da mesa!”, dizia às gargalhadas, apontado o dedo para as panelas sujas, deixando a coitadinha por demais furiosa.

 

Embora frágil na aparência e de saúde delicada, essa irmã nos surpreendeu. Em pouco tempo, aprendeu o ofício, tornando-se uma cozinheira de mão-cheia, mas não só. Foi arrumadeira, costureira, educadora, e uma segunda mãe para todos os irmãos, especialmente para os mais novos. Lembro-me de que, ao anoitecer, ela punha água morna numa bacia e banhava cada pequerrucho, enfileirando-os sentadinhos sobre um banco de madeira. Assim, após enxugar cada um, ela os vestia e os punha na cama para dormir.

 

É, a nossa vida naquele tempo não foi fácil. Certa vez, quando eu tinha oito anos, papai me pediu para que, na volta da escola, trouxesse dois pãezinhos para minha irmã, que estava adoentada. Um parêntese: pão lá em casa era artigo de luxo, que raramente podíamos comprar. Então, após as aulas, fui à padaria comprar os dois pãezinhos. Era bem de tardinha, quase anoitecendo e eu estava com uma fome danada. O cheiro do pão fresco aguçava ainda mais meu apetite e não resisti. Comecei a roer o pãozinho da mana ao percorrer a longa estrada até a casa. Fui pegando de mansinho e furtivamente um pedacinho do miolo, depois mais um pedacinho e mais um pedacinho. Ao chegar em casa, sem que eu percebesse, os pães tornaram-se dois canudos, sobrando deles apenas a casca. A irmã, naturalmente, não gostou e foi reclamar com o pai. Fiquei preocupado com a bronca, que certamente receberia. Mas não. O velho calou-se numa sofrida impotência por não conseguir comprar um simples pão para cada um dos filhos.

 

Essa irmã, guardiã dos pais e acervo da memória da família, reverencio genuflexo.

 

FILIPE

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7 comentários

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De aureliano a 16.03.2018 às 16:05

Bela e merecida homenagem àquela que secundou a mamãe nos cuidados da casa e de cada um de nós. Maria Marta, mulher forte, mãe extemosa, irmã muito amada, honesta, sincera, piedosa, caridosa. A ela nosso abraço eivado de gratidão eterna.
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De Anónimo a 17.03.2018 às 13:01

Com o termo "eivado" quero dizer marcado profundamente, num sentido positivo, é claro.
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De Anónimo a 16.03.2018 às 22:01

Cada vez mais me emociono com suas narrativas singelas de uma infância partilhada com a família numerosa e a dedicação e disponibilidade de uns para com os outros. Essa me tocou demais o coração pois eu também sou a irmã mais velha e não fiz nada disso! Sai de casa bem cedo para estudar, às custas de vovô, o que me possibilitou ser o que sou hoje. Benditos o que nos acodem no tempo propício!
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De Anónimo a 16.03.2018 às 22:45

Sempre ouvi falar da força e perseverança da Maria Marta e no fundo tinha muita vontade de conhece-la, admirava essa capacidade de superação, vencendo batalhas quase impossíveis para uma frágil menina...O dia que fomos apresentados, me senti um fã diante de um ídolo, não fiz demonstrações, sou tímido e não sou tiete...
Você como sempre conseguiu fazer uma bela homenagem, porém o texto ficou borrado com a palavra genuflexo...(viva o Google) um mosquetinho no final da sobremesa.


Carlos Lopes
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De Anónimo a 16.03.2018 às 23:07

O texto traz a temática da 'pobreza'.
Então eu quis buscar equilíbrio com certa riqueza vocabular.
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De Anónimo a 17.03.2018 às 13:07

Querido Mano
O que posso dizer deste texto todo tecido de recordações gostosas e tristes, da dura vida de nossa pequena e grande Mana mais velha, nossa segunda Mae, com todos os méritos e dores do parto, do choro de uma renca de pirralhos que tudo dela esperava...
Outro dia a Mana me falava que eu era uma criança super chorona. Era so me deixar na cama, que voltava a abrir o oboe, como se dizia... E de longe a sempre nervosa Mamãe ja gritava: O Gabriel esta chorando! E ela toda aturdida e pressurosa, som seus 13 anos, quando se começa a sonhar com amores e beleza feminina e vaidades, aquela guerreira escondida no fundo de uma simples casinha rural consumia seus sonhos de menina no cuidado incansável de uma irmandade numerosa e não muito santa. Deus lhe pague! Mana! Que seus manos aprendamos a colocar um pouco mais nossas vidas a serviço de outras vidas também. Como Jesus diz hoje: o gr~ao de trigo morre para gerar vida! Obrigado Filipe por dizer em nosso nome tantas coisas que temos no coração mas nao o seu talento literário para exprimir. Gratidão! Deus seja louvado!
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De Anónimo a 28.03.2018 às 19:43

Não sei se choro ou rio com a sua crônica caro amigo.É de uma profundidade ímpar.Volto ao passado e fico pensando que eu poderia ter sido mais presente nesta família tão querida. Entristeço-me mas ao mesmo tempo me alegro em ver o que se tornaram hoje os filhos do sr José e como sempre ele termina o que escreve::Que Deus seja louvado!
A amiga Cecilia

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