Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]





Comentários recentes

  • Renato Pires

    É impressionante como os mais velhos desenvolvera...

  • Anónimo

    Felipe eu o admiro muito, todos os contos que escr...

  • feldades

    Você me vê com seus 'olhos de bondade'. Obrigado p...

  • feldades

    Este é um singelo tributo a ele. Textos melhores f...

  • Anónimo

    Mais uma vez, Mano, você nos brinda com um esmerad...






O JULGAMENTO DIVINO

por feldades, em 27.10.17

Recentemente, tive um civilizado bate-boca com um amigo em rede social. No contexto em que se deu o “entrevero”, o jovem, idealista e pertinaz, defendia a primazia da “justiça divina”, enquanto eu apelava para a “divina misericórdia”.

 

A ideia de um “Deus de Justiça” me vem à cabeça sempre com certo alívio. Fico imaginando aquele homem furibundo, fortão e barbudo, com a balança numa das mãos e a espada na outra. Um arcanjo, acho que os anjos têm essa função, pega a alma e a põe trêmula na balança do “Juiz”. Este entrega a espada ao auxiliar, um querubim, e dá uma ajeitada na balança. Desloca umas argolas, endireita o braço, olha a escala e faz umas contas, de cabeça mesmo, porque calculadora não lhe faz falta. Após breve análise, a alma volta encolhidinha e já com o destino selado às mãos do arcanjo, que estava ali esperando o veredito. A frase: “Afastai de mim, malditos. Ide para o fogo do inferno!” soa-me como ópera, se proferida contra ladrões, homicidas e os demais malvados de nossa espécie. Mas, dependendo do momento, o “Deus de misericórdia” me parece mais conveniente, por não ter espada nem cara crispada. Com este, tudo se resolve numa conversa macia e uns tapinhas nas costas. Ao final, ajeitam-se as coisas e cada um tem garantida a vaga no “ninho celeste”. Bacana, não?...

 

Não, não é bem isso que deve acontecer no “Dia do Juízo”.  O Deus da justiça é o mesmo Deus misericordioso. A justiça divina está baseada na nossa prática de justiça terrena; a misericórdia divina também se dará conforme nossa conduta, se usamos ou não de misericórdia. Esse “deus bravão” não existe, como também não existe o “deus bonachão”. Sua misericórdia é infinita, mas sua justiça não falha. Misericordioso, Deus acolhe a todos: puros e impuros, cristãos e não cristãos, muçulmanos, animistas, ateus... todos! Mas Deus não nos obriga a aceitar Sua acolhida. Se estamos em inimizade com Ele, o problema não é divino, mas nosso, e seremos julgados pelos nossos próprios códigos. Naquele dia, a grande surpresa pode ser a seguinte.

 

Eu levo uma vida de sacrifícios, desapego, jejuns e orações, e de mortificações. Mas o pândego do meu vizinho, ao contrário de mim, é sujeitinho à toa e da pior espécie. Por coincidência, chegaremos juntos diante de Deus para o tão esperado ”julgamento”. Pode ser que Deus me convide a entrar. E eu entro, olhando disfarçadamente para trás, pensando: “Agora ele vai se ferrar!”. Mal eu ponho os pés na soleira da porta do Paraíso, alguém toca no meu ombro: “E aí, parça! Vamo de boa nessa?..." Olho assustado: ”Não, não pode. Esse ‘tranqueira’ entrando comigo no Paraíso?... Com ele, eu não fico aqui!” Então, volto ao Senhor: “Como pôde salvar aquele cara?... Ele deveria estar nas chamas, porque foi dito: “Ide para o fogo...” “Chega!”, diz o Senhor, tentando controlar uma inesperada fúria. “Filho, tu vês apenas a obra. Eu também aprecio os grandes feitos da humanidade: as obras missionárias, o sangue dos mártires. Aprecio também o Barroco de Minas, a Capela Sistina. Mas não só. O que vale aqui, não é o “resultado contábil”. Não leste nas Escrituras: ‘Esforçai para passar pela porta estreita’? Por isso, considero o esforço de cada um a maior riqueza. E esse tesouro, apenas eu posso avaliar!”

 

Concluindo, somente Deus conhece as lutas interiores de cada um de nós. Por isso, apenas Ele pode nos julgar. Apegar-se à literalidade das leis incorre-se num rigorismo inquisitorial típico da Idade Média. E tem mais. Deus nos fez imperfeitos, incompletos, fracos, mas ávidos de felicidade e capazes até de se apaixonar. Ele sabe disso!

 

FILIPE

Autoria e outros dados (tags, etc)


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.10.2017 às 22:11

A postagem ficou interessante, até um pouco infantil, dessa forma sem pesar a consciência podemos refletir as nossas ações e procedimentos, e quem sabe viver de forma mais simples, solidária e deixar o veredito pro Juiz.

Carlos Lopes.
Imagem de perfil

De feldades a 28.10.2017 às 23:53

Carlos, então acertei!
A ideia era essa mesmo, que saísse "infantil".
Abraços!!!
Imagem de perfil

De aureliano a 04.11.2017 às 18:39

Você me fez lembrar o finalzinho do "Auto da Compadecida". Realmente, a Misericórdia de Deus foge totalmente à lógica humana. Também nós, quando usamos de misericórdia para com alguém, saímos de nossas categorias puramente racionais para acompanharmos a Jesus que se compadecia e perdoava sempre. Entramos na dimensão de um Mistério que nos ultrapassa e nos envolve no seu encantamento e fascínio.

Na Carta de Tiago temos um texto interessante que ilustra também o que você escreveu: "Falai, pois, e agi como os que hão de ser julgados pela Lei da liberdade, porque o julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento" (Tg 2,13). Ou seja, somente Deus pode julgar, e seu julgamento se dá a partir do exercício da misericórdia por parte de cada um de nós.

Alguns teólogos mais ousados chegam a dizer que seremos julgados pelos pobres. Talvez fundados na palavra de Jesus: "Tudo o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,40). Parece que o critério do julgamento final é a ação benevolente em favor dos pequenos e sofredores. Nem passa tanto pelo crivo moral-doutrinal. Aliás, este último deve ser nosso recurso para o exercício da misericórdia e da caridade fraterna.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.11.2017 às 02:04

Tivemos aqui verdadeiras aulas de Escatologia: aquela ciência teológica que busca compreender e aprofundar as últimas coisas que acontecerão ao ser humano quando estiver para partir deste mundo!
Dizem que lá nos céus toparemos com duas certezas:
- encontrar lá pessoas que nunca pensaríamos estar lá
- não encontrar por lá pessoas que jurávamos que eram muito santas...

Tem um porém. Estas surpresas são somente para quem chegar lá.
Deus nos ajude. Amém!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.11.2017 às 00:47

Olá Filipe
O último comentário é de minha autoria
Mas não consegui botar meu nome como era antes
Abraços. Frei Gabriel

Comentar post





Comentários recentes

  • Renato Pires

    É impressionante como os mais velhos desenvolvera...

  • Anónimo

    Felipe eu o admiro muito, todos os contos que escr...

  • feldades

    Você me vê com seus 'olhos de bondade'. Obrigado p...

  • feldades

    Este é um singelo tributo a ele. Textos melhores f...

  • Anónimo

    Mais uma vez, Mano, você nos brinda com um esmerad...