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CHATEAÇÕES

por feldades, em 13.09.22

Começo a escrever este texto na "sala vip" da viação Cometa, no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Daqui a pouco, por obra do acaso (ou do descaso), embarco para Juiz de Fora. Tenho rodado bastante ultimamente, e essas viagens têm me causado algumas alegrias e variados aborrecimentos. Hoje, quero falar de perrengues, porque dizem que a vida sem um pouco de tédio não tem muita graça. Todavia, se assim for, prefiro uma vida nada engraçada, mas sem tédio. Xô, inhaca!

Não sei por quê, mas quando saí de casa para pegar o primeiro dos três ônibus, que comporiam meu périplo, eu estava sem máscara. E é meu costume sair com aquele trapo charmoso na fuça. Chegando à rodoviária e sabendo da obrigatoriedade, procurei a máscara nas minhas tralhas, revirando a mochila e nada! Eu sabia que tinha posto uma dezena delas junto às minhas roupas. Como não encontrava, pedi ao motorista que me deixasse embarcar e lá dentro eu a acharia com calma. Ele me disse um 'não' com tanta força, que seria preferível um bofetão. Impactado, saí da fila e me sentei para outra vez procurar as tão necessárias e fugidias máscaras. Abri a já tão humilhada mochila e expus suas entranhas. Caiu blusa, rolou para longe uma trouxinha de meias e até uma despudorada cueca foi ao chão. Mas as máscaras... nem sinal delas. Voltei ao motorista, que já estava ao volante e pronto para dar partida, e implorei: "Deixe eu entrar sem máscara. Eu tenho, vou achar e vou pôr..." Ele, do alto de seu imperial poder, indiferente à minha aflição e com indisfarçável deleite, respondeu frio: "Você tem ainda três minutos. Vá ao guichê e compre uma!" Subi a rampa e pedi a máscara, que me custou doídos três reais.

Ornado agora com uma "focinheira" preta, que na pressa pus de ponta-cabeça, entreguei o bilhete de embarque e fiquei ainda mais chateado, porque dentro do ônibus havia gente sem máscara. Sentei, abri a mochila para pegar um livro, mas não achei livro. Achei máscaras!!! Tive vontade de socá-las. Aconcheguei-me na poltrona, sosseguei a alma e adormeci.

 

Três horas depois, eu chegava a Sampa. A passagem estava marcada para as 'cinco e meia da tarde', mas cheguei ao embarque dez minutos antes. Quando entrei na fila, um ônibus aguardava os passageiros, mas não seria aquele. Perguntei a um funcionário pelo meu ônibus e ele disse: "Tá vindo!" Esperei dez, quinze, vinte minutos e voltei lá. Ele de novo: "Tá vindo!"

O tempo foi passando até que apareceu outro funcionário dizendo: "Seu ônibus já foi!" "O queeeê?!", desabei. Segurando o riso, ele disse: "Eu passei aqui e chamei umas três vezes."  Retruquei, dando início a um bate-boca:  "Chamei várias vezes." "Não, isso não aconteceu" "Chamei, sim." "Não chamou." "Sim." "Não."

Os ânimos se exaltaram, perdi a compostura e disparei: "Estou velho, mas não estou doido! Não teve ônibus e vou mandar um e- mail para a empresa!" Nisso, o sujeito afinou: "Por que o senhor não vai lá em cima e pede nova passagem?... Mas fale que chegou atrasado." "Posso ir, mas não quero mentir. Vamos juntos?..." "Não, eu não posso sair daqui."

Fui,  expliquei o acontecido e o funcionário do guichê reconsiderou minha passagem perdida, convertendo-a numa espécie de vale para ser usado noutra oportunidade.

Pois é... Mudei minha rota porque o rapaz disse que perdi o ônibus, mas foi o ônibus que me perdeu. Perdi foi a paciência. Mas não perdi a razão e recuperei a paz numa viagem em que houve encontros, reencontros e nenhum desencontro.

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1 comentário

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De Anónimo a 14.09.2022 às 14:46

Paz e bem, querido Mano!
Agora consegui ler seu texto!
Muito bom como sempre! Os assuntos mais triviais da vida, você consegue torna-los agradáveis para quem os lê, embora nem sempre doces para quem os vive.
É difícil engolir essas humilhações e incoerências vindas desses agentes! E são situações recorrentes! Embora o contrário também muitas vezes aconteça.
Agora, o belo de tudo isso é que na sequência, foram muitos os reencontros que tornaram pequenos os sofrimentos anteriores.
Na fé cristã às vezes podemos perceber a eficácia daquelas palavras: "todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus!" (Rm 8, 28).

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