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MINHA ÚLTIMA AVALIAÇÃO

por feldades, em 04.12.21

Como faço desde o início da carreira, em dezembro dou um pedaço de papel a cada aluno para que avaliem meu trabalho. Recomendo que essa avaliação deva ser anônima a fim de que possam expressar mais livremente seus pontos de vista sobre meus inúmeros erros e possíveis acertos também.  O resultado, embora doloroso para mim, tem sido frutuoso, pois a partir dele, eu me esforço bastante para melhorar a atividade docente. De início, essa “enquete” era feita no último dia de aula, mas devido à debandada prematura dos alunos, tive que antecipá-la.

 

No entanto, engana-se quem pensa ser isso vaidade. De posse dos papeizinhos preenchidos, costumo abri-los apenas quando estamos encerrando a burocracia. No silêncio de uma sala de aula deserta é que eu costumava desdobrar os pequenos “bilhetes”. Ali eu me pegava ora maravilhado com demonstrações de afeto de uns, ora terrificado com a violência verbal de outros. Agora, se me faço vidraça, é por que deveria confiar numa blindagem – mas ela não existe. As sibilantes pedradas que recebo costumam me estilhaçar. Contudo, continuo acreditando que esse trabalho faz parte de meu ofício. De todas as críticas recebidas, as que mais me incomodam são aquelas que desnudam meu comportamento discriminatório. “O professor dá atenção para uns, os inteligentes, e despreza outros”, muitos já disseram essa “mentira”, e parecia ser vã minha tentativa de mudar essa conduta tão ferina. No entanto, devo admitir, esse traço de minha personalidade extrapola o ambiente da sala de aula. Nas relações sociais sou bastante seletivo e confesso (não muito envergonhado) que essa seletividade me traz conforto.

 

Volto à “minha última avaliação” que dá título a esta crônica. Assim que peguei todos os papeizinhos, separei-os por classe e os pus em uma sacolinha para cumprir aquele ritual: ler quando estiver só. “Leu, professor?”, perguntavam-me curiosos alguns alunos no dia seguinte. Eles queriam que eu me manifestasse, que debatesse o assunto. No outro dia, cheguei e disse: “Hoje vou fazer uma coisa que nunca fiz em trinta anos de sala de aula”. Houve um silêncio, uma expectativa, parecia que eu anunciaria o dia do apocalipse. Chamei uma aluna à mesa e a apresentei à classe, dizendo: “Eu não li os bilhetes, mas a colega de vocês vai ler para nós. Vai ler tudo o que estiver escrito, até xingamentos, a menos que o pudor a impeça. Mas ela não vai ler o nome de alguém que resolveu assinar. Fiquem tranquilos”.

 

 

A classe ainda estava silente, apreensiva, paralisada, quando uma aluna irrompeu, protestando: “Por que tem que ler pra todo mundo?!” “Porque quero! Não é anônimo? Qual o problema?...”, rebati. Ouvi dela ainda um pálido resmungo, mas a leitura se iniciou.

 

Por sorte minha, pura sorte mesmo, os bilhetes eram só elogios. Todos, sem exceção, me exaltavam e eu fiquei até embasbacado. No entanto, um aluno visivelmente incomodado mudou de carteira, indo mais à frente. Por fim, ganhou coragem e disse: “Posso pegar meu bilhete de volta? Eu queria mexer nele”. Respondi que até poderia, mas como os bilhetes são anônimos, não teria como. “Eu assinei, professor”, disse ele. A mocinha pegou o papel, que ainda não tinha sido lido, e o entregou ao rapaz. Este o trocou por outro e eu fiquei sem saber por quê.

 

E assim em todas as salas: um aluno lia e todos ouvíamos atentos aquela que foi a ‘minha última avaliação’. Alvíssaras! Desta vez até fui tachado de chato, mas não xingado nem acusado de discriminação intelectual.

 

FILIPE

 

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3 comentários

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De Frei Gabriel a 05.12.2021 às 18:17

Querido, Mano!
Paz e bem!
Vc é realmente um professor!
Alguém que ensina e ensina aprendendo!
Quase chorei ao ler esta crônica!
Já enfrentei sala de aula, mas de alunos acadêmicos!
Apesar de ser frade Franciscano, não me vejo, com coragem, ou melhor com humildade para assim me expor a pedradas.
Sou sensível demais a críticas, ou melhor, orgulhoso demais para me colocar no meu lugar! Uma tentação constante de me achar muito melhor, muito acima da média!
Mas acho que seu testemunho vai me ajudar a me acolher um pouco mais como sou: muito fraco e limitado!
Assim, com certeza serei muito mais de utilidade para a humanidade! Ops, mas aqui ainda entrou um pouco do inimigo da humildade!
Grato.
Freizinho, que se acha FREIZÃO !
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De Aureliano a 05.12.2021 às 18:35

O decorrer do tempo pode nos amadurecer. Colocar-se para ser avaliado com sinceridade não é tarefa fácil, não é para qualquer um. Procuro por vezes me colocar nessa condição. Embora saiba da importância desse recurso, nem sempre o faço totalmente desarmado.
Parabéns, Felipe. Acredito nesse caminho, nesse recurso. Aprendi isso com nosso mano véio, lá em em Santos Dumont, nos idos de 1993. Ele se sentava com os funcionários da Paróquia, rezava o Ofício Divino das Comunidades, e se deixava avaliar com toda humildade.
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De Anónimo a 06.12.2021 às 19:51

Que bom em? Sinal que está valendo à pena todo sacrifício

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