Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Comentários recentes

  • Anónimo

    Nossa!!!! Quanta emoção!!!! Tempos de afeto.

  • Anónimo

    Que maravilha de detalhes mano Deus abençoe sua sa...

  • Rudá

    Que lindo. Me emocionei. Parabéns!!!!

  • Cynthia Andrade

    Que delícia de texto, Filipe! Imagino como ficou o...

  • feldades

    Há tempos que planejava algo sobre ele. Obrigado p...






ESPERANDO NO PORTÃO

por feldades, em 10.11.17

Ele estava parado em frente ao portão da escola enquanto os estudantes entravam em costumeira algazarra. Eu deixava o prédio após o expediente e tentava alcançar a rua, desvencilhando-me daquela turba irrequieta. O homem parecia desorientado. De rosto encovado e olhos claros, seus cabelos muito brancos e despenteados davam a impressão de que o chapéu lhe fora arrancado minutos antes por uma ventania. Aproximei-me e perguntei: “O senhor não quer entrar? Não quer encarar essa meninada e dar umas aulas?...” O velho me fitou vermelho e vi seus olhos turvados de indignação. Pensei-o bravo por eu ter sugerido algo “abominável”: dar aulas. Não, ele não estava bravo por isso, mas por outro motivo.

 

“Você trabalha aqui?”, perguntou. “Sim”, respondi. “Já procurei a deretora, mas não resolveu. Agora eu vou fazer do meu jeito.” “O que foi?” “A minha menina tá dando beijo num sujeito aí, e eu não vou deixar isso ficar assim. Minha mulher está lá no Jardim Público atrás dela, mas acho que não encontrou. Eu vou ficar aqui, quero pegar os dois de cinta!” Disse, mostrando um surrado cinto que mal amarrava a calça.

 

O homem estava mesmo furioso e parecia ter razão. “É sua neta... sua filha?...”, eu quis saber. “É minha neta! Só tem treze anos e agora cismou de namorar. Mas o namoro de hoje é diferente, não é mais como antigamente. E o rapaz é desses que usam tatuagem, brinco e uns arames na cara. Eu não gosto desse tipo e vou livrar a minha neta das garras dele."

 

Fiquei um momento com aquele senhor e deixei que desabafasse. No começo estava muito feroz, mas depois suavizou. Passou-me a impressão de ser um homem de ‘muitas roças’. Traz as mãos calejadas, poucos dentes e grande preocupação com a neta – muito sem juízo, pelo jeito.

 

Sua vida não teria sido fácil. Sustentara a família no ‘cabo da enxada’, labutando sob sol, sob chuva até a velhice. Talvez tenha perdido um filho, deixando órfã a menina de quem passara a cuidar. A vida no campo fora-lhe dura, mas pacata. Na cidade, o pequeno conforto adquirido é contraposto à violência, drogas, preocupações. A neta não pode se perder.

 

Enquanto conversávamos, às vezes ele lançava os olhos pelas bandas do Jardim Público, mas não via a esposa, que deveria estar nas cercanias ao encalço da neta. Talvez a menina já estivesse na escola, tendo entrado antes ou... pior: ‘fugira’ para a casa do namorado, cabulando aula.

 

A sirene tocou e o portão estava sendo fechado. Alguns retardatários chegavam correndo e o portão, enfim, cerrou-se num rangido rouco. Despedi-me do homem, que continuou lá esperando a mulher, a neta e uma solução para o problema. Na despedida, conseguiu sorrir, juntando ao sorriso uma sentença: “Comigo vai ser no rei. Porque só mesmo um chicote pra consertar essa gente!

 

Segui devagar e pouco depois encontrei dois rapazolas sem camisa, enfiados em bermudões coloridos. Tinham uns “arames na cara”, o corpo tatuado e falavam numa gíria viscosa: “E aí, fi, a mina nem veio... Aquele lá é o vacilão do véio. Acho que deu treta prela. Vambora!”

 

FILIPE

Autoria e outros dados (tags, etc)


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.11.2017 às 11:31

Infelizmente, é a realidade de muitas famílias que não dão conta de educar seus filhos, frente a uma sociedade que caminha torcendo os valores mais sublimes. Muito boa sua crônica!
Bom dia, Felipe Moura

Lucia Bastos
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.11.2017 às 18:37

O passado e o presente sendo confrontado num belo post..
O avô com certeza foi criado na roça...na forma antiga
a neta na cidade e nos dias atuais onde valores antigo caem por terra....
Imagem de perfil

De aureliano a 11.11.2017 às 11:04

Muito bem lembrado no comentário acima (parece ser do Carlos), quando dois mundos culturais se encontram. Vida urbana e vida rural têm feito caminhos difíceis. E é claro que o mundo rural está sendo engolido, devorado pela cultura urbana.
Os valores são diferentes, diversos e complexos. Há uma confusão na mente de muita gente. Há famílias inteiras que deixam a roça e vão para a cidade. Chegando aí se perdem na complexidade da vida na cidade. Isso sem falar nas questões sociais como o trabalho, o emprego, a luta pela sobrevivência, a escola, a saúde.
Um desafio que bate à nossa porta todos os dias. E, na maioria das vezes, a gente não sabe o que fazer. Muitas lágrimas, suor e sangue derramados devido a conflitos de valores, a perdas irreparáveis nas relações que sustentavam o núcleo familiar e davam muitas alegrias a todos. O que fazer?
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 12.11.2017 às 20:58

O texto ficou tão bom e bem escrito que amenizou a realidade;
Vejo um futuro sombrio pra essa nova geração, tomara que eu esteja errado...Infelizmente esse Senhor está tomando atitudes erradas e a situação vai piorar...o único jeito é acreditar e torcer pela preservação e dignidade da família.

Carlos Lopes
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.11.2017 às 18:34

Crõnica que retrata a preocupação dos avós com os netos . Difícil educar e querer levar para o caminho certo quem hoje quer só farras.

Comentar post





Comentários recentes

  • Anónimo

    Nossa!!!! Quanta emoção!!!! Tempos de afeto.

  • Anónimo

    Que maravilha de detalhes mano Deus abençoe sua sa...

  • Rudá

    Que lindo. Me emocionei. Parabéns!!!!

  • Cynthia Andrade

    Que delícia de texto, Filipe! Imagino como ficou o...

  • feldades

    Há tempos que planejava algo sobre ele. Obrigado p...