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A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.
Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo.
Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz.
Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal. E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa.
Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um celular emprestado. “Para que o celular?” “Pra chamar a polícia!” “Mas o que está acontecendo? O seu pai não está em casa?” “Ele não é meu pai e a minha mãe quer chamar a polícia pra ele.”
Era por volta do meio-dia quando aquelas crianças me chamaram ao portão. Por ser assim tão cedo, tão dia, pensei ser algum exagero delas, ou da mãe, e não dei curso às minhas preocupações. A luz do sol parece afastar certos perigos, que se supõem afeitos à escuridão. Com esse entendimento, eu disse apenas que os pais deveriam se acertar e, não havendo acerto, que a mãe fosse à delegacia de polícia para registrar queixa. Por isso, não emprestei o celular nem chamei a polícia, mas deveria ter feito uma coisa ou outra.
Há um ditado idiota que diz: “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher.” Discordo cabalmente. Mete-se a colher, o garfo e a faca! Foi pensando nesses “talheres”, que dias depois procurei uma advogada para notificar extrajudicialmente o sujeito. A advogada foi muito simpática, mas preferiu “não se meter” e me orientou a fazer denúncia anônima no site do Ministério da Justiça. Procurei outra advogada, que também se esquivou, alegando razões semelhantes às da colega. “A cidade é pequena... todo mundo se conhece... fica difícil... você sabe como é, né?...” Pensei: “Puxa vida... mas nem pagando?!”
Todo aquele redemoinho de más recordações que me assaltaram durou uma fração de minuto, e eu tinha de fazer alguma coisa. Então resolvi gritar, mas gritar alto, cada vez mais alto. Voltei à varanda e berrei a plenos bofes: “O QUE FOI, VIZINHA? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? VOU CHAMAR A AMBULÂNCIA! PODE FICAR TRANQUILA, PORQUE A AMBULÂNCIA ESTÁ VINDO!”.
A minha voz tonitruou por vales e montes, alarmou a vizinhança, mas me trouxe de volta o silêncio noturno. Não sei por quê, mas naquela casa está reinando uma inquietante quietude.
Por que louva-deus? Porque aquele desinfeliz pontua todas as suas frases com um “Glória a Deus”, e não há glória nos seus atos nem parece haver Deus na sua vida. Para mim ele é um ‘louva-deus’, mas não o inocente inseto.
Nota: estou de mudança para feldades.blogspot.com
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