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O CENTENÁRIO DE AURÉLIO

por feldades, em 16.02.18

Aurélio de Moura, meu saudoso avô materno, teria feito cem anos no último dia 12 de fevereiro. De vida frugal, sofrida e solitária, vovô foi um homem doente, e por diversas vezes levado ao Colônia – um hospital psiquiátrico em Barbacena tristemente retratado no livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex . Quando internado, trabalhou duro cortando lenha, dando banho em pacientes e ajudando a pôr cadáveres em caminhões – que chegavam a dezenas por dia. Naquele tempo, havia por lá as abomináveis sessões de eletrochoque e, segundo diziam, um temível “chá da meia-noite”. Sobrevivendo aos choques e sem tomar o “chá”, vovô sempre voltava do Colônia mais gordo, de cabeça raspada e queimado de sol. Lacônico, guardava para si as muitas histórias daquele ‘manicômio’.

 

Uma sutil mudança de comportamento indicava a fragilização psíquica de meu avô. Começava insone, perambulando pela casa ao lume de uma lamparina; depois, punha uns óculos de sol e saía pelas redondezas, fazendo rápidas visitas, distribuindo terços. O homem, antes caseiro e taciturno, tornava-se ‘andarilho e falante’. Era chegado, então, o momento da internação. Criança ainda, acompanhei de perto algumas de suas dores como essas, mas também o drama sentimental vivido com o fim do casamento.

 

Certa vez, minha avó decidiu voltar ao antigo lar para uma visita. Vovô morava na companhia de um filho e, sabendo da novidade, ficou animado. Foi à vendinha, comprou “quitandas” e fez um café bem caprichado para a ‘amada’. Na sala, uma bem-comportada vovó permaneceu solene, como convém a uma visita distinta. Levei o bule com o café para ela enquanto ele ficou por ali ‘meio escondido’, pensando na vida, mas satisfeito. Eles não se encontraram, infelizmente.

 

Vovô era um homem sem vaidade. Andava descalço, as calças um pouco arregaçadas e, nos rigores do inverno, usava um paletó escuro.  Gostava de ficar em casa, saindo apenas para buscar água na fonte ou para fazer pequenas compras. Homem piedoso, rezava o terço frequentemente. Ao se aposentar, teve certa dignidade, podendo fazer suas caridades. Mas sempre que pegava o ordenado, passava primeiramente na igreja e deixava lá o seu dízimo.

 

Arredio, nunca me lembro de meu avô sentado à mesa, participando conosco de uma refeição ou de um bate-papo. Estava sempre de passagem, chegando ou saindo. No almoço ou no jantar, pegava seu pratinho de comida e se escondia num canto. Terminada a refeição, sumia. Ia dar água aos porquinhos, milho às galinhas, recolher ovos etc.

 

Crianças, certa vez, fomos dormir na casa dos avós. Era tarde e tagarelávamos, incomodando o vovô. Irritado, ele contou esta história: “Havia uns meninos desobedientes, que não respeitavam ninguém. E numa dessas ‘desobediências’, eles saíram para um passeio no mato. Nisto, apareceu um homem com uma capa preta, que foi se aproximando. Quanto mais se aproximava, maior ficava aquela ‘criatura’. Quando chegou bem perto, ele se agachou sobre as crianças, cobrindo-as com a capa. Embaixo da capa ficou tão escuro, que elas não conseguiam sair dali. Então começaram a rezar até que os pais chegaram e as libertaram. Somente depois souberam que aquele ‘ser’ era o diabo”. Depois disso eu não dormi, mas o avô ficou em paz.

 

Já adulto, novamente pernoitando em sua casa, havia por lá uma irmã dele bem idosa e meio ‘gagá’, falando sem parar. Então vovô disse: “É, comadre, estamos numa fila. Você vai na minha frente, mas logo eu vou também. Todo mundo está nesta fila e ninguém escapa”. Tempos depois, a ‘comadre’ partiu; mais um tempo, partiu meu avô. Eu continuo na fila...

 

FILIPE

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3 comentários

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De Aureliano a 16.02.2018 às 11:36

Filipe, li sua crônica com os olhos lacrimejados, o que há muito não me ocorria, pois fiz uma viagem. "Vi" o vovô aqui, ali e acolá. Assaltou-em um sentimento de saudade e de dor. Um homem que viveu uma vida diferente. Um sofrimento diferente. Uma vida melancólica, sem ser melancólico. Uma "loucura", sem ser doidura. Uma piedade, sem fanatismo. Um cuidado com os filhos, sem violência nem paternalismo. Uma vida solitária sem isolamento.
A vida do vovô Aurélio merece ser mais lembrada. Ele foi um sinal de Deus. Esse modo de ser "diferente" marcou profundamente a mamãe e o papai. Por isso a mamãe não o esquece nunca. Sempre o menciona. E o papai fala sobre ele com respeito e admiração.
Guardo poucas, mas muito boas lembranças dele. Acho que podemos dizer que ele viveu para Deus e para os irmãos. Nos momentos de insanidade ele só fazia o bem.
Vovô Aurélio, pede a Deus por nós, pois ainda estamos distantes daqueles gestos de generosidade e gratuidade que tu praticaste. E quando formos chamados para "sairmos da fila e entrarmos na sala", sejamos acolhidos pelo abraço do Pai.
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De Anónimo a 16.02.2018 às 11:37

Emocionante essa historia. Faz muito bem em honrar nossos antepassados. Sempre faço uma prece de gratidão pelos meus. "Sinto muito, me perdoe, sou grata, te amo!!. gratidão Felipe Moura Lima pela partilha! Bom dia!
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De Anónimo a 17.02.2018 às 19:15

O texto me deixou aéreo, voei sem saber como aterrizar....toca as emoções e a alma...o Aureliano conseguiu expressar a mensagem de forma bela e nobre....
Você surpreendeu!

Carlos Lopes

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