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TIA CÉLIA

por feldades, em 02.01.21

Tia Célia nos deixou numa triste manhã deste verão. Gostava de conversar com ela, e admirava sua cultura refinada, seu bom gosto, sua elegância. Era uma mulher bonita, esguia, tinha a “magreza de uma santa” como diria a Fernanda Montenegro. Nos anos cinquenta, foi normalista numa pujante Amparo que exalava cultura com teatro e cinemas, que não mais existem. Conversar com a tia Célia, principalmente caminhando pela cidade, era adentrar um passado fortunoso de uma Amparo colonial com suas ruas de paralelepípedos e postes de iluminação londrinos. Isso a deixava um tanto nostálgica, contudo não necessariamente triste. Até porque ela saíra daqui muito jovem, logo após se formar, para lecionar em outra cidade onde tocou a vida.

 

De vez em quando, tia Célia vinha a Amparo visitar uma de suas irmãs, que é a minha sogrinha, de quem ela gostava muito e com quem ainda podia dividir reminiscências. Pude participar de alguns desses momentos, que me foram de muita alegria. Eu gostava de lhe preparar o almoço com fava no cardápio, comprada de meu finado amigo Jorginho, lá de Minas. Tia Célia perguntava: “E aquele feijão branco?... Que delícia que é aquilo!...” Eu respondia: “Ah, a fava! Temos aqui na geladeira... Eu só estava esperando a senhora chegar pra fazê-la”. Então eu preparava uma comida bem ao gosto dela: invariavelmente frango, arroz, salada e fava. Ela pegava um fundinho de prato e comia, depois repetia e elogiava e repetia e elogiava, e eu ficava todo bobo. Mais tarde, depois do almoço, ela pegava uma revista ou um jornal, sentava-se no sofá da sala e lia, lia, lia, sem cochilar!

 

Mas o que mais me marcou nessas suas visitas foi uma vez em que pusemos uns CDs da chamada ‘Velha Guarda’, e ela ouviu por horas. Eram nomes como Francisco Alves, Lupicínio Rodrigues, Dalva de Oliveira, Orlando Silva etc. Enquanto tocava a música, ela pegava a capa observava as fotos e viajava naquela nave musical. Talvez essa tenha sido a última vez que tia Célia ouviu suas músicas preferidas.

 

Noutra ocasião, eram tempos natalinos, ela me acompanhou para uma novena de Natal na casa de uma senhora. Tia Célia conhecia todas as mulheres que estavam naquela reza e duas delas foram suas colegas de escola, lá dos tempos de normalista. Na volta, ela engatou animada prosa com dona Claudete e dona Vera e eu fiquei só observando. Mas a tia Célia ficou tão eufórica e se soltou de tal maneira, que parecia uma menininha ao rememorar, às gargalhadas, antigos episódios vividos por elas.

 

Cada vez mais tristonha e deprimida com a enfermidade da irmã, tia Célia adoeceu. Esperando que a pandemia passasse, guardei uma porção de fava para o nosso próximo encontro, que não pôde acontecer. Tia Célia não esperou e partiu no dia 28 de dezembro, aos 87, quando se completaram 17 anos da morte do esposo. Com ela foi um pedaço de todos nós, mas não só. Foi também um riquíssimo acervo de histórias de sua família, que jamais será recuperado.    

 

FILIPE

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2 comentários

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De Aureliano a 05.01.2021 às 14:11

Que crônica primorosa!
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De Anónimo a 10.01.2021 às 10:39

Uma vida!
Uma historia!
Um legado!
Uma cronica!
Uma poesia!
Saudade!
Eternidade!

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