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TOKINHO

por feldades, em 15.01.23

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Tokinho partiu e partiu meu coração. Eu não estava em casa na sua inesperada despedida. Parece até que ele não me quis por perto para que eu não sofresse com sua agonia.

 

Tenho outros cães e já tive tantos outros, mas Tokinho era especial em tudo. A pelagem espessa e caramelo-escura, os olhos em castanho-mel, as orelhas arregaladas quando vigilante, o rabo abandeirado e agitado horizontalmente quando pedia algo... Agora tudo isso é passado.

 

Será triste a minha chegada. Não vou ver ao longe o cãozinho eufórico me esperando no portão. E depois correndo e latindo para a porta de casa, e, em seguida, ronronando feito gato mimado.

 

Tokinho era um cão de guarda e companhia. Mais de companhia porque dócil; um pouco de guarda porque sinalizava a chegada de alguém. Seu latido, antes forte e vigoroso, com a idade foi perdendo corpo, ficando quase fanhoso. O faro acurado permaneceu, mas a surdez o imergiu num estranho universo de silêncio.

 

Eu teria muito a escrever sobre esse amigo – talvez um livro. Isso porque, em mais de dez anos, Tokinho foi intenso em nossa vida. Sua “mãe”, que está arrasada, perdeu o companheiro de todas as horas, boas e más. Tokinho só não dirigia. Bastava o tintilar da chave do carro que o “moleque” se agitava todo e descia célere para a garagem. E era só abrir a porta que, num salto, o safadinho se aninhava no banco de trás do automóvel e de lá ninguém o tirava. Ali ele era soberano e seu mau-humor era indisfarçável caso eu quisesse sentar ao seu lado. Se necessário, ele até permitia, mas ficava tão mal-humorado, que eu evitava. E enquanto eu estivesse ali, ele ficava “de mal”, com o focinho virado e jamais me olhava na cara. Claro que isso era apenas charme, porque o Tokinho era um cãozinho amável e feliz.

 

Outra coisa que o Tokinho amava era comida. Como o menino comia... meu Deus! Na hora da refeição, ele ficava no cantinho, sempre no mesmo lugar, esperando seu pratinho. Em casa, cada um tem seu lugar específico enquanto a comida é preparada, mas o Tokinho era mais disciplinado. Posto o pratinho no chão, ele devorava rapidinho para, depois, ficar cobiçando a comida alheia. Assim que os colegas abandonavam a “mesa”, ele literalmente varria tudo com a língua, não deixando sequer um grãozinho de ração.

 

Muitos de meus textos foram escritos tendo este cãozinho por perto. Seu berço era uma bacia que ficava no escritório – um cômodo simples, apartado da casa. Enquanto ele estava enroscado no seu leito e sonhava seus sonhos bons, eu divagava e dedilhava o teclado em busca de palavras menos toscas, tentando escrever um texto minimamente apresentável.

 

Ultimamente nosso cãozinho já quase não saía de casa. Muitas foram as razões para isso e uma delas era sua dificuldade para subir no automóvel. Estava gordinho e, quando saíamos, ele preferia continuar no seu lugar preferido, que era embaixo da mesa da cozinha. No entanto, ele conseguia fazer longas caminhadas comigo. Ah, como eu gostava de andar com o Tokinho pelo bairro! Era sempre nas manhãs de sábado. Por preguiça, talvez, eu parei de andar com ele e planejava retornar a caminhada em breve, mas... Agora acabou!

 

Vou parar de falar desse cãozinho, a quem Maria Eugênia chamava de Tutu, porque estou triste e desesperançado. Humanos, temos muito o que aprender com os cães – sobretudo a fidelidade, o desprendimento e a gratidão dessa pequena criatura de nome Tokinho.

 

FILIPE

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10 comentários

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De Sandra a 15.01.2023 às 08:29

Patudos assim como o Tokinho não são só amigos, tornam-se também família e uma parte de nós mesmos. Deixou-lhe aqui uma linda homenagem.
De certeza que se o seu amigo Tokinho soubesse ler, a esta altura estaria saltitando e ladrando feliz no céu dos patudos, dizendo aos novos amigos dele que este texto é seu . Força aí.
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De feldades a 25.01.2023 às 23:06

É, Sandra. Os 'patudinhos' são realmente muito especiais. Só que os tem sabe disso. Obrigado, e um abraço.
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De Cynthia Andrade a 15.01.2023 às 13:38

Meu amigo, sei exatamente a dor que você sente. Já perdi talvez uns dez filhotes, alguns tendo em minhas mãos a horrível decisão de deixá-los ir para aliviá-los o sofrimento. E hoje tenho a certeza de que terei um bando de orelhas e rabos abanando quando sair desta dimensão.
Tokinho escolheu perfeitamente a hora de ir. Até nesse momento ele foi o chefe. Não quis te ver sofrer.
Neste momento, com palavras tão lindas escritas para ele, certamente se encontra com a cabecinha pendurada em uma nuvem, bumbum empinado e o rabinho abanando pra você, não só pelo lindo texto, mas agradecendo por uma vida de amor, carinho, afagos e cumplicidade.
É como se ele dissesse: te espero, mas ainda é cedo!
Receba meu abraço!
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De feldades a 25.01.2023 às 23:11

Cynthia, para mim nada é tão necessário quanto reencontrar na 'outra dimensão' as criaturas queridas. Tokinho é uma delas. Um abraço!
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De Andréa Piffer a 15.01.2023 às 17:07

Lindo memorial ao Tokinho! Desejo que a tristeza não demore em seus corações! Um abraço apertado, um não, dois: um pra você e outro pra Rosana.
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De feldades a 25.01.2023 às 23:12

Abraço retribuído, Andréa!
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De Aureliano a 16.01.2023 às 11:07

Eu me lembrei das diversas vezes que você mencionava o cãozinho de estimação quando escrevia algumas de suas crônicas. Agora, chegou o fim dele, como chegará também o nosso. Oxalá deixemos rastros momoráveis!
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De feldades a 25.01.2023 às 23:13

É, mano. Precisamos deixar boas pegadas para os que nos sucedem. Um abraço.
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De Aline a 17.01.2023 às 01:23

Meu caro amigo, eu sinto profundamente por sua perda!
Experienciar o amor através dos animais é muito especial, sobretudo o amor de um cachorro, que nada mais são que o próprio amor!
Com certeza seu fiel aumigo recebeu e deu muito amor, que isso acalente seu nobre coração, isso jamais morrerá, fique certo!

Um forte abraço!

Aline
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De feldades a 25.01.2023 às 23:15

Obrigado, Aline, pelas palavras tão carinhosas. Um abraço.

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