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JAMAIS ESQUECEREI

por feldades, em 02.04.22

É manhã de sexta-feira e acabo de falar ao telefone com meu pai. “Estou muito agradecido a você por ter me internado, ele disse”, e continuou: “Desde a hora em que cheguei aqui, não tive nenhuma crise, nem tosse... nada! Estou muito bem.”

 

Essa passagem me evoca uma memória bem antiga. Volto-me à longínqua década de 1960, quando, há 54 anos, era papai quem me internava nesse hospital. Eu era um garoto que tinha seis anos, febre alta e um montão de bichos-de-pé. Tinha também mão inchada, pés putrefatos e um corpo vergado de dor.

 

Lembro perfeitamente do dia em que meu avô Sebastião veio a minha casa e me viu doente. Vovô decidiu pela minha internação, pegando-me e me levando ‘na cacunda’ até a estrada, onde esperamos a ambulância que me levaria a Visconde do Rio Branco. Papai me acompanhou até o São João Batista, onde fui internado – o mesmo hospital em que se encontra meu pai. Meu pai, não. Meus pais. Porque mamãe também está “hospedada” lá. Ele no 301 e ela no 202.

 

Surpreso com a recuperação de minha mãe, o médico disse poeticamente: “Ela chegou uma ‘folha de papel’ e já está uma ‘flor de lótus’!”

 

Nunca me esquecerei dos momentos dolorosamente vividos na internação de minha mãe. Aquele corpo gordinho (e frágil) balançando sobre a maca que deslocava ruidosa e trepidamente pelos corredores e rampas, indo de um pavimento a outro; o procedimento com cateter; os muitos ‘ais’ até que uma veia fosse encontrada; as mãos atadas.

 

Também nunca me esquecerei do dia de ontem, quando levei meu pai para sua primeira internação – aos 91. De quando o conduzi pelo braço, do carro até o prédio; a entrada para a sala de espera da consulta; depois a consulta; em seguida, a ‘longa caminhada’ até a secretaria para assinar a ficha de internação; a ‘longa subida’ ao segundo pavimento; o emocionante encontro com mamãe ali internada; outra caminhada ao terceiro pavimento; mais uma pausa para descansar; e, finalmente, a chegada ao 301. Meu pai entrou e sentou ofegante numa poltrona. Inclinado e com as mãos entrelaçadas, parecia refletir sobre a situação. Por fim, ergueu-se e se acomodou em seu leito.

 

Vendo meu velho ali, lembrei-me de quando ele me trouxe para esse mesmo hospital.  Eu não queria ficar, mas papai me abençoou, despediu e foi embora triste. Eu fiquei em lágrimas. Dessa vez, papai me abençoou, mas foi ele quem ficou. Eu vim embora triste, mas sem lagrimas.

 

 

FILIPE

 

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1 comentário

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Anónimo a 03.04.2022

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