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ARMISTÍCIO - PRIMEIRA PARTE

por feldades, em 19.09.14

No começo de uma tarde desta estação, com muito sol e calor como não convém a um inverno que se preze, cheguei para atender a um convite com jeito de convocação. Ele estava em seu gabinete, e, avisado de minha chegada, veio logo ao meu encontro. Pareceu-me sombrio, mas aquela expressão nublada desanuviara-se um pouco com um sorriso embaçado.

 

“Então, o senhor é o professor Filipe. Qual é o problema, professor?” “Sou o Filipe, não costumo me apresentar como professor. Como sabe disso?” “Amparo é desse tamaninho!”, fez um sinal com indicador e polegar para mostrar quão pequena é nossa cidade. A pureza de suas mãos decerto santificaram aquele gesto, que, feito numa roda de adolescentes, teria significado desprovido de quaisquer virtudes.

 

Na tentativa de arejar o pé da prosa, provoquei: “O senhor está bravo comigo?” “Oh, não, eu nunca fico bravo com ninguém... Como poderia ficar bravo com você?... Mas, primeiramente, queria saber. Você é católico?”perguntou, passando levemente a mão sobre a calva. “Sou católico, mas essa pergunta é fácil de ser respondida. Difícil seria esta que lhe faço: Por que o senhor é católico?” Expressou impaciência e me devolveu a pergunta. “Eu sei que ninguém, com alguma inteligência, sente-se à vontade com essa indagação. Mas eu não me importo em dizer que sou católico porque fui educado nesta fé. Porém, digo com convicção: se toda a minha família abandonasse o catolicismo, eu ainda continuaria firme. Não tenho dúvida de que esta é a Barca de Pedro. Há algumas 'canoas' por aí, às vezes seguindo a ‘Barca’ à distância; noutras vezes, tomando rumos incertos, perdendo-se no horizonte, submergindo-se”. Eu disse, e ele ouviu calado minha preleção. Durante hora e meia de entrevista, este talvez tenha sido o único momento em que pude completar todas as frases.

 

Naquela salinha, luminosidade e calor excessivos sufocavam-me ainda mais do que os olhos de meu “inquiridor”. E ele retomou as rédeas: “Mas, se você é católico convicto, conforme diz, por que ataca a Igreja como sempre faz no jornal?” “Eu não ataco a Igreja”. “Mas me ataca!” “Não ataco o senhor”. “Mas eu estou todo ‘machucado’ com seus textos”. “Não era para estar, pois não ataco pessoas, e sim ideias, posturas”. Ele continuou: “É um escândalo publicar uma crítica ao bispo, a um padre. Isso deve ser resolvido como agora, dialogando”. “Mas eu já mandei inúmeros e-mails, e ninguém sequer os responde”. “Eu respondo”. “Não, também não responde”. “Eu não respondi a este?” “A este, sim, mas aos demais, não. E tem outra: por mais de uma vez, em meus e-mails, coloquei-me à disposição para uma correção fraterna, mas nunca fui convidado”. “Mas você foi chamado aqui, como diz isso?” “Demorou para me chamar!” “Mas eu já o chamei antes, e você não veio... Acho que estava com medo de vir” (risos). “Eu não tenho medo, mas até que gostaria de sentir medo”, disse-lhe sem convencê-lo.

 

“Fica publicando contra a Igreja”. “Não é contra a Igreja, é contra a pinga que vocês vendem”. “Mas, meu filho, eu sou contra, todos os padres são contra a venda de álcool nas festas, mas os festeiros... Eles batem na gente, querem vender, porque querem. Eu até poderia proibir, mas não sou autoritário”. “Não é o que dizem. Falam por aí que o senhor governa com ‘mão de ferro’!” 

          

FILIPE                                                                                                                                 

continua” 

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2 comentários

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De Aureliano a 27.09.2014 às 22:29

Filipe,
posso lhe assegurar, e este relato o confirma, que o diálogo é o grande e excelente meio de reconciliação, de entendimento, de compreensão recíproca e de paz. As experiências de cada um não cabem no papel, não podem ser grafadas. Grafam-se alguns aspectos que foram entendidos pelo interlocutor ou mesmo por quem os vivenciou. Mas a realidade real da vida é muito maior do que o que se escreve. O livrinho do papai é o grande exemplo disso: quem vivenciou e experimentou os fatos narrados se aproxima muito mais dos fatos do que quem só ouve ou lê de longe.
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De feldades a 04.10.2014 às 21:36

É isso, mano. É preciso procurar as pontes, não obstante as muralhas que se erguem.

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