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DONA CELISA

por feldades, em 16.01.22

foto da celisa.jpeg

 

Dona Celisa foi uma das pessoas mais incríveis com quem convivi ao longo desta vida, que já se alonga. Quando a conheci, ela era uma “jovem octogenária”, que conservava o viço da mulher culta e elegante que sempre fora. Sua companhia era leve, suave, quase imperceptível. À noite, aquela mulher nunca se recolhia aos seus aposentos sem antes nos dar um boa-noite; pela manhã, ao se levantar, o bom-dia era tão certo quanto uma prece matinal.

 

Dona Celisa gostava de café. No começo de sua enfermidade, eu lhe dava o “pretinho” ainda na cama. Ela se sentava, pegava a xícara e, após um pequeno gole, dizia: “Tá gostoso!”

 

Paulista, dona Celisa mais parecia uma mineira.  O jeito de receber visitas, de prosear e o café oferecido a quem chegasse davam-lhe um ar de mineiridade. Muitas vezes, enquanto sua filha dava aulas de pintura lá no rancho, ela pegava o pote de pó, uma vasilha com água e me olhava sem dizer nada. Então eu sabia que era para fazer o café. Mas não era só café. Ela também pegava manteiga e pão, punha numa bandeja e me pedia para levar para as meninas.

 

Quando cheguei naquela casa, logo assumi o fogão, e a dona Celisa passou a se referir a mim como “o cozinheiro”. Eu não sabia cozinhar, mas inventava uns “grudes” que nos matavam a fome. Embora muito contida à mesa, ela gostava da comida e sempre dizia: “Desse jeito vamos todos sair daqui rolando [de tão gordos]!”

 

Dona Celisa tinha uma predileção pelos pobres e desafortunados. No Natal, ela sempre dava um “envelope recheado” aos coletadores; o pedinte nunca saía de mãos vazias; e, todas as sextas-feiras, por volta das 15 horas, ela saía para visitar uma amiga adoentada. Também nunca perdia as missas e participava de todas as novenas, rezas e campanhas de arrecadação feitas pela sua comunidade.

 

De dona Celisa ouvi muitos casos, fatos antigos, alguns do final do primeiro terço do século passado. Contava ela que em 1932, durante a guerra civil entre paulistas e o governo Vargas, houve tiroteio na cidade de Amparo. Aflitos, ela com seus irmãozinhos protegiam-se no porão do casarão onde moravam. “Foi um horror!”, dizia.

 

Dona Celisa falava bastante sobre seu trabalho. O começo da carreira de professora, no início dos anos cinquenta, foi muito difícil. Contou-me com detalhes suas dificuldades na distante Bofete (uma cidade paulista), aonde se chegava somente a pé ou a cavalo. Depois, já no encerramento da carreira, mais dificuldades.  Transferida para uma escola próxima de casa, teve de dar aulas para uma classe numerosa e indisciplinada. Na sala de aula eram tantos alunos, que ela não conseguia transitar entre as carteiras para lhes dar assistência.

 

Certa vez dona Celisa me mostrou um papel já bem desgastado. Era uma redação dos tempos de estudante, de quando era adolescente. Ali, a jovem fez uma descrição poética e pungente da mãe gravemente enferma, de quem pouco tempo depois ficaria órfã.

 

O tempo foi passando e a dona Celisa não conseguia mais fazer suas visitas nem ir às rezas. O tempo passou mais um pouco e dona Celisa já não contava caso. Por fim, a bondosa senhora já não sorria.

 

Hoje a dona Celisa está no Paraíso com os serafins, os querubins e as pessoas que, como ela, fizeram o bem aqui na terra. Mas não só com esses. Ela, com toda certeza, tem consigo a Lilica – sua fiel cadelinha de quem não se desgrudava.

 

Assim acredito, porque toda criatura terá parte com o Criador!

 

FILIPE

 

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5 comentários

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De Frei Gabriel a 16.01.2022 às 11:01

Felipe!
Paz e bem! Sua homenagem para Dona Celisa neste momento doloroso da vida, em que ela partiu, deixando tanta saudade, ajuda a resgatar um pouco a história dessa mulher de fé, uma fé verdadeiramente cristã, que alia o amor a Deus ao amor ao próximo de uma maneira indissolúvel. Viveu como uma pessoa humana, como Deus quer, trabalhando, rezando, curtindo as coisas boas da vida, unindo a simplicidade à elegância e à cortesia. Deus a acolha entre os seus eleitos e lhe dê o prêmio daqueles que passaram pelo mundo amando!
Condolências a você, à Rosana e a toda a família.
Freizinho.
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De Anónimo a 16.01.2022 às 11:26

Acabei de conhecer dona Celisa,vc descreveu tão bem,que parecia que eu também, estava vivendo ,tudo com vc,obrigada por nos passar, o que foi essa grande mulher,é o que vai continuar sendo,nas lembranças,e dos que aindam virão,saber tudo sobre ela!!


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De Cynthia Andrade a 16.01.2022 às 11:53

Felipe, consegui conhecer d. Celisa por suas palavras. Deve ter sido uma pessoa como poucas, misto de tranquilidade e força. Em paz e com a sua cadelinha certamente está. Terei tantos anjos de 4 patas me esperando também!
O conforto da partida, meu amigo, é a certeza do reencontro!
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De Anónimo a 16.01.2022 às 13:21

🥰🥰
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De Anónimo a 16.01.2022 às 15:47

Felipi, o presente que Dona Celisa deixa para mim é o sorriso que ela dava quando eu sambava e dizia que iria com ela p a escola de samba no Rio de Janeiro. Sei lá o que acionava na cabeça dela. Com certeza, ela levou na alma a sua dedicacao, a da Rosana e irmãs. Rosana, foi incansavel na busca de conforto e carinho para com a mãe, vc com a sua hospitalidade mineira, fé inabalável e compaixão fez toda a diferença no processo todo. Aproveitando a saidinha da Rosana, ela partiu para a vida eterna. Ela partiu, mas vocês, seres humanos de primeira grandeza, continuam aqui dando exemplo de solidariedade, caridade e respeito à velhice como natural e inerente à vida. Deus os abencoe com muita saúde! Desfrutem da consciência leve por terem cumprido todas as fases com tanto amor e dignidade. A vocês, me curvo e agradeco pelo aprendizado.

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