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MEU PRIMEIRO ALUNO

por feldades, em 12.02.22

WhatsApp Image 2022-02-12 at 06.56.02 (1).jpeg

A imagem acima deverá ser a de minha última lousa. Eu quis fazer o registro porque nesse dia, quando se completavam exatos trinta anos de magistério, eu estava me despedindo dos alunos para uma licença bastante prolongada, e sem o propósito de retornar à sala de aula.

 

Certa vez escrevi neste blog, que um professor deveria se aposentar aos ‘cinquenta anos’ porque o docente, assim como a mortadela, tem data de validade. No meu caso, a coisa está ficando mais complicada porque já fiz ‘sessenta’!

 

A minha primeira experiência de professor se deu quando eu tinha dez anos de idade. Um tio, que era trabalhador rural e que estava para fazer dezoito anos, queria se mudar para a ‘cidade grande’ e tentar uma vida melhor na indústria. Para isso, ele teria que fazer um teste de conhecimentos que incluiria alguma operação matemática. Numa tarde,  ele apareceu na minha casa montado numa égua e me pediu para lhe dar umas “aulas”. Meu pai consentiu e ele me pôs na garupa do animal, que foi trotando até a sua casa. Naquele dia, ficamos até altas horas fazendo continhas, principalmente as de multiplicação por “dois ou três algarismos”.

 

Como tudo ia muito bem, ele disse: “Menino, agora eu já sei fazer as “contas de vezes”, mas preciso aprender aquelas ‘de dividir’. Então pegamos as divisões com “um algarismo na chave” e a coisa deu certo também. Com isso, ele se animou e me disse: “Agora vamos fazer uma conta mais ‘pesada’, porque essas aí eu já aprendi”.  “Mas tio, vamos deixar para amanhã...” Ele aceitou acrescentando: “É mesmo. A minha cabeça já tá até rodando de tanto número!”

 

Dormi na casa dele aquela noite e voltei para minha casa na manhã seguinte. À tardinha, o tio chegou novamente para buscar o “seu professor”. Montei na garupa da égua e voltei para dar a segunda “aula de matemática”. Ele pegou os papéis da aula anterior, desdobrou, olhou, pensou, dobrou-os novamente e os guardou. Depois pegou uma folha em branco e me disse: “Agora eu quero que você me ensine aquelas de dividir, mas com ‘dois números’”. Fiquei gelado, porque eu me enroscava com as tais divisões com ‘números de dois algarismos’ na chave. Tentei dar uma enrolada, sugeri rever as contas de multiplicação, alguma coisa envolvendo adição e subtração, mas ele não cedeu. O tio estava ‘firme na touceira’ e queria aprender algo mais complexo. “Cê tá ficando doido, sô. Eu vou ficar repetindo uma coisa que já sei?! Eu quero aprender aquela outra...” “Então, vamos lá!”, eu disse mal disfarçando meu visível mal-estar.

 

Passei uma conta mais simples com os tais “dois algarismos” e fiz pra ele ver. “Ah, eu não estou entendendo não...” Expliquei novamente, e ele: “É, essa aí é difícil mesmo!”. No final – para minha sorte, devo admitir –, ele desistiu, e muito elegantemente disse: “Olha, acho que você sabe fazer, só que eu não consegui entender nada. Mas o ‘muncadim’ que aprendi aqui já vai me ajudar na firma.”

 

E assim, menino ainda e sem que eu percebesse, iniciei a carreira de professor tendo como meu primeiro aluno esse tio, carinhosamente conhecido por Zé Boi. Ele foi para a ‘cidade grande’, passou nos testes e trabalhou por muitos anos na indústria.

 

FILIPE

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7 comentários

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De Aureliano a 12.02.2022 às 23:46

Felipe, que crônica maravilhosa! Cheia de graça e de beleza! Pelo linguajar imaginei logo que seria um dos irmãos da mamãe. Parabéns! Obrigado pelo "brinde" de final de semana.
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De Anónimo a 13.02.2022 às 01:52

Sem palavras!
Com início, meio e fim digno de um excelente filme!
Bom professor de matemática desde os 10 anos!
Literato sem diploma há muitos anos!
Filósofo desde sempre!
Parabéns!
Que primor!
(Freizinho)
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De José De Anchieta Moura Lima a 13.02.2022 às 02:09

Felipe brilhante como sempre. Nos brinda com esta memória fantástica. Deus te ilumine mano novo. Achei que era o tio Simeao. Que bom ser bom. Ser profissional aos 10 anos, melhor ainda! Parabéns.
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De Rosiléia a 13.02.2022 às 03:31

Ao iniciar a leitura, imaginei ser o Zé Boi, pois lembrei que ele trabalhou na extinta TRW. Sempre fico no aguardo das suas publicações, só pensando qual será o próximo conteúdo, que são sempre bem vindos.
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De Andréa Piffer a 13.02.2022 às 10:57

Quem teve a felicidade de ser aluno seu não pode esquecer do seu amor e boa vontade ao ensinar! Que todo esse amor agora possa chegar até você um forma de um abraço! Parabéns professor, meu professor preferido! Deus lhe paga🙏🙌
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De Rosane a 13.02.2022 às 11:57

Desde o início pensava ser o tio Pedro. Muito bom o testo. Acho maravilhoso suas crônicas e quando você fala dos familiares acho mais legal ainda, pois fico sabendo de coisas que não eram de minha época ainda e jamais saberia se você não contasse.
Abraços...
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De Anónimo a 13.02.2022 às 12:08

Parabéns, comigo foi a mesma coisa. Quando estava no começo do ensino médio, tentei recuperar uma prima que estava de segunda época (lembra Como era?) E detestava estudar. Kkkk eu explicava e ela ficava olhando para os lados. Não obtive sucesso, ela aprendeu alguma coisa, mas não o suficiente para obter a nota 9 que precisava. A segunda tentativa foi com a irmã dessa . Aí obtive sucesso. Ela aprendeu as equações de primeiro e segundo grau.
Hoje ela é professora PEB I. Algum tempo atrás estive com ela, e ela disse nunca mais ter esquecido. Afirmou que eu explicava muito bem, que tinha vocação para a área de exatas.

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