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DONA IDA

por feldades, em 04.08.18

A Capela de Nossa Senhora das Dores estava quase vazia. Numa urna, defronte ao altar, o corpinho de minha amiga repousava sereno quando amigos e parentes foram chegando pouco a pouco. Aproximei-me devagar e a vi. Seu rosto, agora livre das fadigas terrenas, expressava uma ternura angelical. O pequeno sino tocou e o sacerdote entrou reverente para dar início à celebração.  E nesse momento, exaltou o nome de dona Ida: “Mulher de muitas virtudes e de oração, dona Ida é digna de ornar-se com o terço que traz nas mãos!”. Sim, o padre Carlos tem razão. O terço foi companhia inseparável de dona Ida desde a infância. Nas visitas que eu fazia, nunca a vi sem o tercinho. Muitas vezes eu a encontrava adormecida, numa espécie de êxtase, mas numa das mãos estava lá o pequeno rosário.

 

Essa minha amiga viveu os últimos cinco anos cega e surda numa cadeira de rodas. Quando eu chegava, ela costumava perguntar quem sou. Mas na impossibilidade de me ouvir ou me enxergar, desistiu de fazer essa pergunta, indo logo ao ‘trabalho’: “Eu não sei quem é você nem o que veio pedir, mas Deus sabe e ele vai atender”. E assim, com a mão sobre minha cabeça, rezava um Pai-Nosso seguido de uma Ave-Maria, finalizando com a bênção de São Francisco.

 

Certa feita, isso aconteceu há uns dois meses, quando eu me ajoelhei diante dela em sua cadeira e pus sua mão sobre minha cabeça, como sempre fazia, ela me reconheceu de pronto: “É o Filipe!”. Sorriu, fez o Sinal da Cruz e começou as preces. Fiquei tocado com aquilo. Como pode, depois de tantos anos sem me reconhecer, nem ao menos me enxergar ou me ouvir, ela me identificar?! Que alegria eu senti!

 

Dona Ida viveu muitos anos em São Paulo, conforme me contou. Na mocidade, tentou entrar para o convento, mas não foi aceita. Então ela resolveu, por si, consagrar-se à Virgem Maria, com votos de pobreza e castidade, e tocou a vida. Criou sobrinhos, que eram órfãos, e se sustentou trabalhando em fábrica de tecidos na Zona Leste. Na Igreja, exerceu trabalhos pastorais com menores carentes. Aposentada e com os sobrinhos já adultos, mudou-se para Amparo, onde continuou suas atividades na Igreja, como leiga engajada que sempre fora.

 

Quando os ventos dos anos lhe sopraram mais fortemente, dona Ida procurou abrigo no Lar dos Velhos, declinando dos cuidados oferecidos pela sobrinha. Embora tenha experimentado algum sofrimento na nova casa, dona Ida foi feliz ali. Tinha uma funcionária de sua confiança, a Maria, que todos os dias a ajudava. O seu quarto era limpo, organizado e havia uma ‘Madona’ sobre uma cômoda, que enfeitava o ambiente, fazendo do espaço uma pequena capela. Mas essa imagem foi maldosamente quebrada por alguém. Dona Ida, embora tenha ficado muito triste com isso, conseguiu que a “restaurassem”. Não acho que houve restauro. Comprou-se outra imagem e assim ela ficou satisfeita.

 

“Eu sofro muito, mas não reclamo. Apenas espero a hora em que Deus vai me chamar”, dizia aquela alquebrada senhora, amarrada na cadeira, com apenas um sopro de voz. E aos noventa e quatro anos, dona Ida partiu mesmo, mas ‘em odor de santidade’.

 

FILIPE

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3 comentários

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De Aureliano a 04.08.2018 às 22:48

Filipe, participei de uma reunião de conselho dos idosos essa semana aqui em nosso projeto. Achei muito interessante as denúncias e os depoimentos bem como as iniciativas implementadas pela coordenação do conselho. Fiquei mais esclarecido a respeito das situações por que passam os idosos. Muitos sofrem violações de direitos que a gente nem imagina. Por isso julguei muito nobre seu gesto diante da dona Ida.
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De feldades a 05.08.2018 às 01:33

Meu gesto é pequenino: umas visitinhas rápidas e só.
Dona Ida era muito especial para mim.
No passado, ela citava nominalmente a Mariana e o Freizinho em nossas conversas. Rezava por eles.
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De Anónimo a 13.08.2018 às 03:12

Olá meu querido Mano Filipe!
Paz e bem!

Somente agora posso mais calmamente ler seu lindo depoimento sobre a querida Dona Ida, que soa até como um merecido panegírico a essa santinha anônima, como tantos por aí. São aqueles santos "ao pé da porta" na expressão do Papa Francisco na sua última carta, nos apelando para a busca da santidade: moram bem perto de nós, e às vezes não os enxergamos, por buscarmos aqueles de estatura extraordinária. Esquecemo-nos que o Reino pertence aos pobres, aos simples, aos pequeninos.
Filipe, obrigado por sempre levar meu nome à D. Ida. Eu soube por você que ela sempre rezava por mim, sobretudo por causa dos transtornos do acidente em que me envolvi. Eu fico muito comovido ao saber de pessoas que rezam constantemente por mim, nominalmente. Acho o cúmulo do carinho! Com tantas necessidades e pedidos para se fazer, lembrar-se de um pobre fradinho lá dos confins do Paraná! É muita graça de Deus!
O Capítulo 19 do 1o. Livro dos Reis que ouvimos nas missas deste domingo (19o. Tempo Comum) nos falava do anjo a tocar o ombro do desolado Elias, despertando o profeta deprimido para o pão miraculoso, para a água fresca no tórrido deserto; farto por este misterioso alimento e dessedentado por prodigiosa água, o homem se levanta com renovado vigor e caminha 40 dias pelo inóspito deserto, até o encontro com o Senhor na montanha. Neste mundo tantas vezes estamos como o profeta; as tribulações às vezes nos levam à derrelição. Mas eis que surge um anjo, um mensageiro de Deus, seres especiais que nos imprimem alento, que sopram com suas cândidas palavras e delicados gestos uma refrescante aragem nas nossas vidas, atenuando o rigor do clima desértico que tantas vezes assola nossa frágil existência. São pessoas que nos apontam que sim, há deserto, mas nos fazem perceber também que Deus não nos abandona, o pão e a água não hão de faltar.
Eu pude conhecer pessoalmente a D. Ida no Asilo de Amparo. Mais de uma vez acompanhei você naquelas visitas. Pude receber também a bênção patriarcal dessa honrada serva do Senhor. Obrigado por você ter me dado não só a chance de conhecê-la, mas mais ainda, ter me colocado sob suas preces, tendo ela se tornado na sua própria expressão uma "madrinha" espiritual para minha caminhada!
Esteja na Paz com nosso amado Deus, D. Ida, participando da alegria que o nosso bom Pai do céu prepara para estes degredados habitantes deste exílio de cá. Como dizia S. Teresa d'Àvila: a vida neste mundo é como uma noite passada em má hospedaria! Que sejamos bons hóspedes dessa casa de passagem, para logo estarmos na nossa verdadeira Pátria do Amor e da Paz!
(Estive esta semana toda em Cascavel pregando retiro para Monjas de S. Clara. Foi uma dádiva divina!)
Abraços! Obrigado por esta homenagem à D. Ida.
Fraternalmente: o Freizinho!

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