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PERDAS

por feldades, em 09.10.21

Cheguei ao ponto de ônibus às ‘seis horas e vinte e cinco’— como faço todos os dias, de segunda a sexta-feira. Há vezes em que o ônibus atrasa uns minutinhos, chegando às seis e meia. Dessa vez, no entanto, ele não atrasou.

 

Como sempre, uma senhora já está lá desde muito antes de eu chegar. Com cigarro aceso, fazendo fumaça e pensando na vida, ela me parece bastante simpática, mas de pouco assunto. Chego, dou-lhe o bom-dia e também fico em silêncio até o “cata-louco” chegar.

 

De uns tempos para cá, no entanto, passamos a trocar algumas frases banais do tipo: “que frio!”, “que calor!”, “que seca!”, “que chuva!”, e nada mais do que isso.

 

Hoje, porém, fomos um pouco além do prosaico. Eu sentia frio, mesmo com um casaco, e ela em trajes de verão.  Perguntei se fazia frio mesmo ou estava febril, e expliquei o motivo. Extraí um dente, estou com vários pontos, tomei anestésico e aquilo tudo me afetou bastante, só conseguindo dormir à noite depois de tomar dipirona.  Ela disse que não fazia muito frio, mas que não estava quente também. E disse mais. Hoje teria um dia bastante agitado. Disse que deveria sair do serviço para fazer compras etc., e que resolveria alguma coisa da família de um primo que falecera anteontem. “Seu primo faleceu? Com que idade?”, perguntei a idade, mas não o porquê (não gosto de saber a causa mortis, porque não tenho vocação para legista). Ela disse ‘sessenta e cinco’, e eu respondi que não era velho. Em seguida, ela me disse que perdeu uma sobrinha, e esta tinha 35 anos – o que me deixou bastante assustado. Dessa vez não foi preciso perguntar a idade, mas eu quis saber se o nome dela era Juliana; quase perguntei se foi covid, mas essa palavra tem causado alguns atritos e eu não queria aborrecer alguém e muito menos ser aborrecido. “Não, a Juliana é outra pessoa, e já faz dois meses que partiu; minha sobrinha era a Aline, que faleceu semana passada”.

 

O ônibus apontou na curva, mas a tempo de ela ainda acrescentar algo. Disse que, há tempos, teria perdido uma irmã e a mãe, e com diferença de apenas seis meses entre uma e outra.

 

Nesses ínfimos quatro minutos de prosa, foram quatro longas perdas relatadas pela minha colega passageira. Ao subir os degraus da embarcação, apenas tive tempo de dizer uma ‘platitude acaciana’ -  algo típico do ‘Conselheiro Acácio’, um personagem célebre de Eça de Queiroz: “A vida são perdas”. Ela concordou e entrou; eu entrei também. Paguei a passagem e me acomodei num banco alto perto da roleta, e ela foi para o fundo, sentando-se no banco de sempre. Nesse momento, pensei: “Ela perdeu o pai, a mãe, irmã, sobrinha, primo... E eu aqui, triste por ter perdido um dente!”

 

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