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FREIZINHO

por feldades, em 09.12.16

Ligeiramente atrasado, cheguei às cinco e quarenta da manhã à simpática cidade paranaense de Ponta Grossa, mas ele já me esperava na rodoviária. Não o vi de imediato, pois eu estava meio zonzo após tantas horas no “porão” daquele ônibus e minha coluna gemia devido ao desconforto da “segunda classe”.

 

O reencontro foi caloroso, como convém a velhos amigos que se reveem. Entramos no carro, passamos num posto para abastecer e comprar erva-mate – uma “Bitumirim” desbotada, mas saborosa. “Esta é o povão que usa”, disse-me um alegroso e todo prosa Freizinho.

 

Entramos no convento quando se celebrava a primeira missa. Paramos diante da capela, toda decorada para o Natal e fiquei embevecido com tanta beleza. O chão coberto de feno compunha um autêntico estábulo. As cadeiras e as paredes revestidas de papel pardo davam a impressão de se estar numa gruta formada por um vasto rochedo. E ainda os frades com seus batinões cinza... Aquele cenário me fez retroceder mil anos e me vi em plena Idade Média – uma página viva de Umberto Eco, mas sem a dramaticidade de “O Nome da Rosa”.

 

No entorno do convento, lírios, pinheiros e muitos pássaros. São juritis, tico-ticos, bem-te-vis, anus, canários e “anônimos”, que cantam e encantam num incessante louvor. No pátio interno, entre as galerias de celas, uma parreira exibe incipientes cachos. Próximo à minha janela, um sino no alto de uma torre anuncia desde as Laudes até a última prece que precede o repouso. Contemplei aquele sino e tive vontade de puxar a corda e badalar, badalar, badalar.

 

Há também um eremitério dentro de um bosque e o Freizinho me levou àquele pedacinho do Éden. É uma pequena e rústica capela com três bancos de madeira bruta desdobrada, um estreito corredor como aposento e tendo ao fundo um banheirinho – tudo o que um eremita necessita para viver ‘holisticamente’ integrado a Deus e à natureza. Na frente da capela, há uma torre com um sino (que tangi diversas vezes) e, nos fundos, uma aconchegante varandinha com fogão a lenha. O Freizinho acendeu o fogo – ou a fumaça, pois houve mais fumaça do que fogo. A água da chaleira chegou a chiar, mas não a usei no chimarrão. Tivemos que voltar devido aos inúmeros compromissos que esperavam pelo frei.

 

Mas a vida desse franciscano não tem nada dos floreios bucólicos que esta crônica sugere. Amante das artes, da literatura, da vida acadêmica e campestre, ele não tem tempo para devaneios poéticos.  Acorda sempre de madrugadinha e seu dia não tem hora para terminar. Como um típico socorrista, ele tem ao longo do dia uma barafunda de crises para resolver. Crises conjugais, de relacionamento, existenciais, familiares, de fé etc. Como se não fosse suficiente a faina diária e as viagens pelo País – todas de ônibus, porque o Freizinho tem pavor dos ares –, ele ainda dirige os trabalhos de uma comunidade assistencial a moradores de rua.

 

Já é quase meia-noite, quando o Freizinho começava a celebrar na Comunidade Deus Pai para um público formado basicamente de mendigos. Após a celebração, uma perua percorrerá a cidade à procura de moradores de rua a fim de lhes servir sopa com cachorro quente. Animado por um violão, o grupo de voluntários dança, cantando músicas diversas, sendo “Zaqueu” o hit preferido. Dentre os “clientes”, há um maluco, que se esbofeteia o tempo todo; outro que recusa a sopa e nos afugenta; mais à frente, quatro homens e uma cadelinha dividem calçada, cobertores e o lanche. A cachorrinha coça suas pulgas enquanto seus donos tomam sopa em caixa longa-vida. Mas a caravana segue viagem madrugada adentro, enquanto o Freizinho e eu caímos fora. O cansaço venceu! Às três horas e vinte e três minutos, entrei em minha cela; às seis, o Freizinho já está com seus confrades na capela rezando as Laudes!

 

A biologia nos dá irmãos, os amigos nós conquistamos, mas poucos têm a graça de ter um irmão que é também amigo. Amigo é alguém com quem se partilha angústias, e de quem se aceita eventuais reprimendas sem que fiquem mágoas. E o Freizinho é-me singularmente irmão e amigo. Obrigado, mano!

 

FILIPE

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6 comentários

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De Everton Souza a 09.12.2016 às 20:39

Meu caro amigo, que saudade de falar com você...

Sobre o seu texto, Deus agraciou-te com esse seu irmão. Desfrute sempre da amizade dele, esse amizade com certeza sempre te edificará. Feliz é aquele que tem um amigo; quem o tem, na verdade possui um tesouro.

Abração!
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De feldades a 17.12.2016 às 09:51

Everton, que bom poder contar com sua companhia neste espaço!
Obrigado pela consideração.
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De Carlos Lopes a 09.12.2016 às 20:48

A sua descrição ficou tão boa que viajei nessa...ver essa beleza simples, sentir atitudes sem interesses e pensar nesse trabalho difícil que é feito com paciência, carinho e dedicação...é muito lindo.



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De India sara a 10.12.2016 às 09:48

Como sempre ... texto perfeito!!! Brinca c as palavras, realmente lugar lindos histórias lindas e dramáticas ao mesmo tempo, Deus abençoe nosso freizinho hj e sempre e a toda família!!! Pena não poder vê lo mais fico feliz saber q desbravou nosso querido Paraná kkkkk Deus abençoe Felipe
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De aureliano a 10.12.2016 às 14:48

Filipe, você retratou magistralmente os espaços franciscanos em que reside nosso querido irmão. Ele sempre se mostrou feliz, realizado como discípulo de São Francisco. Minhas visitas àquele lugar me faz examinar a consciência em relação ao espírito de simplicidade e de despojamento bem como o de fraternidade que devem habitar a alma do consagrado.
A beleza da capela-presepe expressa a alma franciscana viva naquela comunidade, uma vez que o Poverello de Assis foi o inventor deste sinal do nascimento do Salvador.
Parece que está faltando uma contemplação mais concreta e eficaz do presepe de Jesus. Está espalhado enquanto enfeite, mas muito distante enquanto realidade de vida.
Muito bacana os gestos de saída para oferecer um pouco de alívio aos sofredores de rua. Pois, a esperar de Brasília, o sofrimento destes e outros pequenos, tende a aumentar.






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De frei Gabriel a 10.12.2016 às 16:15

Oh meu querido Mano!
Obrigado pela agradabilíssima visita! E pela tão amável companhia!
Foram só dois dias, mas muito intensos e bem preenchidos!
Quando se vive a partir do amor e da amizade, e da comunhão fraterna, tudo se reveste de um colorido tão especial. Ou melhor, começamos a contemplar o mundo com o olhar de Deus.
Amo a vida franciscana, mas sei que muito devo aprender, de muito despojar-me, amar mais universalmente para degustar as alegrias puras de Francisco, o cantor das maravilhas de Deus. Vale a pena continuar tentando!

Agradeço a todos que partilham e comentam esse blog tão diferenciado nas apreciações, livres, mas responsáveis, de alguém muito sério, de um coração imenso, que sonha, até com certa impaciência, com um mundo mais franciscano. Este seria do jeito imaginado e ensinado por Francisco de Assis, um autêntico discípulo de Jesus Cristo, homem da paz e do bem!

Continuem rezando por mim...

Grato: Frei Gabriel, o Freizinho!

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