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SEU MIGUEL

por feldades, em 23.10.15

Publicado originalmente no 'blogdofilipemoura.com', em 16/03/2012

 

Completou 90 anos e diz que não quer viver mais. “Vivi muito e este ano eu quero morrer”. Disse isso, porém, traído por um sorriso no final da frase, deu a entender que não é bem assim. Seu Miguel quer viver mais e, se aguentar, mais 90 anos! 

 

Não se sabe ao certo quanto tempo seu Miguel está internado naquela casa: se 10, 15 ou 20 anos. Quem sabe são os funcionários que cuidam da papelada. Mas ali, quem cuida de papéis não cuida de pessoas. Quem informa alguma coisa a seu respeito é um companheiro. Este afirma, sem segredo, que seu Miguel tem um filho. E que esse filho apareceu somente no dia em que “sepultara” o pai naquele "jazigo" de velhos, que pedem para morrer.

 

Passa Vinte, de onde veio seu Miguel, é um lugarejo não muito distante. De carro, meia hora; a pé, não há como. Principalmente para quem já é nonagenário – não é, seu Miguel? Pois o grande sonho deste homem é visitar sua terra. Ele só fala nisso. 

 

Embora católico, certo dia seu Miguel estava decidido a mudar de religião. Chegara, de lá das bandas de Passa Vinte, um sobrinho protestante. Seu Miguel estava eufórico, porque entendeu que o sobrinho o levaria consigo. Estendeu sobre a cama umas calças, camisas, chapéus, ceroulas e uma pequena mala onde pretendia acomodar todo aquele enxoval. Ao chegar, deparei-me com aquele movimento. Sentado ao lado, estava um atônito senhor dizendo: “Eu não posso te levar. Estou velho e nem posso comigo, como vou cuidar do senhor?...” Seu Miguel não ouvia ou fingia não ouvir. Estava decidido a se mudar dali de vez. Ao me avistar, foi logo dizendo: “Este é o meu sobrinho. Ele vai me levar. Tem um quarto lá pra mim. Assim, eu moro com ele e mudo pra religião dele. Eu sempre fui católico, mas como ele é crente..., fico crente também.” Dizia isso, parecendo-se meio desconfortável com a iminente "apostasia". Parava um pouco com a arrumação, como que pensando: “Será que Deus vai gostar?...” 

 

O sobrinho começou a ficar apertado. “Vim aqui ver meu tio. Não posso levá-lo comigo. Também sou velho e tenho problema de coração. Como pode um saco vazio segurar outro saco vazio? Dois velhos morando juntos?!” Seu Miguel não dava bola para o que ouvia,  ou continuava fingindo não ouvir. Concentrava-se na arrumação de sua mudança, dizendo baixinho para si: “Minha aposentadoria, eu passo para ele. Qualquer pratinho de comida que ele me der, tá bom pra mim. Não preciso de muita coisa.” 

 

Mas não foi desta vez que seu Miguel mudou de religião, nem de casa. Continuará católico e, pelo que se vê, por um bom tempo ainda. Porém, sem a tão sonhada Passa Vinte.

 

FILIPE

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4 comentários

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De Everton Souza a 24.10.2015 às 01:16

Tadinho do "seu" Miguel! Ele está (ou estava) carente demais. Queria apenas companhia, mesmo que fosse do seu primo crente. O mais engraçado nessa história é que "seu" Miguel, ao interpelar o primo, fingia (ou não ouvia mesmo) que não era possível o seu desejo...
Resumindo, trata-se de um homem com alma pura, alma boa. Mesmo que o primo não o leve, um dia Deus o levará consigo (não estou desejando o morte dele, rsrsrsrs) e será para um lugar muito melhor do que a tão sonhada Passa Vinte.
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De Aureliano a 24.10.2015 às 17:15

Filipe,
Como você bem sabe melhor do que eu, há milhares de "seu Miguel" e de "dona Maria" nestas condições. Deve ser muito triste viver na impossibilidade de realizações de sonhos tão simples e plausíveis. Acho que a melhor coisa do mundo é morrer feliz, em paz, com consciência tranquila, com sonhos realizados, fazendo aquilo de que se gosta, vivendo onde se quer.
João Vianei, nosso irmão muito querido e contador de caso, me dizia nestes dias que o papai respondera a um octogenário como ele que falava a respeito de uma cirurgia grave pela qual iria passar: "Ah, eu também tô esperando ser chamado a qualquer hora!" Segundo o Vianei, o homem desconversou, desconcertado. E não teve jeito: morreu. Quero dizer com isso que o importante mesmo é estar nas mãos d'Aquele que nos deu a vida aqui e, depois de retomá-la, no-la devolverá na plenitude eterna. Mas essa fé não dispensa meu entendimento de que a pessoa deve terminar seus dias fazendo aquilo de que gosta. Mesmo em meio a dores...
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De feldades a 25.10.2015 às 00:10

Ainda hoje, estive com o seu Miguel. Tava alegre. Perguntei a idade, não sabia. O ano que nasceu, 1920. Disse a ele: "Noventa e cinco aninhos, seu Miguel?..." ele respondeu: "É, tô ficando velho..." Um dos velhinhos, seu colega, deu risada. Seu miguel disse que o aniversário é em 28 de setembro. Gosta de um cigarrinho, faz cigarro para os que não conseguem, e sempre divide o que tem com os colegas. Nada é exclusivamente dele. Seu Miguel é uma figura!
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De Everton Souza a 28.10.2015 às 22:58

Grande Felipe, lindo exemplo o seu de visitar o sr. Miguel... é uma lição para mim!

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