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CHOVE LÁ FORA

por feldades, em 16.03.19

DSC01127.JPG

 

Chove lá fora e eu aqui tentando escrever um texto, que pretensamente chamo de crônica.

 

A três metros de mim, uma samambaia abriga uma família de pombinhos silvestres. Esta é a segunda vez que eles ocupam o espaço. Na primeira vez, como registrado aqui, ajudei o casal a fazer o ninho, que aceitou sem, contudo, me agradecer. Também desta vez eu tentei, mas a minha ajuda foi recusada pelos ‘mal-agradecidos’ columbinos. As folhas, que ajeitei meticulosamente no pratinho de plástico, foram solenemente rejeitadas, sendo descartadas uma a uma.

 

No ninho, os dois filhotinhos já emplumes têm o sono velado pela mãe, que, feito um anjo da guarda, fica a postos na “cabeceira”. Tenho vontade de fotografá-los, mas o flash vai assustá-los. E eu não quero e nem posso perturbar o sono desses meus dóceis ‘inquilinos’.

 

Um carrilhão anuncia ‘vinte horas’. Estou apenas no começo deste texto, mas vou dar uma enrolada e verei se dá para publicar algo.

 

No jardim, há capim-santo, manjericão, gengibre, açafrão, um pequeno cipó de maracujá e... acho que é só. Ah, tem uns dois pés de couve, que não colho há tempos. Lagartas e lesmas resolveram cuidar dessa minúscula horta e eu não tenho pato que lhes dê cabo. Havia um sapo morando escondido ali, mas há muito tempo que não me manda notícias. Tá tudo meio bagunçado, mas meu jardim é como minha gaveta, minhas coisas e minha cabeça: uma barafunda.

 

Muita gente vê e elogia o jardim, mas fico meio desconfiado. Depois que observei os elogios falsos que se veem aos monturos no ‘feice’, fiquei cabreiro e passei a não dar muita bola, nem para críticas e muito menos para essas mesuras.

 

Mas o meu jardim é encantatório. Há nele um arbusto que não se encontra em outro jardim: uma mamoneira que floriu abundantemente. Certa vez, peguei semente dessa rara espécie no Taquaraçu, um bairro de minha cidade natal, que é conhecido como “Tacuruçu”, e que nos meus tempos de criança era tido por má fama. A “má fama” não vinha de seus habitantes, que sempre foram boníssimos, mas de sua pobreza. A pobreza sempre foi causa de preconceito da grã-finagem. Cresci ouvindo isto: “pobre é preguiçoso e rico é trabalhador”. Naquele tempo, o ‘Tacuruçu’ era o bairro dos pobres, e seria para Guiricema o que a “Rocinha” é para a Cidade Maravilhosa.

 

O carrilhão dá ‘nove badaladas’ e volto os olhos para o jardim. Daqui, donde estou, vejo as folhas molhadas da mamoneira brilhando à luz da rua. Mas, na penumbra, não vejo seus cachos cor de fogo nem suas flores: brancas, belas e efêmeras. Mas já não chove lá fora. Porque a chuva, como as flores de meu jardim, é bela e efêmera.

 

FILIPE

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4 comentários

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De Aureliano a 16.03.2019 às 11:21

Pensei que, na condição bde educador, fosse escrever sobre a chacina na escola de Suzano. Ou algo nessa direção.
Mas seu texto parece ter sido um alento em meio aos terrores dos últimos tempos.
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De feldades a 16.03.2019 às 13:41

Sim, quis me desintoxicar daquele "enxofre" que me enfastia.
Obrigado pela leitura e pelo comentário.
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De Jair Francisco Bueno a 17.03.2019 às 14:25

Só você mesmo, Felipe.
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De Anónimo a 23.03.2019 às 12:14

Olá meu Mano Cronista!
Paz e bem!

Ler a sua inspirada e bucólica crônica é experimentar também a beleza dessa chuva efêmera. Assim como as gotas pluviais caem serenas e densas sobre as folhagens, enquanto a natureza agradece através da vitalidade que suscita, suas breves e simples letras inundam de leveza, serenidade e paz a alma do agraciado leitor!
Como nos faz bem os belos textos. Assim como a música e outras artes plásticas só podem mesmo ser dom divino, o Divino Artista comunicando sua beleza no mundo e na mente e no coração humano! Felizes o puros de coração porque verão a Deus!
Parabéns!
Seu mano do Paraná
Freizinho.

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