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MINHAS BRANDONICES

por feldades, em 10.10.15

NOTA: Publicado originalmente no blogdofilipemoura, em 20/04/2012

 

Brandonice. Essa palavra não existe nos dicionários. Existe apenas no meu léxico, pois fui eu quem a inventei. Sua história é longa, mas devo abreviá-la para não cansar a solitária leitora ou leitor.

 

Nos tempos em que ginásios eram escolas, frequentei um. Alguns frequentavam-no para aprender aritmética, gramática, ciências e outros saberes; outros compareciam às aulas parecendo ter como único objetivo o de ser reprovado. E naquele tempo, as reprovações eram terrivelmente abundantes!

 

Na hora do recreio, formava-se uma fila para comprar merenda. Os ricos compravam refrigerante e salgadinho – uma tal meia-lua, que um dia tive a glória de experimentar; a classe média comprava pão doce e um tal qui-suco; nós, da classe baixa, disfarçávamos engolindo saliva mesmo. Alguns estavam tão famélicos, que costumavam percorrer o pátio a pedir um pedacinho de pão. Lembro-me de um moleque que fez uma farta colheita, juntou todos os pedaços, socou-os com as mãos e conseguiu formar um enorme pão.

 

Normalmente era em torno de uma garrafa de Coca-Cola que se reunia o maior número de pessoas. O grã-fino, após dar um sonoro arroto, entregava a garrafa contendo um resto de refrigerante a um daqueles miseráveis. Era uma forma de pagamento pelo transporte e devolução do vasilhame. E esse “emprego” era bastante disputado.

 

O assunto que mais animava o grupo era futebol. Discutiam sobre torneios, escalações e todos ali jogavam. E pelo que se ouvia, todos eram  craques. Nas disputas entre as classes, que sempre aconteciam, ninguém me escalava. Nem para goleiro! Talvez desconfiassem, com alguma razão, de que eu não brilharia nos gramados...

 

Certo dia, a discussão estava bastante inflamada e o assunto era o Campeonato Carioca. Havia uma polêmica sobre o regulamento ou algo assim.  Eu, estando por ali, pensei: “Por preconceito deles e por prudência minha, nunca participo dos torneios estudantis. Aliás, nem mesmo das discussões relacionadas a futebol. Tudo bem, eu não sei mesmo jogar bola, mas sou muito discriminado.” Resolvi, então, participar daquele debate tomando partido de quem parecia entender mais do assunto e, além do mais, vascaíno como eu. Foi quando intervim: “O Brandão, em entrevista ao repórter Fulano, disse que esse assunto deverá ser resolvido pela Justiça Desportiva em favor do Vasco. Caso contrário, caberá à Justiça Comum dar a palavra final!”.

 

Tudo bobagem. Nem sequer sabia o teor da discussão, mas resolvi dar minha contribuição. Esse Brandão realmente existiu, mas nunca soube o que ele fez na vida, e nem o que da vida fez. O que importou no momento é que a turma toda parou para me ouvir. E minha coroação veio no final, quando alguém liquidou a fatura dizendo: “E aí, ouviu o cara, meu? Tô falano e ninguém dá bola... Agora o cara disse tudo!”

 

Nunca mais falei e nem fui convidado a dar opinião sobre aquele assunto. De forma que considerei resolvido o problema, sentindo-me útil naquela ocasião. Porém, em outras rodas e sobre os mais variados temas, costumo dar opiniões. Que são inconsistentes, todos sabem, mas a novidade fica por conta da confissão que agora faço: não me levem a sério, pois tudo o que falo não resiste ao menor teste de validade. É pura brandonice.

 

FILIPE

 

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1 comentário

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De Everton Souza a 15.10.2015 às 16:24

Felipe, formidável a sua delicadeza quando escreveu que teve a glória de um dia comer a tão famosa meia lua! Um fetiche de criança, né? kk Que criança não tem as suas ilusões sobre coisas de comer? Eu já tive as minhas, também já fui glorioso em certos momentos... ah!, como essa glória é fugaz, mas é uma delícia

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