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JANELAS FECHADAS

por feldades, em 11.02.17

Publicado em 22/06/2012 no "blogdofilipemoura.com"

 

Por quanto tempo habitara aquele casarão? Para a rua, são sete janelas. Sete janelas sempre fechadas e no interior da casa, aquela misteriosa senhora. Sua existência leve, sutil, passou como uma sombra – dessas produzidas por uma pequena nuvem que encobre o sol. Mas tão fugaz, que mal se nota.

  

Uma única vez pude vê-la à soleira de uma das janelas timidamente aberta. Conversava com uma passante. Talvez amiga antiga ou, quem sabe, uma vizinha com quem se conta para emergências eventuais. Mas foi só. A sua presença fazia-se notar somente à noite, quando uma tênue claridade, vinda de seus aposentos, vazava pelas frestas de uma ou outra janela. Aquele enorme espaço parecia ser ocupado pela mais absoluta solidão.

 

A velha senhora se foi tão discretamente como vivera. Deixara o casarão, também velho, de paredes descarnadas, com a cal e o reboco puídos, mas conservando os traços de uma pomposa arquitetura do final dos oitocentos ou do alvorecer dos novecentos. Talvez um vitoriano tardio.

 

Sempre associei casa a um rosto. Uma casa fechada, de janelas fechadas, parece-me triste. Tem a expressão de um choro. Enquanto uma casa de janelas abertas, escancaradamente abertas, expressa um sorriso, uma gargalhada até. E o casarão da esquina ficou ainda mais triste sem aquela mulher.

 

Como teria sido o seu dia a dia? Fazia palavras cruzadas, lia, rezava, ouvia música ou escrevia suas memórias? Sempre que eu passava em frente, imaginava-a absortamente curvada sobre uma mesa, escrevendo suas lembranças. Rememoraria sua infância junto ao avô, que sempre lhe contava a história daquele casarão. O velho, quando moço, carregara os tijolos para fazer o alpendre. Todo o material teria vindo em carros de boi, com suas enormes rodas em aro de aço sulcando as ruas da cidade, todas de terra. O aboio e a cantiga produzida pelos cocões feito cigarras ficaram bem lá atrás. Essas e outras reminiscências estariam registradas nuns caderninhos empilhados sobre uma pequena estante no canto da sala. Que destino terão aqueles escritos?..

.

Como foi seu último dia? Acordou cedo, tomou café, ou tomou um chá para aliviar a dor que viria ser a derradeira? Teria alguém por perto para lhe fazer o chá? Alguém que lhe apertasse a mão, que a ouvisse e que prometesse que guardaria seus escritos, que os queimaria ou que os publicaria? Ou partiu como sempre vivera?... Só. Sentira medo, frio, fome, sede? Talvez a porta estivesse mal fechada e uma incômoda corrente de ar frio lhe causasse arrepios e ela, sem forças para se levantar, tenha procurado um segundo cobertor para se agasalhar. Mas este estava no guarda-roupa, a “léguas” de sua cama. Entre tremores e temores, sua visão teria ficado turva. Seu olhar, embaciado, varreria o ambiente numa agônica despedida. No canto à esquerda, a mesinha com a Bíblia aberta nos Salmos; à frente, a penteadeira com restos de perfume, colônias e outras coisas que há muito deixara de usar; no alto da parede oposta, um retrato do casal, já bastante amarelado, ladeado por um crucifixo e o guarda-roupa enorme e inútil porque incapaz de atendê-la com seu estoque de cobertores. E, naquele torpor, tudo se misturava, confundia e embriagava. O mundo girava e girava, e cada vez mais rápido. Seria impossível mesmo suportar a fúria do fim.

 

FILIPE

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4 comentários

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Imaculada a 11.02.2017

Estive visitando em janeiro, São João Del Rei e Tiradentes. E assim como você fiquei a imaginar sobre quantas pessoas já moraram naqueles casarões e andaram por aquelas ruas de pedra. Quantos amores e quantos sonhos vividos! E hoje somos nós trilhando e fazendo a nossa história. É muito prazerosa a leitura de seus escritos.
Parabéns pelo história do Airton, sjerve de lição de vida para todos. Abraços e abençoado final de semana.

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