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SOBRE SACOS E ANDARILHOS

por feldades, em 29.01.22

Quando menino, eu tinha um primo-avô paterno que, para onde quer que fosse, levava consigo um saco às costas. Lembro bem daquela figura: andar cambaio, chapelão de palha, botas, porrete numa das mãos, e na boca um pequeno graveto. Eu nunca soube o que havia dentro daquele saco nem onde aquele senhor morava. Acho que ele nem tinha casa. No entanto, falavam que tinha muito dinheiro e que seus ‘cobres’ estavam todos naquele saco. Outros já diziam que ele carregava apenas bugigangas e que sua fortuna fora confiada a um abastado sitiante de quem esperava, como recompensa, a mão de uma das filhas. Como o devedor tinha três filhas moças, todas lindas e solteiras – e para meu parente, que não tinha luxo, qualquer uma serviria –, suas chances deveriam ser bastante razoáveis. Todavia, a ‘sorte grande’ não o contemplou. O tempo passou e o velho primo, cada vez mais velho, morreu solteiro.

 

Na minha casa também havia alguns sacos onde púnhamos mantimentos como milho, feijão, fubá, amendoim etc., e que também eram usados para buscar pequenas compras que fazíamos nas vendinhas da roça ou do arraial. Havia dois tipos de saco: o mais comum era o branco, de algodão, que quando rasgava era alvejado e promovido a toalha de banho; e o ‘saco de aniagem’ – pardo, rústico, mais conhecido por “saco de mauá”. Este era feito de um tecido grosso, resistente, talvez fibra de juta ou sisal, e que tinha, dentre outras, a humilde função de guarda-chuva. Para uma neblina não havia capa melhor. No tempo das águas, durante o plantio, meu pai fazia uma espécie de capuz com aquele ‘saco de mauá’ e partia para o roçado.  E atrás dele, íamos nós, cada um com seu “capuz”.

 

Voltando ao meu primo-avô, que passou a vida carregando num único saco todos os seus bens, sonhos e frustrações, eu me recordo de um tio-avô, primo dele. Também este meu tio não tinha parada nem morada. Ora ficava na casa de um parente, ora na casa de outro. Muitas vezes ele passava na nossa casa, ficava conosco uns poucos dias e seguia um caminho, e qualquer caminho lhe servia. Sobre esse tio, a única coisa que o vi carregando em suas andanças foi um guarda-chuva velho, desbotado e com barbatanas quebradas, e que deixara esquecido no paiol de casa. E um paletó, também velho, desbotado e puído. No mais, o tio vivia só, falava sozinho e dava risada do que dizia de si para si. Além da roupa do corpo, um pedaço de rapadura, amendoim e um cigarro de palha, nada mais lhe faltava para ser feliz.

 

Quando a saúde ajudava, meu velho tio andava pelas matas, fazia um grande feixe de lenha e o depositava no terreiro de casa. Depois do almoço, costumava sumir. Ele subia o morro e ia tirar uma soneca à sombra de uma moita de bambu na brisa da tarde e ao som dos pássaros e do farfalhar das folhas. E se a saúde, sempre frágil, permitisse, ele ousava mais. Aventurava-se em um ou dois mergulhos no rio, cumprindo assim sua agenda de banho semanal.

 

Aqui, um fragmento da história de vida de dois senhores. A sua maneira e a seu tempo, cada um viveu e tentou ser feliz.

 

FILIPE

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5 comentários

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De José de Anchieta a 29.01.2022 às 18:27

Eita que memória Felipe. Conheci os dois. Tanto detalhe que me fez voltar no tempo, mais que perfeito. Parabéns. Seus blogs nos ensinam que "recordar é viver! "
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De Anónimo a 29.01.2022 às 20:23

Puxou a teu pai,belíssimas histórias.
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De Miguel Lucas a 29.01.2022 às 23:40

É um prazer ler os seus textos!
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De Frei Gabriel a 30.01.2022 às 01:37

Sob sua pena, parece que para ambos não havia pena! Que pena que o tempo de ninguém tem pena!
Bela homenagem aos nossos estranhos e curiosos primos!
Um saco foi toda a sua bagagem!
E de que tanto precisamos, se desta vida nada levamos!
Grato pelo dom de sua prosa e poesia!
Freizinho
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De Cynthia Andrade a 30.01.2022 às 02:42

Felipe, você tem a capacidade de nos fazer ver as pessoas, os fatos, com todas as características, não apenas imaginá-los. O texto de hoje me fez lembrar de uma senhorinha, do Lar dos Idosos, onde fui voluntária por mais de 10 anos. Assim que ela chegou lá, não queria “o misturado” da vida desses lugares e levava o que era seu em um trouxinha pendurada no andador. Um dia dei-lhe uma mochila para que ela guardasse ali os seus pertences. Não sabia se chorava pela emoção da felicidade que proporcionei com tão pouco ou pela tristeza de ver uma vida inteira cabendo dentro de uma mochila.

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